Cartas do Mundo

Carta de Paris: Guernica, muito mais que um quadro

O mural de Picasso se transformou num manifesto antifascista e percorreu o mundo inteiro antes de ancorar em Madri

04/07/2018 10:20

 

 
« Não, a pintura não é feita para decorar os apartamentos, é um instrumento de guerra ofensiva e defensiva contra o inimigo ».

A frase de Picasso só surpreenderia quem não conhecesse seu engajamento pelos republicanos espanhóis durante a Guerra Civil espanhola (17 de julho de 1936-1° de abril de 1939) e sua posterior adesão ao Partido Comunista Francês (PCF), em outubro de 1944.

Uma das imagens mais reproduzidas no mundo e talvez o quadro mais famoso do século XX, « Guernica » é um manifesto antifascista, um grito de revolta contra o bombardeio da pequena cidade basca Gernika (com k e sem u) dia 26 de abril de 1937, por 44 aviões da Legião Condor, da Alemanha nazista, e 13 aviões da Aviação Legionária da Itálilia fascista.

Foi o primeiro bombardeio de avião da história da humanidade. E visava civis, homens, mulheres e crianças.

A aliança nazifascista apoiava os franquistas contra o governo da Segunda República Espanhola. Os republicanos espanhóis foram derrotados pelos militares liderados pelo general Francisco Franco, que instalou a ditadura em 1° de abril de 1939.

Não foi a primeira ditadura militar inaugurada num 1° de abril. Vimos outra em 1964.

O museu Picasso de Paris conta a história do quadro e de toda a iconografia que o precedeu e o sucedeu. A exposição termina dia 29 de julho. « Cela vaut le déplacement », como dizem os autores do guide Michelin a propósito de um restaurante altamente recomendável.

E como vale. A exposição « Guernica » é fenomenal por seu interesse histórico, político e artístico. Ela é tão rica de quadros do próprio Picasso, croquis, estudos, fotos, vídeos e esculturas do artista e de outros artistas que até esquecemos o grande ausente : o Guernica original. Ele está reproduzido em tamanho natural e extasia a todos pela força com que denuncia a guerra e a barbárie nazifascista que tinha apenas começado a se revelar em toda sua violência.

Exposição Universal de 1937

O grande mural foi uma encomenda para o Pavilhão da Espanha da Exposição Universal de Paris, de 1937. Amigo dos republicanos espanhois que haviam ganhado as eleições de 1936 com a Frente Popular, Picasso aceitou o trabalho com entusiasmo.

O bombardeio da cidade basca fez o artista mudar totalmente seus primeiros projetos e retratar a guerra, o caos, a destruição que viu nas fotos dos jornais. A pintura em formato monumental foi feita em tempo recorde : de 1° de maio a 4 de junho. Animais, mulheres e crianças de Guernica, em plena agonia, marcaram o século XX através do pincel de Picasso.

Dora Maar – então companheira do artista e depois retratada inúmeras vezes por ele na série « A mulher que chora » - foi autorizada  a fotografar a evolução do quadro, que ia a cada dia se definindo no atelier parisiense.

Poucos anos depois, muitos quadros do artista faziam parte da exposição « Arte degenerada », na qual os nazistas tentavam estigmatizar a arte moderna, o surrealismo e, de passagem, vários artistas judeus.

Ajuda aos republicanos

Este ano, « Guernica » não pôde voltar à cidade que o viu nascer pois não sai mais do Museu Rainha Sofia de Madri, desde que foi entregue à Espanha, em 1981, conforme desejo do artista. No início da Segunda Guerra, Picasso enviara « Guernica » e todos os desenhos preparatórios para ficarem em depósito no Museum of Modern Art  - MoMA, de Nova York.

Antes da guerra, porém, « Guernica » viajou pela Europa (Noruega e Inglaterra). De 1939 até 1941, o quadro foi exibido em diversas cidades dos Estados Unidos. Com o dinheiro arrecadado pelas exposições, Picasso ajudava os republicanos espanhois que se exilaram aos milhares, principalmente na França.

Entre pausas em Nova York, Guernica voltou a percorrer diversas cidades do mundo. Foi exposto em Milão e São Paulo de setembro de 1953 a fevereiro de 1954. Voltou a Nova York para uma exposição de um ano entre 1954 e 1955. Depois veio novamente à Europa até voltar ao MoMA onde ficou definitivamente, de 1958 a 1981.

Em entrevista ao jornal « Le Monde », em 1969, Picasso declarou que « Guernica » não voltaria à Espanha « senão quando fosse restaurada a República ».

Picasso morreu em 1973. O ditador Francisco Franco – que governou a Espanha por 36 anos – morreu em 1975 e dois dias depois Juan Carlos foi proclamado rei da Espanha. As últimas eleições no país, em 1936, haviam dado a vitória aos republicanos reunidos na Frente Popular. Quarenta e um anos depois, houve novas eleições livres e uma Constituição democrática instaurou a monarquia parlamentar.

Não era a República dos sonhos de Picasso, mas era a democracia…

Uma lenda que ficou famosa conta que, numa visita ao atelier do artista, Otto Abetz, embaixador do regime nazista em Paris, teria perguntado a Picasso, diante de uma foto do quadro :

« Foi você que fez isso ? »

« Não, foram vocês », teria respondido o artista.

Pessoalmente, vivi uma cena incrível diante de « Guernica » no Museu Rainha Sofia, acompanhada da minha filha Clarisse. Crianças de uma turma de jardim de infância se sentaram em frente ao quadro, enquanto uma das professoras fazia comentários sobre a obra.

O silêncio e o interesse dos pequenos espanhois diante de « Guernica » é uma das cenas mais emocionantes vividas por mim em um museu. Inesquecível.

Enquanto isso, os brasileiros se endividam para levar seus filhos ao reino da estupidez, na Flórida.



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