Cartas do Mundo

Carta de Lima: Kuczynski em queda e as crises humanitárias

 

12/03/2018 12:55

 

 
A maioria dos peruanos acha que o presidente Pedro Pablo Kuczynski (PPK) deveria deixar o cargo. As pesquisas mostram que sua desaprovação subiu de 53% a 63% por cento, justo agora em que deverá enfrentar uma nova moção de destituição no parlamento, por (claros) indícios de corrupção. Kuczynski e Keiko Fujimori estão em setores políticos diferentes, mas os dois compartilham a mesma rejeição e descrédito popular: ambos perderam cinco pontos de aprovação em apenas um mês.

Kuczynski (conhecido em seu país como PPK, pela sigla do seu nome completo) tem fortuna, família e passaporte estadunidenses, mantém certo apoio da classe alta (pouco mais de 50%), que é o que o mantém no cargo os setores mais empobrecidos são os que exigem a sua saída (60% dos entrevistados de baixa renda expressaram esse desejo). A desaprovação da gestão do mandatário subiu de 73% em fevereiro para 79% em março, o nível mais alto desde a sua vitória eleitoral, em junho de 2016.

Para 62% dos entrevistados, a declaração de Jorge Barata, ex-representante da empresa brasileira Odebrecht no Peru, afirmando que a companhia ajudou a financiar a campanha eleitoral de PPK em 2011 (assim como a de outros candidatos), comprometeu ainda mais o chefe de Estado. Mais da metade dos peruanos estima que ele não terminará seu mandato em 2021, como está previsto.

Keiko Fujimori, que foi duas vezes candidata presidencial pelo partido neoliberal Força Popular (FP), também registrou queda em seu apoio: de 29% de aprovação, baixou a 24%. O ex-presidente Alan García, acentuou seu declínio, chegando a meros 8%. Curiosamente, os dirigentes centro-direitistas Alfredo Barnechea e Julio Guzmán, sem realizar atividades públicas, subiram de 21% a 28%, e de 26% a 30%, respectivamente. Por sua parte, a principal liderança progressista do país, Verónika Mendoza, foi uma das que teve maior crescimento: aumentou sua credibilidade de 18% a 24%.

PPK não é inteligente, nem honesto, nem leal. É um indivíduo conhecido por seu estilo escorregadio. Acostumado às palhaçadas, matinês com vermute e baladas noturnas, para depois aparecer inaugurando obras como se nada estivesse acontecendo, e achando que com isso pode comover o país com o discurso de “me deixem continuar trabalhando”. “Talvez construa colégios e rodovias, mas ao mesmo tempo já destruiu toda a confiança que havia acumulado. Realmente, creio que não pode continuar sendo o presidente do Peru, por ser incapaz, e por ser imoral”, comenta a advogada e ativista Lourdes Calderón, outrora apoiadora de sua candidatura.

O presidente peruano foi um obediente construtor do chamado “Grupo de Lima”, uma ideia de Washington lançada em agosto passado, com a participação de outros quatro países com poder econômico e territorial (Canadá, Brasil, México e Argentina). Em sua primeira declaração, a entidade atacou o governo de Nicolás Maduro acusando-o de produzir uma crise humanitária descomunal e a perseguição política de adversários.

Agora, a oitava Cúpula das Américas, que acontecerá no Peru, nos dias 13 e 14 de abril, corre o risco de não se realizar, já que a aliança entre o governo de Donald Trump e o de Kuczynski insiste em impedir a realização das megaeleições na Venezuela, programadas para maio, ameaçando até mesmo com uma possível intervenção militar.

O economista Oscar Ugarteche afirma que o atual governo de Kuczynski é conhecido internacionalmente como farsante e cúmplice, e não por ser coerente. O presidente peruano que vocifera contra uma crise humanitária na Venezuela, estando disposto a transformar o país vizinho numa Síria sul-americana, é o mesmo que, há poucos meses atrás, indultou o ditador Alberto Fujimori, também alegando razões humanitárias.

A memória parece ser frágil, para não lembrar da crise humanitária que o Peru viveu entre 1988 e 1993, a guerra interna dos Anos 80, com mais de 70 mil mortos, o que levou a um conflito social, escassez de água e energia, além da grande insegurança, devido às bombas espalhadas pelas cidades. Como pode um governo, esquecendo a tradição diplomática peruano de não intervenção, apela à queda de um governo de um país irmão argumentando supostas razões humanitárias?


Mariana Álvarez Orellana é antropóloga, docente e investigadora peruana, analista associada ao Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)

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