Cartas do Mundo

Macri já não é mais imune aos problemas

O fenômeno ocorre desde meados de dezembro, quando o macrismo conseguiu aprovar a lei que cortou o valor das aposentadorias, que teve um altíssimo custo político

20/02/2018 07:42

 

Por Martin Granovsky

Mauricio Macri deixou de ser imune aos problemas que a Argentina vive. Esta é uma grande novidade política. As infecções e toxinas geradas por sua administração começam a representar um perigo para o seu governo e para ele próprio. O fenômeno ocorre desde meados de dezembro, quando o macrismo conseguiu aprovar a lei que cortou o valor das aposentadorias, que teve um altíssimo custo político: nenhuma pesquisa dava rejeição menor que 60% para a medida.

A recente saída do subsecretário geral da Presidência, Valentín Díaz Gilligan, deve se agregar a essa sequência de infortúnios que começou em dezembro. O assessor foi envolvido num escândalo por não declarar uma conta de mais de um milhão de dólares em um banco de Andorra, quando o principado dos Pirineus ainda era um paraíso fiscal. Para que o perigo não ainda mais sua popularidade, Macri solicitou a renúncia do funcionário.

O hábito dos financistas de recorrer às contas em sociedades offshore é um problema gigantesco em todo o mundo. É algo tão naturalizado hoje em dia que sequer revisam a irritação social que as explicações podem provocar na sociedade. A lei favorece manobras como essa, e os que dela se aproveitam têm um punhado de discursos na ponta da língua: dizer que não receberam benefício nenhum por isso, ou que não eram realmente acionistas dessas sociedades, ou que só abriram uma continha, sem maiores pretensões. Como se os mecanismos da economia offshore fossem um esporte que qualquer um pode praticar. Como se fosse saudável o uso do dispositivo típico utilizado no mundo para evadir impostos, disfarçar a titularidade da riqueza ou aproveitar os vazios nas regulamentações sobre o comércio para transferir dinheiro entre filiais da mesma empresa. Como se a sonegação não aumentasse o déficit fiscal dos países e não obrigasse a aumentar mais a carga tributárias da classe média e dos trabalhadores.

Valentín Díaz Gilligan chegou a dizer que “só” estava ligado à conta de Andorra por pedido de um amigo. Com uma quantidade próxima a 1,2 milhão de dólares. O amigo é o agente esportivo uruguaio Francisco Paco Casal, um peso pesado da compra e venda de jogadores e um competidor na guerra global pelos direitos de transmissão televisiva dos torneiros de futebol. Ou seja: em sua defesa, Gilligan quis dizer que foi apenas um testa de ferro. Não usou esse termo, claro, porque soa mal, mas esse é o termo adequado para descrever uma pessoa que empresta o seu nome para figurar como titular em um negócio ou atividade jurídica alheia”. Se além disso ficar provado que ele omitiu a declaração dessa informação quando era funcionário de Macri na Prefeitura de Buenos Aires, na época em que essa omissão era considerada delito, ele estaria em situação bastante mais complicada que a de agora.

Que a imunidade já não existe para Macri e para o Governo, situação também evidenciada pelos cantos das torcidas de dois grandes clubes argentinos: San Lorenzo e River Plate. Os funcionários podem até dizer que nem todos os torcedores do River gritaram contra Macri no último jogo do campeonato – neste último domingo, no empate contra o Godoy Cruz, em casa – mas o ministro do Interior, Rogelio Frigerio, que teve que deixar o estádio antes do fim da partida, sabe que os cantos foram entoados pelos quatro cantos do estádio. Os erros de arbitragem contra o time mandante foi o que provocou essa reação? É possível, mas essa hipótese não explica por que o Presidente não foi o alvo dos cantos nos jogos quando não houve erros.

A imunidade não significa necessariamente uma derrota letal nem um desmoronamento. Entretanto, mostra a aparição de uma novidade que, sem dúvidas, afetará a política. Como serão os seus efeitos? É algo que dependerá de macristas e não macristas. Por enquanto, algo está claro: essa mania soberba de contar vantagem e até contar dinheiro diante dos pobres é vista como antipática, para dizer o mínimo, e sobretudo se a condição econômica dos mesmos está piorando devido às políticas dos que, como o presidente, ostentam riqueza.

Esta é uma mensagem que deve ser ouvida pelo ministro do Trabalho, Jorge Triaca, que maltratou uma empregada, segundo um áudio revelado recentemente pela imprensa. E também para o ministro de Economia, Luis Caputo, um Gilligan a escala gigantesca.

Na verdade, é uma mensagem direcionada a todo o macrismo. Parece que ser um governo offshore começa a cair mal.



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