Cartas do Mundo

Carta de Paris: Na França, como no Brasil, o povo é a solução

Macron não convenceu em sua primeira coletiva e os franceses prometem continuar nas ruas

30/04/2019 12:30

 

 
«O povo não é o problema, é a solução».

Essa frase do ex-presidente Lula numa entrevista a Chantal Rayes, correspondente do jornal «Libération» em matéria de capa (antes de sua prisão) foi repetida pelo prisioneiro político mais famoso do mundo em entrevista aos dois jornalistas paulistas, na semana passada. Com direito a demonstração de como o povo que participa ativamente da economia, como beneficiário e consumidor, promove crescimento.

Não vou comentar a entrevista. Muitos analistas políticos no Brasil já o fizeram.

Volto meu foco para as reivindicações do povo que veste colete amarelo nas ruas das cidades francesas e da resposta (previsível) de Macron, na primeira entrevista coletiva de seu mandato, na quinta-feira passada.

Desde 17 de abril os coletes amarelos vão para as ruas todos os sábados para dizer ao presidente que a democracia precisa ser menos vertical e que o povo deve ser ouvido não apenas nas urnas.

Os franceses invisíveis já conseguiram algumas vitórias mas não vão conseguir que o presidente dos hiper-ricos modernisecomme il faut o sistema fiscal francês. No grand débat promovido por Macron durante dois meses, todos os franceses puderam se expressar nos cahiers de doléances colocados à disposição do povo em todas as prefeituras da França. A questão recorrente foi a injustiça fiscal.

 Em sua coletiva de mais de duas horas Macron contemporizou : «O sistema fiscal francês faz o bastante para corrigir as desigualdades na França. Mas, por outro lado, as desigualdades de destino, de origem, de nascimento, aumentaram no nosso país. O remédio para isso se encontra no esforço mais importante em matéria de instrução inicial e ao longo da vida.»

Comentando no Le Monde as respostas do presidente no âmbito fiscal, o economista Alain Trannoy se mostrou cético quanto à ambição de Macron de modernizar o sistema fiscal francês. Ele escreveu :

«Esta visão de correção das desigualdades de origem que acentua o papel da educação encontra sua origem no pensamento radical da III República. Mesmo se todas as tendências à esquerda estão de acordo com a importância da educação, socialistas e comunistas acrescentaram a importância da redistribuição via um imposto de renda progressivo acompanhado de um imposto sobre o patrimônio, também progressivo, que pode incidir sobre a fortuna e sobre as heranças. Os comunistas acrescentam a transformação das estruturas de propriedade do capital».

Sem modificar a abolição do ISF (Imposto de Solidariedade sobre a Fortuna), prometida e cumprida logo no início de seu mandato, Macron já cedeu alguma coisa aos menos ricos : anunciou em sua entrevista coletiva uma redução de 5 bilhões de euros de impostos da classe média e dos menos favorecidos, além dos 32 bilhões de euros já anunciados desde o início do movimento dos coletes amarelos.

O diretor do Libération, Laurent Joffrin, viu nas respostas do presidente a uma centena de jornalistas reunidos no Palácio do Eliseu uma reafirmação de sua linha neoliberal com pequenas concessões em medidas pontuais, mantendo contudo seu programa à direita que prevê, por exemplo, a manutenção da abolição do Imposto de solidariedade sobre a fortuna, presente aos ricos.

Segundo Joffrin, as respostas de Macron aos jornalistas demonstraram seu alinhamento à direita. Uma direita social, que faz algumas concessões aos menos favorecidos da sociedade francesa, mas também a que cede à xenofobia prometendo o retorno das fronteiras, faz o elogio da família etc.

Uma coisa é certa : quem está insatisfeito e vive com dificuldades os fins de mês não vai voltar para casa por causa das medidas pontuais anunciadas por Macron.

Apesar de importantes – como a maior ajuda aos idosos dependentes e pessoas com algum tipo de deficiência, assim como às mães que educam sozinhas seus filhos – essas medidas não devem impedir que o movimento social francês continue descontente com o presidente dos hiper-ricos.

Os que criticam a arrogância de Macron não engoliram suas explicações sobre frases que mostraram um certo desprezo e desdém pelos desempregados e pelos invisíveis em geral.

A incompreensão entre estes e o jovem presidente continua.

Dia 1° de maio, sindicatos e partidos políticos de esquerda sairão às ruas juntamente com os coletes amarelos para mostrar que existe o que os movimentos de esquerda sempre procuraram : uma convergência das lutas por mudanças sociais mais profundas e pela defesa intransigente da qualidade dos serviços públicos, sobretudo as escolas e os hospitais.



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