Cartas do Mundo

Carta do México: Uma avalanche de votos leva Obrador à Presidência

 

02/07/2018 11:41

 

 

Os prognósticos desta vez se cumpriram e uma avalanche de votos catapultou o centro-esquerdista Andrés Manuel López Obrador à presidência de um México submerso em uma grave crise social e econômica, após décadas de governos antipopulares, submissos aos mandados do seu vizinho do norte.

Candidato da aliança “Juntos Faremos História”, formada pelo Movimento de Regeneração Nacional (Morena), pelo movimento Encontro Social e pelo Partido do Trabalho (PT), Obrador terminou uma dura e longa campanha, que enfrentou uma chuva de notícias falsas e mentiras (as já célebres fake news) e a oposição das instituições instrumentalizadas pelo Partido Revolucionário Institucional (PRI), dos onze grandes empresários e da imprensa hegemônica (o que ele chamou de máfia do poder), e agora chega à Presidência do México.

Conduziu com pragmatismo e cautela a esperança por mudanças e o desejo de transformação social pela via institucional e pacífica, após eleições gerais marcadas pela violência, onde 88 milhões de pessoas estavam habilitadas para renovar os mais de 8 mil cargos legislativos e executivos, entre deputados, senadores, nove governadores e o presidente.

Não será fácil governar este México desolado pelas diversas violências que assolam a sua gente: a do narcotráfico, dos assassinatos de jornalistas, dos feminicídios, da recente violência política. Além dessas, há também a enorme violência econômica, que submerge mais de 53 milhões de mexicanos na pobreza – entre eles, quase 10 milhões na indigência mais absoluta.

“O México vive uma profunda degeneração do aparato político, no qual o federalismo formal transformou em feudalismo real, no qual campeia o suborno, o tráfico de influências, a evasão fiscal consentida e, quando não, o poder hegemônico da formação da opinião pública por parte dos carteis da comunicação”, ressalta o analista político Javier Tolcachier.

A enorme insatisfação acumulada e a urgente necessidade de transformações sociais profundas serão fatores de pressão popular insubstituível para se iniciar um novo rumo. López Obrador deverá demonstrar que não é uma continuidade da mentira política, revertendo a orientação e os efeitos do “Pacto pelo México” que foi selado em 2012, para poder deter a reforma educativa mercantilista, recuperar a soberania energética, atacar a financeirização da economia e democratizar as comunicações.

Seu maior desafio será avançar com um programa de reformas econômicas que tire o México da submissão aos Estados Unidos, país ao qual envia 73% do total de suas exportações.

Para poder governar, deverá desarmar progressivamente o crime organizado, mas também mudar os protocolos e modelos do aparato repressivo estatal que também é cúmplice da violência, e assim começar a cimentar uma cultura de direitos humanos, junto com um processo de reconhecimento efetivo dos direitos da pluriculturalidade do México e a reivindicação cultural de suas raízes.

Nada será possível de um dia para o outro, e talvez sequer esses seis anos de mandato serão suficientes, mas será mais fácil se mantiver o entusiasmo da cidadania a seu favor e consegue impulsar um governo com participação da população a seu favor.

López Obrador soube interpretar corretamente a necessidade imperante de regeneração do país. Uma imensa maioria da população não acredita ou (pior) sofre com os males criados pelo “sistema”, e viram nele alguém de fora dessa engrenagem, e comprometido com a transformação do país.

Contudo, não há nada em seu projeto alternativo da nação que implique em uma ruptura estrutural com o atual sistema de dominação. Seu programa fala em recuperar o Estado pela via eleitoral, refundá-lo, democratizá-lo e promover o desenvolvimento econômico, político e social.

As mudanças que anunciou durante a campanha têm a ver com a revisão dos contratos das obras pública e das concessões governamentais ao setor privado, como a construção do novo Aeroporto Internacional da Cidade de México, e as concessões governamentais para a exploração de campos petroleiros e no setor mineiro, que despertaram o alarme unânime dos principais empresários do país.

A aliança

A aliança dos movimentos Morena e Encontro Social (evangélico) moveu politicamente a candidatura de López Obrador à direita. Após esse acordo, outras figuras conservadoras começaram a se somar à coalizão, como o ex-futebolista Cuauhtémoc Blanco, que se tornou o candidato único ao governo do Estado de Morelos, e Manuel Espino, que foi presidente do PAN e vinculado a um grupo de ultradireita chamado El Yunque.

Depois se incluiu o militar da reserva Julián Leyzaola, que, segundo a jornalista Marcela Turati, “tem em seu currículo 19 ocorrências por violações aos direitos humanos e 25 averiguações prévias e atas sendo avaliadas pela Procuradoria Geral da República por delitos como tortura e homicídio”.

“Há duas décadas, Andrés Manuel López Obrador (conhecido pela sigla do seu nome completo: AMLO) vem gerando ódios e amores, mas nunca indiferença”, comenta o analista Carlos Fazio. Foi capaz de transformar o medo, a paranoia e a angústia das pessoas em alegria, e isso, para um povo cansado, indignado, zangado, crítico contra o sistema centenário, impôs o imaginário coletivo de uma mudança necessária.

Durante a campanha, o establishment se mostrou nervoso como nunca. Tanto o nacional quanto o transnacional. Os grandes investidores e financistas (Black Rock e Citibanamex) tentaram sujar a imagem de Obrador, quase em aliança com os dois partidos de direita (PRI e PAN) e com os meios de comunicação hegemônicos, que o acusavam de populista, autoritário, promotor do estatismo fracassado, castrochavista e defensor da venezolanização do país. E também de ser influência pela Rússia.

AMLO foi um excelente administrador dessa raiva popular, e até agora contida (ou brutalmente reprimida), por causa da pobreza, da desigualdade, da violência, da insegurança, da corrupção e da impunidade que só fazem aumentar.

As campanhas sujas do PRI e do PAN ganharam o reforço de importantes representantes do liberalismo oligárquico, como o peruano-espanhol Mario Vargas Llosa e o mexicano Enrique Krauze. Vargas Llosa perguntou se os mexicanos seriam insensatos, usando como exemplo o dramático caso da Venezuela, de votar por algo semelhante.

Krauze publicou um artigo no The New York Times (com o título em forma de pergunta retórica: ¿Adiós a la democracia mexicana?, ou seja, “adeus à democracia mexicana?”) onde afirmou que, se uma vez na Presidência López Obrador decide apelar às mobilizações populares e os plebiscitos, poderia convocar um congresso constituinte, anular a divisão de poderes, subordinar a Suprema Corte, restringir os meios e silenciar as vozes críticas. “O México seria outra vez uma monarquia, mas uma caudilhista e messiânica, sem roupagem republicana: o país de um homem”, escreveu.

Para esses intelectuais oligárquicos, López Obrador é um naco (pessoa mal-educada e/ou com mal gosto), que simboliza a gentalha que pretende se igualar e sonha com a possibilidade de uma ascensão social. E essa “acusação” tem suas bases na facilidade com a que AMLO, com linguagem simples e entendível por todos, se comunica com os mexicanos comuns.

“Ricardo Anaya, o candidato do PAN, apareceu na campanha como um robô programado”, analisa Carlos Fazio. “Mestre da teatralidade, parecia um nerd, nunca entendeu o contexto do país, analisava o México mas parecia que nunca sofria por ele e como ele”. Segundo outro analista, Jesús Silva Herzog, “Anaya é cúmplice das contrarreformas neoliberais dos últimos anos, e mais que um presidente, poderia ser um grande promotor de i-phones.

Estas eleições gerais são as mais violentas da história contemporânea do México, com 48 candidatos e 85 políticos assassinados em 26 estados. As ameaças de uma nova fraude cometida pelas instituições controladas pelo PRI levaram ao temor de que pudesse haver uma revolta social contra os resultados.

Desde hoje, uma leve esperança renasceu entre os mexicanos: o PRI e o PAN saíram de cena, e foi dado um mandato de seis anos a um governo nacionalista e popular, liderado por AMLO.

Gerardo Villagrán del Corral é antropólogo e economista mexicano, associado ao Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)

www.estrategia.la


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