Cidades

O mito das 'cidades-fantasma' chinesas

Quando as "cidades-fantasma" são habitadas, deixam de ser notícia porque mostram que existe um projeto de urbanização diferente.

08/09/2015 00:00

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Créditos da foto: reprodução

Avenidas largas, sem carros nem pessoas, enormes edifícios desabitados, parques impolutos, centros comerciais gigantescos e vazios. Essa imagem de filme de ficção científica é o que se vê nas chamadas “cidades-fantasma” chinesas, que os meios de comunicação dos países desenvolvidos apresentam como exemplo do absurdo e faraônico desperdício estatista.
 
Como reflexo da ambivalência ocidental para com a China, a segunda maior economia mundial nominalmente comunista, alguns dos grandes meios britânicos, como o “Business Insider” e o “Daily Mail”, mostraram supostas cidades espectrais, como Dantu, no leste do país, “vazia durante mais de uma década”, para consolidar sua batalha contra todo tipo de intervenção estatal.
 
Segundo o que indicou à Carta Maior o jornalista Wade Sheppard, autor de “Ghost cities of China” (Cidades fantasmas da China) e do blog vagabondjourney, se trata de uma imagem simplista e distorcida. “Essas cidades foram notícia porque contribuíam para gerar a ideia de um sistema demente, que construía monstros urbanos não habitados por ninguém. Quando essas cidades são habitadas, como está acontecendo agora, deixam de ser notícia porque mostram que, por trás dessas iniciativas, existe um projeto de urbanização diferente”, indicou Sheppard.
 
Esse projeto “diferente” está presente, de forma evidente, na consigna oficial: “construamos primeiro, para que se habitem depois”. Segundo as cifras oficiais, foram levantadas 600 cidades na China, desde que Mao Tse Tung assumiu o poder, em 1949. “A palavra `cidade´ é um termo administrativo na China. Quando dizemos que há 600 novas cidades, significa que 600 zonas rurais foram reorganizadas como cidades. Em muitos casos, são novos distritos, bairros ou municípios, para milhões de pessoas. Em outros, são novas cidades, próximas a algum centro importante. Mas todos os casos têm uma característica em comum. Foram construídas a partir do zero, sem ter sequer um residente ou alguém que expressasse o interesse em fazê-lo”, comenta Sheppard.
 
As fotos satelitais que ganharam espaço nos jornais “Business Insider” e “Daily Mail” para denunciar o caso – publicadas em dezembro de 2010 – sobre o suposto desperdício monstruoso dos comunistas chineses, representavam – como toda foto – apenas um momento de um processo. A situação completa só pode ser vista contando tudo aquilo que ocorreu: hoje, aquela Dantu que a matéria retratou como uma cidade “sem carros nem moradores”, tem mais de 380 mil habitantes.
 
Bastaria esperar alguns anos e enviar um repórter para que os meios ocidentais pudessem verificar as mudanças. “Eu a visitei em 2012, e encontrei uma cidade ativa, com os sinais vitais em perfeita ordem. Se comparada com outras cidades chinesas, podemos ver que está menos povoada, mas havia gente nas ruas, negócios abertos, gente comendo miojo, roupa estendida nas janelas das casas. De cidade-fantasma, não tinha nada”, relata Sheppard.
 
Um informe recente do banco Standard Chartered mostra que Dantu, que quadruplicou sua população nos últimos anos, não é uma exceção. Todas essas “cidades fantasmas” que tanto alarmaram os meios ocidentais, formam parte desse sistema diferente de planificação urbana. Entre 2012 e 2014, na região de Zhengdong, um novo distrito do tamanho de San Francisco, na província de Henan, na zona central do país, duplicou sua população. A prefeitura de Changzhou, no leste da China, comprovou recentemente um aumento de um terço da sua população. Kangabashi, uma das mais conhecidas “cidades fantasmas”, na província da Mongólia Interior, terá cerca de 300 mil habitantes em 2020, e o distrito de Nanhui, em Shanghai, cerca de 800 mil.
 
Em seu informe, o banco explica que essa população em aumento é parte da estratégia urbanística da China. “É um projeto que tem três fases. Na primeira, a prioridade é o concreto e a infraestrutura básica de uma cidade. Em seguida, uma segunda fase de crescimento populacional e incremento das facilidades urbanas e comerciais necessárias. Finalmente, uma etapa final de maduração e plena ocupação do lugar. O processo tarda normalmente entre 10 e 15 anos”, afirma o Standard Chartered. 
 
Sobre a contradição
 
Longe de ser um capricho dos funcionários com poder excessivo, o debate sobre a urbanização da China retrocede a um famoso texto de Mao Tse Tung, de 1937, “Sobre a Contradição”, escrito durante a guerra, com as forças nacionalistas agindo contra a ocupação japonesa, no qual citava a contradição entre campo e cidade como um dos principais desafios para o comunismo.
 
Entre a tomada do poder, em 1949, e a chegada de Deng Xiaoping, em 1978, foram construídas umas 100 cidades. Esse ritmo se acelerou com a reforma econômica dos Anos 80, e alcançou seu ritmo atual com a urbanização nacional do começo deste século, o que já resultou numa mudança demográfica sem precedentes: pela primeira vez, em sua história milenária, existem mais chineses morando nos centros urbanos que no campo.
 
O último plano de urbanização nacional, que foi iniciado em 2014 e deveria ser concluído em 2020, foi anunciado em março do ano passado, com um custo de 7 trilhões de dólares – quase a metade do PIB dos Estados Unidos. O plano forma parte da transição chinesa, de uma economia baseada nas exportações a outra mais centrada no consumo, e que constitui uma fonte de demanda para a economia global, devido às necessidades de matérias-primas e produtos elaborados implícitas em qualquer programa urbanizador.
 
Num país das dimenções geográficas (a terceira a nível mundial) e populacionais (a primeira) da China, todo projeto está condenado a uma considerável porcentagem de erro. O atual modelo urbanístico produz grandes sucessos, como Shenzhen, um vilarejo de pescadores, que se tornou um centro financeiro, exportador e importador, ou Pudong, um distrito de Shanghai, construído nos Ano 90, que permaneceu quase vazio durante mais de uma década, e que hoje tem cinco milhões de pessoas.
 
Junto com esses casos, também se agregam os de caprichos arquitetônicos imitativos, como a “Manhattan chinesa”, na que se transformou a cidade de Tianjin, no norte do país, e Thames Town, uma réplica de cidade britânica criada em Shanghai.
 
Mais grave ainda são os planos urbanísticos, que implicaram no deslocamento de milhões de camponeses, com frequentes conflitos surgidos da coerção observada na execução de alguns dos projetos, ou a escassa compensação oferecida.
 
O peculiar sistema de financiamento fiscal chinês explica de certa forma esses problemas. Segundo o Banco Mundial, os municípios recebem um montante fixo do governo central, equivalente a 40% da arrecadação: necessitam financiar por si mesmos 80% dos seus gastos. A compra de terras dos camponeses para serem utilizadas em novos desenvolvimentos urbanos cumpre essa função. Em 2012, foram equivalentes a 438 bilhões de dólares em recursos.
 
Além desse fator, existe também o do prestígio alcançado com projetos urbanísticos dessa envergadura, capazes de impulsar uma carreira dentro da hierarquia partidária. O atual primeiro-ministro, Li Keqiang, é um especialista em desenvolvimentos urbanos, que ascendeu vertiginosamente na estrutura do Partido Comunista graças à transformação de Zhengzhou num novo distrito da China Central, em 2003. “Muitas vezes, o processo de construção se acelera, para que seja completado no período em que um líder partidário se encontra no comando do projeto”, comenta Sheppard.
 
Hoje, há dez grandes urbanizações propostas, em lugares estratégicos do país, projetos urbanos desenhados para receber entre 22 e 100 milhões de habitantes. Mas também há uma reformulação do modelo. “Os últimos quinze anos foram de um desenvolvimento urbano galopante. Agora, estão pondo um pouco o freio. Hoje, muitas das urbanizações são financiadas por companhias privadas ou mistas, o que é uma mudança fundamental. Existe mais planificação. Existe muito mais controle do governo central”, indicou o jornalista, em entrevista à Carta Maior.
 
Tradução: Victor Farinelli





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