Cinema

'A Lavanderia': uma fachada, um email e uma caixa postal

Em tom de farsa, filme de Steven Soderbergh relembra o escândalo dos Panamá papers e os personagens dos advogados Jürgen Mossack e Ramón Fonseca, gerentes de fortunas ocultadas em off shore

22/10/2019 09:21

 

 
Numa estação cinematográfica de outono explosiva como a atual, coalhada de distopias, personagens monstruosos fictícios e reais, de cenários dantescos e símbolos sombrios, o filme A Lavanderia (The Laundromat) *, cuja estréia ocorreu sexta-feira última, chega como uma farsa que, mesmo sem grandes qualidades formais, merece ser vista.

Esta comédia que se pretende crítica, do diretor americano Steven Soderbergh, vem ocupar mais um vazio produzido pelos meios de comunicação que silenciaram nos últimos tempos sobre os desdobramentos do escândalo dos chamados Panamá papers. Ela traz de volta os dois personagens centrais da cena de ilicitudes, os advogados Jürgen Mossack e Ramón Fonseca, radicados no Panamá.

O filme estreou no Festival de Veneza deste ano. É baseado no livro Secrecy World: Inside the Panama Papers Investigation of Illicit Money Networks and the Global Elite, do jornalista Jake Bernstein, um americano consultor de mercado cujos clientes são traders de pregão e traders profissionais, gerentes de dinheiro, testas de ferro, bancos e banqueiros, estrategistas de proteção de investimentos de riscos e outras coisitas que animam o mundo do alto capital – o capital improdutivo que circula, impávido, pelo planeta carente de alimentos para todos. Outro livro de Bernstein inspirou o filme Vice.

Mossack e Fonseca se tornaram famosos no Brasil, três anos atrás, quando do desdobramento de outra farsa, esta a da Lava jato de Curitiba. O seu escritório foi o pivô do vazamento para um jornal alemão, de mais de 11 milhões de documentos revelando, nas primeiras páginas de todo o mundo, os nomes dos bilionários, mega empresários e de políticos de alto coturno (até governantes de diversos países) que possuem contas em off shore.

Doleiros de alta estirpe do Rio de Janeiro e a Odebrecht (mencionada no filme) estavam na lista vazada pelos procuradores paranaenses no ápice da operação que, hoje está mais do que provado, visava à destruição da maior empresa de engenharia brasileira; menos e uma punição light de seus proprietários.

A massa de dinheiro espantosa, resultado de evasão fiscal, de caixa dois de doações de campanhas e de propinas de origens as mais obscuras eram administradas pela dupla de advogados dinâmicos. Entre eles, 29 bilionários fichados pela revista Forbes, 128 ocupantes ou ex-ocupantes de cargos eletivos ou públicos e 61 pessoas próximas ou parentes de chefes de estado ou de governo ao redor do planeta.



Utilizado por Soderbergh, (diretor do célebre filme Sexo, mentiras e Videotape, de 1989 e de Erin Brockovich, de 2 000), nessa comédia farsesca, o efeito dramático do atravessar a quarta parede** usado como parte da narrativa é praticado insistentemente, se faz monótono e perde a força de crítica.

Subtemas se estendem sem controle da direção e histórias paralelas de clientes dos panamenhos apontam para tons racistas e para o atual inimigo comum dos americanos; os chineses, naturalmente.

Mas A Lavanderia está rendendo também (e dará maiores lucros com este segmento real da história) como assunto nos tribunais. Há menos de uma semana Mossack e Ramón Fonseca – que estiveram presos durante apenas três meses, quando estourou o escândalo - acusam a produção de ser uma obra difamatória (clique para saber mais).

Uma corte americana, no entanto, negou liminar para impedir o lançamento do filme. Como se vê na tela, Ramon/ Gary Oldman e Fonseca/ Antonio Banderas comentam entre eles: “O que seria do Panamá se não fossemos nós que o catapultamos para a fama? Seria apenas uma praia de areia branca com coqueiros nela plantados... ’’

Neste estonteante jogo de espelhos onde é projetada, estilhaçada, a farsa panamennha com ligeiros toques xenófobos e de bom mocismo americano, entra também o próprio diretor do filme.

Soderbergh, cuja origem é o cinema independente americano, se justificou, em entrevista recente na qual foi indagado sobre sua atuação no cinema do streaming; cinema do sistemão que está condenando à extinção o mercado exibidor de filmes: ‘’ O espectador, atualmente, quer ter mais controle sobre as formas de ver filmes; e o streaming é um processo irreversível. ’’.

No mais, os dois recados de A Lavanderia que permanecem são estes: 1. Os Estados Unidos são o maior paraíso fiscal do mundo. 2. A evasão fiscal se perpetuará com as contribuições de empresas a campanhas políticas.

*Netflix

**Efeito que leva o espectador a assistir a ficção de modo menos passivo. Corta a ação e coloca personagens explicando o que está ocorrendo.
Brecht dizia que quebrar a quarta parede encoraja a platéia a assistir a peça de forma mais crítica ao chamado Efeito de Alienação.





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