Cinema

'Estamos Todos Aqui' disputa Kikito de Ouro em Gramado

Rodado na Favela da Prainha, curta-metragem marca estreia de Rosa Luz no cinema, em trama imperdível assinada por Chico Santos e Rafael Mellim

26/07/2018 15:26

Thiago Dias

Créditos da foto: Thiago Dias

“Estamos Todos Aqui”, curta-metragem de Chico Santos e Rafael Mellim, traz uma discussão crucial no país: a luta pela moradia e, também, pelos direitos LGBTIs, evidenciando em ambas batalhas o peso da luta de classes. A trama conta a história de uma jovem transgênera que, após ser expulsa de casa, tenta construir seu próprio barraco na Favela da Prainha, na zona portuária de Santos.
 
Produzido pelo Coletivo Bodoque, o curta vem angariando vários prêmios. Conquistou o prêmio do público de melhor curta-metragem no Festival Mix Brasil 2017 e o Prêmio Canal Brasil na 21º Mostra de Tiradentes. No próximo mês, entre 17 e 25 de agosto, estará disputando o Kikito de Ouro na 46ª. edição do Festival de Gramado.
 
“Estamos Todos Aqui” também marca a estreia de Rosa Luz no cinema. Vlogueira e artista transgênera, Rosa mantém o canal Barraco da Rosa no Youtube, fomentando uma importante discussão sobre a transexualidade. Além de Rosa, o filme conta com a participação (atuação e depoimentos) de moradoras da Favela da Prainha.
 
“Nós trouxemos uma parte da história como sugestão, mas o rumo da narrativa foi mudando ao longo das rodas de conversa que realizamos”, conta Mellim. “Foram várias cabeças pensando e isso deu muita energia para o filme”, complementa Santos. Confiram abaixo a entrevista com a dupla de diretores do filme.
 
Como surgiu a ideia do curta?
 
Chico Santos: O curta surge da necessidade de estabelecermos o diálogo entre as lutas LGBTIs e outras lutas sociais. E, também, porque sabemos que as grandes corporações estão dispostas a associar suas marcas ao tema das LGBTIs, mas, na prática, o que elas nos propõem como sociedade é mais exclusão. O nosso curta é protagonizado por uma jovem transexual que está buscando um lugar no mundo para existir. A garota, que acaba de ser expulsa de casa, tem a tarefa de levantar um barraco com os próprios braços para ter onde morar.
 
Na nossa fábula, a favela sofre uma brutal ordem de despejo no momento em que a personagem decide construir o seu barraco. Existe uma correspondência entre ficção e a realidade daquele lugar: há 20 anos, pelo menos, a ameaça de despejo assombra as moradoras da Prainha. Além disso, a personagem precisa enfrentar os preconceitos, a transfobia e entender seu papel histórico como classe que, para nós, é o de fazer a revolução.
 
Rafael Mellim: A ideia de pauta identitária, pelo menos como está sendo usada, pode ser bem traiçoeira para nós, os 98% que estão aqui embaixo da pirâmide social. É muito comum pensar a LGBTIfobia, o racismo, o especismo, o machismo dissociados do capitalismo e de todo o contexto histórico que sustenta essas opressões. A pergunta que fazemos é: como essas opressões surgiram? Como foram absorvidas pelo capitalismo? Que papel cumprem no funcionamento desse sistema?
 
Apesar das suas particularidades, essas opressões estão enraizadas umas nas outras e, justamente, por isso é uma falha esquecê-las quando analisamos o capitalismo e vice-versa. Aqueles metros quadrados da Favela da Prainha escancaram a luta de classes. Os trens e navios do Porto de Santos, o maior da América Latina, estão dia e noite cortando as palafitas e os barracos com as suas toneladas de mercadorias. Impossível não pensar para onde vai esse capital. E, claro, para onde ele deixa de ir.
 
Vocês misturam atuação e depoimentos reais...
 
Rafael Mellim: Esse filme é uma espécie de colcha de retalhos. Intercalamos depoimentos documentais com cenas que criamos e encenamos com as moradoras da Prainha. Uma parte da história foi trazida como sugestão, mas o rumo da narrativa foi mudando a partir das rodas de conversa.
 
Chico Santos: Aliás, durante todo esse período, parentes e amigos emprestaram colchonetes e deram o arroz com feijão que precisávamos para seguir adiante. Eu e Rafa não estudamos nas escolas de cinema, que pregam muito a estrutura hierárquica e patronal de produção. Nós viemos do teatro de grupo e a nossa prática sempre foi de processo colaborativo. Então, foram várias cabeças fritando, pensando [no curta] e isso deu muita energia para o filme. Nós contamos também com a Ana Souto, dramaturga e pesquisadora de feminismo, que orientou o roteiro. Entre os moradores que se envolveram, muitos são parentes e amigos meus de infância porque eu sou lá da quebrada.
 
Nesse campo vasto da ficção, onde tudo é possível, nós buscamos também criar saídas para os problemas reais presentes no cotidiano de todos ali. Ordens de despejo, falta de moradia adequada, violência do Estado através da polícia e da burocracia, como as empresas atuam para conseguir a expansão do Porto, tudo isso foi debatido e transformado em cena. Nosso empenho, aliás, foi de que as cenas servissem de ensaio para a ação na vida real. Hoje, a Favela da Prainha continua com os mesmos problemas, mas quem participou do filme se empoderou bastante e vê a situação ali de outro modo.
 
Como vocês escolheram a Rosa Luz?
 

Chico Santos: Rosa Luz, que protagoniza a história do filme, tem um canal no youtube que  se chama Barraco da Rosa, onde ela conta suas vivências. Tinha tudo a ver chamá-la para ser parceira.
 
Vocês abordam tanto a questão trans quanto a questão da luta pela moradia, como isso foi pensado?
 
Rafael Mellim: Nós entendemos que nenhuma luta está isolada, apesar de suas particularidades. Diferente do que o mercado já faz - que é colocar as lutas nessas baias, fechadas em si – nós entendemos e passamos a entender mais ainda, depois do processo do filme, a necessidade de ver o que une essas lutas.
 
Chico Santos: O desafio do filme é evidenciar a potência revolucionária das pessoas mais marginalizadas. Ver a travesti lutando por moradia serve tanto para um público que está se aproximando de um debate quanto de outro.
 
Como vocês avaliam a abordagem da questão LGBTIs hoje no cinema?
 
Rafael Mellim: No Brasil, as LGBTIs, principalmente a população T, vivem uma situação dramática. Se já é difícil ser trabalhador sob o capitalismo, tendo sua força de trabalho quase toda roubada, para trans e travestis é ainda pior. Elas não são empregadas praticamente em lugar nenhum e muitas vezes não têm apoio da família ou do Estado. A estimativa de vida de pessoas trans no Brasil é de 35 anos, metade da média nacional. Isso é estarrecedor.
 
No cinema não é diferente, não tenho dados exatos, mas é evidente que pessoas LGBTIs e, também, pessoas negras e indígenas quase não estão nas telas – nem atuando, nem pensando ou criando as histórias. Muitas vezes, quando são retratadas, cumprem uma espécie de blindagem moral do filme – esse oportunismo geralmente esconde as verdadeiras intenções das histórias – ou estão em personagens com complexidades subestimadas, apoiando de maneira secundária um drama geralmente de homens cisgêneros e brancos, imagem e semelhança dos colonizadores. Muita gente boa está furando essas bolhas, porém, enquanto o poder estiver nas mãos dos mesmos, o processo de expressão de outras vozes vai seguir lento e quantitativamente menor. Não tem milagre, né? É um espelho das relações econômicas.
 
Chico Santos: O audiovisual é um instrumento de poder gigante. Atua muito no convencimento das ideias. A própria Agência Nacional do Cinema publicou, em seu site, que a quantidade de filmes dirigidos por homens brancos e ricos é quase absoluta no país. Nós já vemos as LGBTIs em praticamente todas as telas. É uma demanda. Mas precisamos questionar a perspectiva em que essas histórias estão sendo contadas. Quando você tem um diretor ou uma diretora que é sujeito das opressões e está ali dirigindo ou escrevendo um filme, esse sujeito facilmente pode cair na reprodução da ideologia burguesa. Porque, afinal, estamos bem impregnados dessa visão colonizadora.
 
Rafael Mellim: Por isso defendemos que a perspectiva de classe não pode ser separada dos debates identitários, como tanto querem os liberais.
 
O que orientou vocês na hora de filmar e montar as cenas?
 
Chico Santos: O processo colaborativo foi o que orientou o nosso caminho. Mas, estamos buscando um jeito, um modo de criar a nossa narrativa sem reproduzir a ideologia do opressor, para isso buscamos referências em quem também lutou contra isso tudo. Estamos estudando de Boal a Brecht, e outras referências também dentro do cinema.
 
Rafael Mellim: Na prática, houve o esforço de não enquadrar a pobreza como uma “paisagem” imutável. Procuramos manter o espectador desperto, antes de se envolver emotivamente com uma situação e perder essa qualidade ativa, reflexiva, sobre o que ele está vendo. A realidade é mutável, diferente do que a classe dominante quer que a gente acredite. Outra coisa importante é comunicar sem complicar muito. É um filme para ser visto e entendido.
 
Como as pessoas podem ter acesso ao curta?
 
Chico Santos: A gente estreia na TV no fim deste ano. O filme está circulando em vários estados do Brasil e outros países, em festivais, cineclubes e mostras. Temos uma página no Facebook que dá para acompanhar onde ele está passando.
 
Rafael Mellim: Também temos recebido contato de militantes que entram em contato através da página do filme (confira  aqui) pedindo o filme para exibir, o que é ótimo.

Fotos: Thiago Dias





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