Cinema

'Jovens infelizes': a arte e a vida no Brasil de hoje

Thiago B. Mendonça estreia filme produzido de forma independente que denuncia a ascensão da extrema direita no país e os horizontes que surgem para as gerações dos moços

31/01/2019 10:22

'Jovens Infelizes ou um Homem que grita não é um urso que dança' de Thiago B. Mendonça

Créditos da foto: 'Jovens Infelizes ou um Homem que grita não é um urso que dança' de Thiago B. Mendonça

 

Primeiro longa-metragem do cineasta Thiago B. Mendonça, Jovens Infelizes ou um Homem que grita não é um urso que dança foi vencedor da 19ª Mostra de Cinema de Tiradentes de 2016 onde recebeu o prêmio do Júri da Crítica da Mostra Aurora.

Agora, ele entrará em cartaz dia sete de fevereiro, no Cinesesc de São Paulo, seguido de debate com o diretor, com Cristina Amaral e Kiko Dinucci, autor da trilha musical.

Produzido de forma independente e com um orçamento de apenas 40 mil reais, Jovens Infelizes foi um dos primeiros filmes brasileiros a denunciar "a ascensão da extrema direita e o futuro de horizontes rebaixados que viveríamos a partir de então", afirma o diretor.

O filme foi inspirado em um ensaio do diretor Pier Paolo Pasolini no qual o autor faz uma crítica contundente aos horizontes fechados pelo fascismo de consumo que assolava a geração italiana dos anos 70 e na poesia do revolucionário Aimé Cesaire.

Ao longo de seis sequências, narradas cronologicamente do fim para o começo, o filme desconstrói a trajetória artística e política de um grupo de jovens que intensificam até o limite as relações entre arte e vida.

Porém, com o passar do tempo, fica patente a impossibilidade de seu projeto de transformação frente a uma sociedade que, calcada no mercado e no consumo, se apresenta cada vez mais repressiva e autoritária: "um monstro disforme, demolidor de sonhos e utopias",  como diz Thiago.

Dentro de uma perspectiva em que o documental invade a narrativa, o filme busca inserir em seu universo ficcional a história do Brasil contemporâneo e seus conflitos. Rodado ao longo da Copa do Mundo de 2014, Jovens Infelizes acompanha os protestos e a violenta repressão da polícia, trazendo reflexões críticas sobre os próprios limites da arte.

"Este é um filme/espelho sobre minha geração e suas lutas. Sobre a forma como nos apropriamos da nossa cidade, das suas ruas e espaços. E como sentimos, amamos e lutamos num mundo de horizontes rebaixados".

A narrativa se desenrola com um grupo de artistas vivendo na fronteira entre arte e vida. Com teatro, música e performances em espaços públicos, tenta construir uma consciência revolucionária. Mas os horizontes rebaixados de uma sociedade cada vez mais autoritária leva o grupo a buscar um último grande ato estético.

No final, um coro insistente canta e repete: "Para começar de novo é preciso destruir."

Quando assistiu a Jovens Infelizes na Mostra de Cinema de Tiradentes, o jornalista e crítico de cinema Carlos Alberto Mattos, em seu blog, escreveu :

"Realização essencialmente coletiva, o filme se beneficia da intimidade entre os atores, construída no trabalho como grupo de teatro. O título, extraído de um texto de Pasolini, tem a ver com a submissão da juventude ao 'fascismo do consumo'. No entanto, o filme põe em cena um espectro mais amplo de insatisfações, fúrias e contradições dos jovens politizados numa era em que as esquerdas não parecem mais impedir a escalada do capital. A iconoclastia religiosa, as performances irreverentes na rua, a inserção dos personagens nos protestos anti-Copa em 2014… São muitas as estratégias usadas para encenar o enfrentamento de um estado de coisas sintetizado na frase pichada em um muro: 'Está tudo uma merda'".

"Para mim",  continua Carlos Alberto, "a força de Jovens Infelizes não está tanto no seu furor anarquista nem em suas indagações sobre a utopia, e muito menos nos excessos de verborragia e surubas. O que me interessou foi a maneira orgânica e culta como tudo aquilo chega à tela. Toda uma tradição das vanguardas políticas e artísticas é evocada – de canções esquerdistas e anarquistas à iconografia revolucionária do século XX; do teatro de Zé Celso ao cinema de Carlão Reichenbach, Tonacci e dos marginais de 1960/70; de Brecht e Beckett a Manhã Cinzenta e à face mais política da Nouvelle Vague. O preto e branco dominante ajuda a inscrever o filme nessas linhagens, ao mesmo tempo em que o jogo dos atores transpira uma sensibilidade bem contemporânea"

Atualmente, Thiago finaliza o seu terceiro longa-metragem, Curtas jornadas noite adentro.



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