Cinema

'Mank', um homem muito especial

Impiedoso observador e crítico da Hollywood do fim dos anos 30, Herman Mankiewicz é o criador (ou um dos criadores?) que deu vida a 'Cidadão Kane'

14/12/2020 16:41

(Divulgação)

Créditos da foto: (Divulgação)

 
Mank era o apelido carinhoso do célebre roteirista americano Herman Mankiewicz, uma das lendas da Hollywood dos anos 30, a década ''de ouro'' do cinema americano. Foi um personagem popular, estimado pelos colegas, conviveu com os mais modestos trabalhadores da indústria cinematográfica, e também, com certa intimidade, com os grupos de arquimilionários locais. Alcoólatra e jogador compulsivo, Mankiewicz era o irmão mais velho de Joe, a quem entronizou em Hollywood, apresentou-o aos figurões dos estúdios e que passou à história do cinema como o diretor de A malvada (o célebre All about Eve) e de meia dúzia de outras produções memoráveis.

Com o grande brilho da sua inteligência fulgurante, o roteirista foi um dos mais impiedosos observadores e críticos da alta burguesia daqueles que se tornavam, naquele momento, os donos das fortunas ligadas à produção de filmes, então trabalhando a todo vapor, e aos negócios relacionados com a mídia. A maioria deles conservadores hipócritas, autocráticos e eleitores do Partido Republicano.

Mank é o título do filme finalmente lançado este mês, com duração de cerca de duas horas e com vistas a concorrer ao Oscar do ano que vem. Realizado pelo diretor David Fincher (House of cards, Benjamin Button) com co-produção da Netflix, já ganhou audiências formidáveis nos Estados Unidos e é voz corrente que certamente receberá senão várias, pelo menos uma estatueta, mais que merecida: a de melhor ator para a bela interpretação de Mank pelo excelente ator britânico Gary Oldman. Ele já foi oscarizado uma vez vivendo Winston Churchill no filme A hora mais negra.

O filme traz um recorte da vida profissional de Mankiewicz desde quando foi contratado para fazer um roteiro para o jovem gênio Orson Welles que então despontava após o terremoto provocado pela sua transmissão radiofônica de A guerra dos mundos. A produção (RKO Estúdios) do que viria a ser o legendário Cidadão Kane trancou Mank num rancho, isolado e distante de qualquer bebida alcoólica, deu-lhe prazos para conclusão do trabalho, uma secretária e uma enfermeira para tratá-lo de um desastre de automóvel que acabara de sofrer. (Não estava na direção do carro).



O roteiro de Mank, o filme, escrito pelo pai do diretor, Jack Fincher, ficou engavetado há quase duas décadas. Quando ele morreu, em 2003, os papeis ficaram mofando entre os seus pertences. Em 2018 o filho David espanou a poeira do roteiro e fez esse perfil, muito bem estruturado, do homem que deu vida a um cidadão chamado Kane, inspirado claramente em William Hearst, e também retratou, com enorme talento, Louis B. Mayer, a mitológica atriz Marion Davies, o poderoso produtor Irving Thalberg, o também produtor John Houseman e o seu grupo que frequentava, assim como o próprio Herman, os jantares exóticos do magnata da mídia.

Dois eixos sustentam esse filme curioso que deve ser visto pelos amantes do cinema com grande prazer, embora tenha sua ponta de afetação. Fotografia preto-branco, profundidade de campo, perspectivas inusitadas, montagem não-linear sustentada em flashes backs de um passado rememorado e insistente registrado nos papeis de Joe Fincher. Enfim, uma estrutura que o filho Fincher seguiu, como num jogo para cinéfilos, do extraordinário Cidadão Kane*. Faz pensar em uma espécie de homenagem ao seu pai: Joe Fincher era também roteirista.

O primeiro eixo é o retrato, sem qualquer glamour, das vísceras da Hollywood do fim dos anos 30. (O roteiro de Cidadão Kane foi escrito em 38 e o filme estreou em 1942). O segundo eixo recoloca a famosa discussão sobre a verdadeira autoria do roteiro dessa obra prima de Welles. Foi de autoria de Mank apenas? Ou foi apenas de Welles? Ou terá sido um magnífico trabalho conjunto de ambos embora os dois grandes talentos tenham tido grandes embates durante o período contratado para o trabalho?

Uma citação, logo no início de Mank chama a atenção. E duas sequências extraordinárias justificam a necessidade (dos cinéfilos) e o prazer ( de todos) de assistir ao filme.



A citação: logo no começo, Herman Mankiewicz, discutindo com o produtor de Cidadão Kane, John Houseman, e reclamando do prazo curto (e sem álcool ) para o trabalho de criar o magnata de Welles, dispara: "Não se pode capturar a vida de um homem em duas horas; apenas deixar uma impressão''. Um alerta que derruba toda pretensão de onipotência.

Uma das sequências que valem o filme: Louis B. Mayer, numa audiência histórica, num anfiteatro de um dos seus estúdios, pede, quase chorando, aos seus funcionários ali reunidos para ouvi-lo, para concordarem em diminuir por alguns anos seus salários em vista da recessão.

A outra: William Hearst, levando Mank até a porta do seu castelo - que viria a ser o Xanadu de Welles -, após um grande vexame dado pelo roteirista, bêbado, não apenas vomitando literalmente diante da mesa do grande jantar, mas vomitando também todos os podres dos presentes.

Hearst vai levando Mank, devagar, rumo à porta de entrada, e começando a contar a história do dono do realejo e do seu macaco que tenta se rebelar do jugo do patrão. Quando chega ao final da anedota, abre a porta, empurra Mank para fora e bate a porta do seu Xanadu.

Vale a pena assistir Mank. E convém relembrar a historieta do dono do realejo e do seu macaco. Muito atual.

*Cidadão Kane está disponível no youtube. Mank na Netflix





Conteúdo Relacionado