Cinema

"O Capital no século XXI": documentário mostra o crescimento das desigualdades no mundo

O freio ao capitalismo sem limites depende, antes de tudo, da mobilização cidadã, segundo o economista Thomas Piketty

21/07/2020 17:38

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Créditos da foto: (Divulgação)

 
“Defendo o controle do capital e a superação do capitalismo. Só assim nos projetaremos no século XXI.”

A frase é do mais lido e debatido economista do mundo, o francês Thomas Piketty, no documentário “Le Capital au XXIe siècle”, que está passando em Paris há algumas semanas.

O filme resume – em imagens de filmes de ficção, cenas de documentários e entrevistas em diversos países – 400 anos de capitalismo e as principais teses do livro homônimo, best-seller mundial lançado em 2013. A obra transformou Thomas Piketty no mais respeitado crítico do sistema capitalista.

Por que o capitalismo precisa ser superado ? Simplesmente porque como seu denso livro de mil páginas demonstra em detalhes, o sistema capitalista é, por natureza, uma máquina de fabricar desigualdades.

Millionaires for Humanity

No ritmo atual, segundo o economista, as sociedades ocidentais reproduzirão em pouco tempo as abissais desigualdades de um século atrás. Elas haviam sido atenuadas, com maior ou menor intensidade, graças à luta dos trabalhadores e sindicatos e também a políticas de Estado, como o New Deal de Franklin Roosevelt, que lançou numerosos projetos públicos subvencionados pelo Estado federal, reformas financeiras e regulamentação, com o objetivo de superar a crise econômica e social de 1929.

Recém-eleitos, Trump e Macron – como Reagan fizera na década de 1980 – deram verdadeiros presentes fiscais, diminuindo os impostos dos milionários. Menos egoístas, 83 milionários do mundo assinaram, há duas semanas, uma carta aberta publicada no site « Millionaires for Humanity » pedindo para pagar mais impostos, a fim de financiar parte dos estragos da crise do Covid-19. Eles querem que os mais ricos paguem mais, « imediatamente », « de maneira permanente », a fim de contribuir com a retomada da normalidade econômico-social pós-Covid-19.

Essa carta foi publicada antes da reunião dos ministros de Finanças do G20 e da cúpula europeia extraordinária sobre a retomada do crescimento da União Europeia. No texto, eles pedem que os governos « aumentem os impostos de gente como nós. Imediatamente, substancialmente e de maneira permanente. »

Nenhum milionário brasileiro assinou a carta.

Brasil tem desigualdade da Belle Époque europeia

Realizado por Justin Pemberton e Thomas Piketty, o documentário tem entrevistas com especialistas como o economista Joseph Stiglitz (Prêmio Nobel de Economia), o economista francês Gabriel Zucman, o cientista político Ian Bremmer, a jornalista do “Financial Times”, Gillian Tett, além do próprio Piketty.

O filme faz uma retrospectiva da evolução das sociedades ocidentais em direção a patamares cada vez menores de desigualdade. O crescimento de uma classe média no pós-guerra, as conquistas sociais dos trabalhadores e a criação do salário mínimo permitiram grandes avanços.

Na Belle Époque (nos anos 1910), 1% da população que detinha os maiores patrimônios possuía mais de 60% do capital privado nacional na Europa, contra 45% nos Estados Unidos. Nessa época, 90% da população não possuía praticamente nada.

Segundo Piketty, o Brasil atual é um país, do ponto de vista da repartição da renda e do patrimônio, ainda mais desigual do que a Europa de antes da Primeira Guerra [1914-1918]. Os 50% mais pobres no Brasil em termos de renda têm apenas 10% da renda total,enquanto os 10% mais ricos têm mais de 50% do total. Se olharmos a propriedade, é ainda mais grave. Os 50% mais pobres têm 2% ou 3%, enquanto os 10% mais ricos têm 70% a 80%.

Ele estima que as elites brasileiras cometem um erro histórico ao não promover uma distribuição de renda eficaz. Segundo Piketty, uma política de redistribuição de renda traria certamente crescimento econômico ao país. Ele pensa que as políticas sociais implantadas nos governos do PT foram financiadas pela classe média e não pelos mais ricos pois não houve uma reforma tributária para estabelecer impostos mais progressivos.

Mas, como ouvi Fernando Henrique Cardoso afirmar na Maison de l’Amérique Latine, em janeiro de 2019, « no Brasil, as pessoas não veem com bons olhos a melhor distribuição das riquezas ».

Será que foi por isso que ele preferiu nem tentar entrar neste terreno polêmico ? Como foi mostrado em reportagens, no governo de FHC uma criança morria de fome a cada cinco minutos no Brasil.

Hoje, o Brasil não tem muita chance de sair do atual modelo pois Bolsonaro é visto por Piketty como um “Trump piorado”.

O economista afirmou recentemente em entrevista que a crise atual pode contribuir para uma mudança da ideologia dominante no sistema econômico, na Europa, nos EUA, e memo no Brasil, indo em direção de uma economia mais igualitária, mais social e mais sustentável.

« Espero que esse choque nos conduza nessa direção. Mas vai depender da mobilização de cada um ».

Depende, antes de tudo, da mobilização cidadã.

Leneide Duarte-Plon é co-autora, com Clarisse Meireles, de « Um homem torturado, nos passos de frei Tito de Alencar » (Editora Civilização Brasileira, 2014). Em 2016, pela mesma editora, a autora lançou « A tortura como arma de guerra-Da Argélia ao Brasil : Como os militares franceses exportaram os esquadrões da morte e o terrorismo de Estado ». Ambos foram finalistas do Prêmio Jabuti. O segundo foi também finalista do Prêmio Biblioteca Nacional

Assista ao trailer:





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