Cinema

O segredo dos seus olhos: a Justiça e os justiceiros

Oscar de Filme Estrangeiro, há sete anos, o filme é um clássico do melhor cinema latinoamericano. Vale a pena, nesses dias de alta voltagem política e contagem regressiva para o próximo dia 24, relembrar essa obra de autoria de Campanella e revê-la

19/01/2018 20:52

 


Por Léa Maria Aarão Reis

O cinema relacionado à ação da Justiça, vez por outra é relembrado pelos juízes, procuradores, advogados, agentes da polícia e operadores do Direito em geral, cinéfilos declarados ou espectadores eventuais que acompanham os bons filmes. O segredo dos seus olhos, do diretor Juan José Campanella, de 2009, uma coprodução Argentina/Espanha baseada na novela de um professor de Letras aposentado, de Buenos Aires, Eduardo Sacheri (La pregunta de sus ojos), é um deles. Costuma entrar nas listas dos melhores segundo os profissionais do Direito.

Muitos acham, até, que se trata do melhor filme já realizado sobre tema jurídico apesar de relatar duas histórias de vida e de grande paixão amorosa, em primeiro plano, truncadas pela captura da Justiça sequestrada, na década dos anos 70, na Argentina, e pela coação habitual exercida sobre ela em todos modelos de golpes políticos, ditaduras e regimes discricionários, mascarados ou expostos.

Assim como ocorre novamente agora, no Brasil, quando paira a ameaça iminente que alveja o país, de retornar a mais de meio século, no passado, quando até o ‘’supremo!’’, o STF, não passava de mero apetrecho da ditadura civil-militar de 64.

Oscar de Filme Estrangeiro, há sete anos, o filme é um clássico do melhor cinema latinoamericano. Vale a pena, nesses dias de alta voltagem política e contagem regressiva para o próximo dia 24, relembrar essa obra de autoria de Campanella e revê-la (link abaixo).

O filme consagrou, definitivamente, o ator Ricardo Darín no papel de um funcionário do departamento de justiça de Buenos Aires, ainda jovem, e 25 anos depois, já aposentado, porém sempre obcecado pela investigação inconclusa de certo Caso Morales, de estupro, que não dá trégua às suas lembranças.

O filme de Campanella conta com um naipe de atores com atuações memoráveis e, como ocorre habitualmente no cinema portenho, conta com um roteiro impecável.

Tempos atrás, o advogado brasileiro Paulo Antonio Papini justificou, na sua relação das dez melhores produções cinematográficas sobre temas jurídicos, a importância do filme do ponto de vista do Direito. Suas observações são atualíssimas.

Segundo ele, o filme é perfeito ao mostrar como se procede a uma honesta e meticulosa investigação onde os mínimos detalhes não são descuidados. Campanella reflete também sobre como a atuação invasiva do Estado sobre as instituições, durante um período de ditadura, pode causar danos irreparáveis.

Acrescentamos: danos à vida humana e ao próprio sistema judicial cuja credibilidade e confiança são comprometidas por largo período, ao longo do tempo.

Mas segundo Papini, o mais importante, no filme, é a sua abordagem do conceito de Justiça na ‘’versão mais pura do termo, ou seja, a Justiça que se sobrepõe à Lei que nada mais é do que a representação da Justiça. ’’

O ambiente recriado para O segredo dos seus olhos é o dos espias, informantes, dos federais, meganhas, e dos juízes subservientes no confronto com os de cima e autoritários para com os que se encontram abaixo; o mundo dos generais do governo de Isabelita Perón (o centro da ação se passa em 1975), dos oficiais de justiça, dos guarda-costas e dos carreiristas caçadores de subversivos que aconselham Benjamin Espósito, o personagem de Ricardo Darín, a ‘’voltar para o seu escritório e ficar lá, olhando e aprendendo, porque a Justiça é uma ilha no mundo e o mundo é assim; você continua catando passarinho lá e nós ficamos na selva, aqui. ’’

Mais de vinte anos depois, aposentado e com tempo livre, Benjamin usa sua experiência para escrever um livro sobre uma história trágica da qual foi testemunha: o estupro e brutal assassinato de uma bela jovem. É quando conhece Ricardo Morales, marido da moça, a quem promete ajudar a encontrar o culpado. Ajudando-o está Pablo Sandoval (o excelente ator Guillermo Francella), colega e seu grande amigo, e a juíza Irene Mendes Hastings (Soledad Villamil), sua chefe, por quem ele nutre uma paixão secreta.

O aspecto mais grave discutido em O segredo dos seus olhos é o que ocorre quando o vazio político é ocupado pelo crime institucionalizado e pelos caudatários marginais aderentes ao poder de ocasião. Rasgam-se as leis e dão entrada em cena os justiceiros. A representação da Justiça é jogada no lixo.

‘’Nenhum de vocês dois podem fazer nada, ’’, explica claramente um magistrado a Espósito e à juíza Hastings em determinado momento crucial da trama, quando ressurgem justiceiros até então hibernados. Eles readquirem vida com dois perfis: o justiceiro de estado, apetrecho descartável de ocasião, e o vingador implacável reforçando a barbárie de um mundo sem leis. No vácuo entre um e outro, indivíduos impotentes de uma população castrada.

São reflexões a serem aprofundadas neste fim de semana com o filme de Campanella.

LINK:
O segredo dos seus olhos completo



Conteúdo Relacionado