Cinema

''País sem documentário é como uma família sem álbum de fotos''

É hora de lembrar a bela observação do cineasta chileno Patrício Guzmán em seu livro 'Filmar o que não se vê' para apreciar melhor a série 'Nós, documentaristas', do Canal Curta

09/01/2019 11:09

(Reprodução/Youtube)

Créditos da foto: (Reprodução/Youtube)

 

Esta observação mais do que oportuna é de um dos mais famosos e brilhantes documentaristas vivos, o cineasta chileno Patrício Guzmán, há anos radicado na França. Ele a escreveu em seu livro Filmar o que não se Vê*. E acrescentou: ''Admiro o trabalho do jornalismo e dos meios audiovisuais, mas somos muito mais livres e nos movemos no âmbito do instinto e da imaginação''.

A ideia de Guzmán, autor de clássicos do cinema documentário como os belos A batalha do Chile, Salvador Allende, A nostalgia da luz e O botão de pérola, vem a propósito por três motivos.

Primeiro, pela exibição da série Nós, documentaristas, no Canal Curta, que se estende até o fim deste mês de janeiro, a qual recomendamos com entusiasmo. Segundo, porque a escola do documentário brasileiro, hoje, é uma das mais admiradas e respeitadas do mundo; foi a partir do trabalho e dos docs de autoria do saudoso Eduardo Coutinho que ela deslanchou.

E terceiro porque, sem dúvida, o filme documentário, neste país, está cada vez mais assumindo um lugar de guardião e de defesa da memória nacional e de análise e registro de eventos decisivos da nossa História - políticos, econômicos e sociais – e ocupando o vazio da manipuladora mídia corporativa brasileira.

A série, iniciada mês passado, vasculha o universo do documentário brasileiro através de depoimentos de alguns dos principais cineastas do país que se propõem a filmar a realidade contemporânea brasileira. Assim, a partir das entrevistas, o público terá mais recursos para refletir sobre o Brasil.

João Moreira Salles, Vladimir Carvalho, Lúcia Murat, e documentaristas de uma nova geração como Petra Costa, Emílio Domingos e Cristiano Burlan são alguns dos protagonistas dos 13 episódios dirigidos por Susanna Lira, ela própria documentarista e personagem de um dos episódios.

João Moreira Salles, por exemplo, revelou memórias e resgatou histórias de seus filmes que, intercaladas com trechos das principais cenas, nos fazem mergulhar na sua trajetória. Em especial no seu filme mais recente, No intenso agora.

Lucia Murat, responsável por docs como Pequeno Exército Louco, Que Bom Te Ver Viva e Uma Longa Viagem, narra a sua experiência pessoal durante a ditadura e como essa e outras vivências continuam se refletindo na sua obra.

Vladimir Carvalho, um dos mais importantes documentaristas brasileiros e diretor de O País de São Saruê, O Engenho de Zé Lins e Rock Brasília, aborda diversas questões sociais de forma crítica e sempre poética. Dos seus 83 anos de idade, 60 deles foram dedicados a apresentar a realidade brasileira.

O cineasta e pesquisador Joel Zito Araújo, responsável por obras como Retrato em Preto e Branco e Raça, fala sobre o seu processo de criação e aborda temas importantes na sua filmografia como, por exemplo, o racismo presente na televisão - sobretudo nas telenovelas, tema de seu documentário Eu, Mulher Negra.

Em outro episódio, a cineasta Susanna Lira vira a câmera para ela mesma. Diretora de Positivas, Damas do Samba e do festejado Torre das Donzelas, narra como foi o percurso que a levou a abandonar o telejornalismo e se tornar documentarista.

Theresa Jessouron, diretora de Samba, Coração do Samba e À Queima Roupa, conta como foi parar no cinema e fala sobre suas inspirações.

Aly Muritiba
No seu episódio, Aly Muritiba, diretor de A Fábrica, Pátio e A Gente, explica como o fato de ter trabalhado por anos como agente penitenciário influenciou a sua filmografia.

Beth Formaggini
Beth Formaggini, diretora de Apartamento 608, Xingu Cariri Caruaru Carioca e Pastor Cláudio, aborda suas motivações e o processo de realização de suas obras.

Cristiano Burlan
Cristiano Burlan revela o processo de realização de seus documentários e explica como o teatro e, posteriormente, o cinema, foram sua rota de fuga da violência na periferia.

Claudia Priscilla
Claudia Priscilla, diretora de Leite e Ferro, Olhe Pra Mim de Novo e Bixa Travesti, aborda o processo de realização de seus filmes.

Sobre o cinema de documentários e a propósito da série Nós, documentaristas, lembramos outras observações do mestre Guzmán em Filmar o que não se vê: ''O cinema documentário recupera o tempo da vida. Existe, no entanto, atualmente a tendência de negar o tempo natural e substituí-lo pelo tempo fictício do espetáculo''.

Sobre os antigos documentários baseados em pesada narração em off: ''A voz era como uma corda esticada em que as imagens eram penduradas''.

Para o chileno, ''em um documentário de 52 minutos são suficientes três sequências fora do comum; para um filme de 90 minutos, de quatro a oito''.

E como um arremate ao assunto: ''A realidade filmada é a única contribuição insubstituível do documentário, ou seja, o documentário é o álbum de fotos da espécie humana. Um país sem documentário é como uma família sem álbum de fotos''.

*Filmar o que não se vê: Editora SESC, 2017, 288 p. (mais detalhes)

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