Cinema

'Santiago, Itália': Tempos sombrios da América Latina

Em meio à tensão atual que assombra o continente, de novo, estreia o aguardado 'doc' italiano sobre o terror dos primeiros tempos do Chile de Pinochet, que vem, em bom momento, reforçar a memória da ferocidade das ditaduras

19/06/2019 15:18

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O documentário do diretor italiano Nanni Moretti sobre o começo dos duros anos da perseguição implacável do governo do ditador Pinochet aos refugiados estrangeiros no país e, em geral, a todos os opositores desse regime chileno, mostra em toda sua força a ferocidade da ditadura comandada pelo general e inaugurada em 1973, apoiada pelos militares, pelo capital - os principais empresários do país -, pela imprensa, a burguesia chilena e com a benção e assessoria ativa do governo dos Estados Unidos.

Com este filme, Moretti foi o vencedor do prêmio Davi de Donatello na categoria Melhor Documentário e recebeu o Nastro d’Argento concedido pelo Sindicato Nacional dos Jornalistas de Cinema Italiano, ano passado.

Em Santiago, Italia (de 2018), ele narra como a embaixada italiana no Chile abrigou perseguidos políticos durante a primeira hora da ditadura chilena (1973 a 1990). Piero De Masi e Roberto Toscano eram os embaixadores italianos em Santiago.

O doc traz um acervo de imagens icônicas, de arquivo, em filmes de época históricos, e transmissões radiofônicas conclamado a população ao golpe assim como o bombardeio ao Palácio La Moneda onde se encontrava o presidente no 11 de setembro de 73, entremeados com entrevistas atuais emocionantes de alguns dos muitos que se abrigaram na representação italiana, refugiaram-se na Itália e organizaram suas vidas lá - onde vivem até hoje – e de jornalistas, correspondentes italianos no país, nos anos 70.

Nessa época a região da Emília e a cidade de Bolonha, sua capital, eram conhecidas como A Bolonha vermelha, administrada pelo forte Partido Comunista (PCI) de Enrico Berlinguer. Para lá foram diversos chilenos entrevistados no filme.

No seu início, há excelentes filmetes de época das grandes manifestações de rua em apoio à Unidade Popular, imagens do presidente Allende recém eleito desfilando em carro aberto e ovacionado pelas multidões, trechos de seus discursos empolgantes, e também fragmentos de discursos de Pablo Neruda.

“Eram tempos inesquecíveis. O país estava enamorado de Allende, " diz, em bela entrevista, o cineasta chileno Patrício Guzmán, autor de documentários clássicos sobre o período – Nostalgia da luz, O Botão de pérola.

“A esperança e as expectativas estavam cristalizadas num hoje. Era uma grande celebração nas casas, nos campos e nas cidades.” Guzmán filmava, então, o primeiro ano do governo socialista. “Era uma alegria que nunca vi no Chile, " diz ele.

Mas como avançar sem fazer acordos? Apenas aproveitando a energia popular das ruas, procedendo às reformas e sem assustar a burguesia? “Democracia é uma boa coisa desde que sirva aos poderosos, " anota um entrevistado.

Vem o fatídico 11 de setembro. Allende é fortemente pressionado para renunciar. O La Moneda é bombardeado pelas forças armadas. O presidente é morto. Do palácio, sairá o seu cadáver retirado pela porta lateral do prédio, a histórica Porta Morandé, mantida fechada durante trinta anos. Os visitantes estrangeiros visitavam a rua Morandé como uma homenagem ao presidente morto.

Numa segunda parte do filme, a instauração da ditadura, vê-se o início do tempo de terror. Estado de exceção, os opositores ao regime perseguidos pela polícia, presos e torturados.

À noite, com o toque de recolher, nas ruas apenas circulam carros de assalto de militares, metralhadoras armadas, e helicópteros com holofotes iluminando ruas e casas. Bons filmes de época.

As embaixadas começam a receber refugiados (muitos brasileiros e brasileiras) e fugitivos. Os embaixadores italianos contam como começaram a receber pessoas em pequenos grupos. "Mas em pouco tempo eram centenas de mulheres e homens morando na mansão onde estava instalada a embaixada". Muitos com suas famílias, inclusive crianças.

“Não tínhamos mais controle; as pessoas pulavam o muro da embaixada para entrar”, lembra o embaixador De Masi.

Um dia, a saga dos que procuraram asilo nas embaixadas de Santiago, pulando muros e arrombando portões deve ser narrada.

O professor brasileiro Luiz Alberto Barreto Leite Sanz, refugiado com a mulher na embaixada da Argentina foi um deles. Relembra: "Houve muitos representantes diplomáticos que recusaram dar asilo. Impediam a entrada nas embaixadas. Um dos mais generosos, o embaixador Gustav Harald Edelst, abriu as portas da representação sueca e percorreu campos de refugiados e prisões para recolher aqueles que mais necessitassem ou estivessem interessados em ir para o seu país."

O trabalhador em educação popular brasileiro Samuel Aarão Reis, especialista em educação popular, conseguiu entrar na embaixada do Panamá com a mulher e a filha de dois meses no colo dela depois da angústia de ver o portão e o muro do prédio gradeados.

Este momento dramático é narrado, não no filme, mas no seu livro, 87 estórias e 6 poesias, recém lançado. Um relato impressionante. " (...) perco a paciência... a comissão de coordenação está reunida dentro do prédio discutindo se nós vamos entrar hoje ou não. Parece piada. (...) "o carinha diz para voltar amanhã ”... "os soldadinhos olhando, meio de longe. "

... "vou entrar nesta porra! E vai ser agora! Meto a mão no portão. Os soldadinhos se agitam e se aproximam. Pelo lado de dentro o tal carinha da segurança segura a porta"... "eu forço de fora para dentro. O Dan puxa pelo lado de dentro também, tentando abrir o portão. ".. "os soldadinhos já estão a poucos passos, diante da confusão se aproximaram. Conseguimos abrir o portão. Melhor dito, arrombar o portão"

... "um dos soldados segura meu braço. Empurro Irene e Tania para dentro da embaixada. Elas entram correndo pelo jardim. Os soldados engatilham os fuzis. Apontam. Num safanão solto meu braço. Entro atrás da Irene. Tania no colo dela. Protejo com meu corpo o corpo das duas. Dan (N.R. o irmão, Daniel) abre os braços e grita para os soldados: não atirem – aqui há crianças!" ... ‘‘Conseguimos entrar!"

Uma das imagens mais fortes de Santiago, Itália, é a do cadáver de uma bem jovem estudante chilena jogado por cima do muro da embaixada italiana e caído nos seus jardins. O objetivo era desconstruir publicamente a imagem da Itália – único país que não reconheceu a Junta Militar de Pinochet – anunciando pela imprensa que a moça teria morrido durante uma orgia na beira da piscina da mansão.

Recentemente, o jornal La Repubblica perguntou a Nanni Moretti, que dirigiu sucessos como Caro diário, O quarto do filho, Habemus Papam, o motivo de ter decidido fazer este documentário de importância histórica. O que o levou a abordar o golpe militar chileno e o papel da embaixada do seu país, 45 anos depois.

E ele: "Foram muitos os que me questionaram sobre isso durante as filmagens e eu nunca soube o que responder. Mas, após concluir os trabalhos do documentário, Matteo Salvini tornou-se Vice Primeiro-Ministro e Ministro do Interior na Itália.”

"Percebeu-se então (finalmente) porque Moretti fez este filme, " concluiu o repórter que o entrevistava.







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