Cinema

"Zama" vê a colonização espanhola como delírio indecifrável

Chega enfim aos cinemas brasileiros o novo filme da argentina Lucrecia Martel. Zama é uma coprodução com o Brasil e desafia o espectador a compreender o que Lucrecia quis dizer com essa fantasmagoria colonial

28/03/2018 11:08

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Créditos da foto: Reprodução

 
Zama chegou a ser indicado pela Argentina para concorrer ao Oscar de filme estrangeiro. Contribuiu para isso o prestígio da diretora Lucrecia Martel (O Pântano, A Menina Santa, A Mulher sem Cabeça) junto a certo público intelectualizado da América Latina. Mas, mesmo entre seus fãs menos incondicionais, o filme causou desorientação e perplexidade.

A América espanhola do século XVIII que vemos em Zama mais parece uma fantasmagoria surrealista que um drama histórico. Cavalos e lhamas aparecem magnificados na tela ao lado dos personagens em situações bizarras. Índios fantasiados surgem do nada para assombrar os brancos. Crianças proferem sentenças divinatórias. Adultos repetem frases que acabaram de dizer. Sons misteriosos perfuram nossos ouvidos e bolerinhos com violão elétrico enchem a trilha sonora de anacronismos meio jocosos.

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Lucrecia estava de volta depois de nove anos sem filmar. Embora recorrendo a um livro de 1956 do escritor argentino Antonio di Benedetto, a diretora fez mais um filme alucinatório como os de sua própria lavra. Don Diego de Zama (Daniel Giménez Cacho), assessor "letrado" da Coroa espanhola lotado no que hoje é o Paraguai, espera por anos a fio uma transferência que o leve de volta às belezas e confortos da Europa. A solidão, as humilhações, o desenraizamento e o ócio o tornam comparável a um peixe rejeitado pela mesma água que o faz sobreviver. Ou pelo menos é assim a metáfora anunciada logo no início.

Depois de uma longuíssima apresentação do personagem e de suas relações vexatórias com uma dama espanhola (Lola Dueñas, a melhor do elenco), com os sucessivos governadores e com os negros e índios escravizados (ele tem um filho com uma índia), Zama se engaja como voluntário numa caçada ao temível e lendário bandoleiro Vicuña Porto, que pode estar vivo ou não. É quando surge seu grande antagonista, um soldado brasileiro vivido com inexplicável acento gay por Matheus Nachtergaele.

Nas duas vezes em que vi Zama, precisei me manter em luta constante contra o tédio e para extrair esse fio de história como quem tenta compreender o relato de uma pessoa disléxica. O respeito de que Lucrecia Martel desfruta junto à crítica mais sofisticada explica os argumentos tortuosos que muitos colegas têm usado para dizer que adoraram se sentir perdidos e enfadados pelo filme. Não foi o meu caso. Achei muito difícil apreender o que a cineasta pretendia expressar sobre a época colonial. O degredo existencial de Don Diego só me provocou indiferença. A presença de escravos e índios fora de foco no fundo da cena, espremidos em cantos do quadro ou mesmo com a cabeça cortada pelo enquadramento, me pareceram banais como índices de sua exclusão social.

É o que inevitavelmente leva a pensar sobre as semelhanças de Zama com Vazante, de Daniela Thomas, que foi massacrado pela crítica identitária brasileira. Vazante era muito mais incisivo quanto à opressão colonial, seja de raça, seja de gênero. Mas Lucrecia, que eu saiba, até agora não foi acusada de ter feito um filme sobre "problema de branco" em plena era escravocrata. Não vi ninguém apontar que a montagem de Zama tenta dissimular um roteiro obscuro e uma encenação frequentemente esdrúxula.

 

A coprodução reúne nomes e recursos de vários países, inclusive o Brasil através da Bananeira Filmes de Vania Catani. Os irmãos Almodóvar, os atores Gael García Bernal, Diego Luna e Danny Glover se somaram aos produtores para viabilizar um tão esperado novo projeto de Lucrecia. A repercussão, porém, está longe de compensar tanto esforço.

O lançamento de Zama, contudo, traz a oportunidade de se rever os três primeiros filmes da cineasta na mostra que já passou pelo Instituto Moreira Salles de São Paulo e agora desembarca no IMS carioca. 

Juliette e Maria Alice

Duas personagens femininas interessantes estão em novas estreias do cinema esta semana: a atriz Maria Alice Vergueiro no documentário Górgona e a pintora carente vivida por Juliette Binoche no ficcional Deixe a Luz do Sol Entrar.

Este último é também dirigido por uma mulher de forte marca autoral, a francesa Claire Denis. Em Deixe a Luz do Sol Entrar, Isabelle (Binoche) é uma bomba de carência e confusão afetiva prestes a explodir. Pintora cujas obras nunca vemos, ela já não é nenhuma garota, mas ainda está em ótima forma. Separou-se do marido, está cansada de transar com homens casados e procura um amor verdadeiro. Afinal, aquilo é Paris, onde há sempre essa promessa.

Um banqueiro arrogante, um ator vacilante, um colega falante, etc... Isabelle cai dos braços de um para os de outro como se pulasse de pedra em pedra para não se afogar num lago. Mas tudo o que ela encontra – e talvez o que queira de verdade – é jogo e hesitação. Passar da palavra ao ato é uma dificuldade sem fim para os franceses. Deixa-os exaustos. Claire Denis põe isso em cena muito bem.

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Não é fácil acompanhar o minueto de vontades, desistências, arrependimentos e indecisões de Isabelle e dos homens ao seu redor. Nosso GPS é a inesgotável capacidade de expressão de La Binoche. Ela sustenta longos closes nos quais vemos as emoções desfilarem por seu rosto como um filme dentro do filme. A linguagem corporal, os gestos e os sutis deslocamentos da câmera de Agnès Godard fazem um fino concerto visual que nos magnetiza até mesmo quando os diálogos soam barrocos demais e consequentes de menos.

Mas o melhor do filme é a súbita entrada em cena de um monstro sagrado do cinema francês no papel de um vidente. A consulta de Isabelle com esse personagem coroa seu processo de abertura para "a luz do sol" e, ao mesmo tempo, enterra de vez a ilusão de um amor único e perfeito. E de novo Claire Denis coloca as palavras como talvez a única forma de realização completa de um ideal.  

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O documentário Górgona, de Pedro Jezler e Fábio Furtado, registra os bastidores da turnê do Grupo Pândega com a peça As Três Velhas, de Alejandro Jodorowski. A veneranda Maria Alice Vergueiro dirige, atua e produz com dinheiro tomado de empréstimo a juros. É um tour de force financeiro, físico e espiritual. É a realidade do teatro independente, sem patrocínio nem grandes recursos para além da criatividade.

Mais que isso, Górgona é um elogio à resistência da atriz, que se move numa cadeira de rodas, atingida pelo Mal de Parkinson. Entre montagens da peça em diversas cidades, ao longo de quatro anos, percebe-se a crescente falta de controle dos movimentos do corpo e da voz. Os diretores Pedro Jezler e Fábio Furtado não nos poupam de presenciar esse declínio. Num dado momento, Maria Alice diz contemplar a opção da eutanásia.   

O filme é duro e íntimo nesse aspecto. Toda ideia de espetáculo é posta de lado em troca de uma observação dos ensaios, da convivência nas coxias e do dia-a-dia de um teatro feito na raça. Fechar as contas é a cena final de cada noite, na intimidade dos camarins. Maria Alice, grande dama do teatro independente paulista, tem uma personalidade surpreendente, incisiva e terna, tudo ao mesmo tempo. Uma górgona, que na mitologia grega é uma feminilidade libertina e extravagante. O documentário procura captar estilhaços dessa personalidade nos intervalos da ação teatral. Infelizmente, não passa muito de um registro "doméstico" limitado pelas circunstâncias de um único trabalho. Tira melhor proveito quem já conhece a trajetória insubmissa de Maria Alice Vergueiro.



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