Cinema

'É Tudo Verdade': Edna

Exibições gratuitas: Plataforma Looke, 16/04 às 21h00 e 17/04 às 15h00

15/04/2021 11:36

 

 
Edna Rodrigues de Souza é uma mulher que vive no interior do Pará, à margem da estrada Belém-Brasília, também conhecida como Rodovia Transbrasiliana. Edna é um segredo que Eryk Rocha desvenda pouco e aos poucos, pelas frestas de uma narrativa poética, mas que só é evidenciado de verdade nos letreiros finais.

Até ali, catamos migalhas de informação sobre Edna a partir não muito do que vemos, mas do que ouvimos. Ela tem cadernos repletos de uma escrita redonda, que preenche cada linha e cada página até o fim. Título: "A História da Minha Vida". Por sua leitura fragmentada e entrecortada, ficamos sabendo aos poucos que ela esteve presa, perdeu filhos na luta pela terra, presenciou estupros e outras violências, homenageia os mortos na Guerrilha do Araguaia e quer muito ir-se embora dali. "Para onde, não sei".

Edna é uma mulher corpulenta e forte, dona de um olhar triste mas firme, que deixa entrever memórias duras. Vive com um companheiro em relação confessadamente sem amor. Tem horas em que os dois falam ao mesmo tempo, como se estivessem sozinhos. Edna parece existir consigo mesma e com as lembranças e considerações que deposita nas pautas dos cadernos.



De alguma forma, Edna me lembrou Estamira, mas com todos os sinais trocados. Em vez da loucura, uma lucidez calma, uma voz mansa que cochicha, cantarola baixinho e chora sem alarde. Eryk, o montador e corroteirista Renato Vallone e o desenhista de som Waldir Xavier se valem dessa partitura de voz para tecer uma teia sonora belíssima, na qual falas, ruídos e música se entrelaçam misteriosamente.

É raro que o filme abandone esse diapasão macio para sugerir um pouco da violência da região. Exemplo disso é a junção mais retórica das imagens e mugidos de gado com as orações de uma igreja evangélica e o som de tiros. Na maior parte do tempo, o que prevalece é o contraste entre as referências de brutalidade e a paz que parece reinar na casa de Edna, com suas roupas coloridas estendidas no varal, seus gatos e seu recolhimento de velha guerreira.

A relação entre os sons e a fotografia de altíssima definição a cargo de Eryk e Jorge Chechile é um primor de construção estética que foge à ilustração óbvia e sugere intertextos todo o tempo. Mas é essa ultra-elaboração que também acaba por esvaziar um pouco o retrato da personagem. Edna vem a nós um tanto nebulosa, camuflada pelo virtuosismo formal e o discurso sinuoso.





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