Cinema

'É Tudo Verdade': História de um Olhar

Exibição gratuita: Plataforma Looke, 17/04 às 19h00

16/04/2021 11:10

(Divulgação)

Créditos da foto: (Divulgação)

 
As imagens de um mistério

A carreira do fotojornalista francês Gilles Caron foi tão intensa quanto curta. Ele desapareceu no Camboja em 1970, em uma missão cobrindo a guerra que eclodira naquele país do Sudeste asiático. Gilles tinha 30 anos. Nunca se obteve uma pista do que pode ter acontecido a ele. Sua foto mais famosa mostra o líder de Maio de 68, Daniel Cohn-Bendit, diante de um policial, em pose desafiadora. Quem era o fotógrafo por trás da imagem icônica e o que de fato se sabe sobre seu misterioso sumiço?

O documentário História de um Olhar (Histoire d'un Regard) investiga a trajetória de Gilles, utilizando como dispositivo seu acervo de cerca de 100 mil fotos. O acaso levou a diretora Mariana Otero a ter contato com sua vida aventurosa. Certo dia, ela ganhou de presente de um amigo um livro de fotografia com o trabalho de Gilles. Reconheceu algumas imagens, como a de Cohn-Bendit, mas foi a informação ao final do livro, sobre o estranho fim do fotógrafo, que chamou sua atenção. Algumas coincidências intensificaram seu interesse no assunto. Sua mãe, pintora, também morrera aos 30 anos, e dela ficaram apenas os desenhos. E, como Gilles Caron, deixara duas filhas.

É das mãos de uma das filhas de Gilles que Mariana recebe um drive contendo as 100 mil fotos digitalizadas que o pai produziu. Ela se debruçará diante desse verdadeiro puzzle em imagens para reconstituir a história do seu personagem. Com a dedicação de uma arqueóloga, irá juntar as peças aos poucos, refazendo seu trajeto. As fotos são deslumbrantes, e constituem o grande atrativo da narrativa. Na condição de fotógrafo da Agência Gamma, e também como repórter da revista Paris Match, Gilles cobriu os principais conflitos que sacudiram a segunda metade do século 20.

Além das escaramuças do Maio de 68 em Paris, ele esteve presente nos palcos da Guerra dos Seis Dias, em Israel; na Guerra do Vietnã; em Biafra durante a grande fome naquela região da África; na Guerra do Chade; em Praga, durante a invasão soviética, nos confrontos entre católicos e protestantes na Irlanda do Norte; e, por fim, na Guerra do Camboja, onde sumiu sem deixar vestígios. Sua carreira também acumulou incursões pelo mundo dos eventos e dos espetáculos, experiências das quais ele desdenhava: “Você é o paparazzi idiota que se acotovela para ver de cima o que se vê sempre.”

Além das imagens, Mariana lança mão de outros registros de Gilles, como algumas cartas enviadas à mãe da Guerra da Argélia (onde lutou como paraquedista) e à esposa de plagas distantes, e duas raras entrevistas por ele concedidas: uma em áudio e outra para a TV. Nesse material, o fotojornalista se mostra crítico do seu trabalho, a despeito dos êxitos conquistados. Mariana também se desloca até a Irlanda, e por lá consegue localizar dois personagens identificados nas fotos que Gilles fez dos conflitos religiosos.

A paixão com que Gilles Caron se envolvia em arriscadas missões fotográficas parece impregnar a busca de Mariana Otero, empreendida de forma meticulosa e intensa. O que daí resulta é um personagem que, apesar de ausente, se revela com inteireza, capturado nos dramas de sua breve vida.



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