Cinema

'É Tudo Verdade': Presidente

Exibição gratuita: Plataforma Looke, 14/04 às 19h00

13/04/2021 10:44

 

 
A astúcia dos lobos

A produção dinamarquesa Presidente aborda o histórico das eleições presidenciais de 2018 no Zimbábue. Por trás do pleito corre todo um roteiro de intrigas políticas envolvendo a herança de Robert Mugabe, o mais longevo dirigente daquele país africano. Ele se tornou primeiro-ministro em 1980, depois da independência do Zimbábue, e permaneceu no poder até 2017, quando foi deposto por um golpe militar e levado a renunciar ao cargo de presidente.

Após a queda, novas eleições são imediatamente convocadas tendo na disputa dois nomes: Emmerson Mnangagwa, representante do continuísmo pelo partido ZANU-PF, embora se apresente como crítico de Mugabe, e Morgan Tsvangirai, pelo MDC, partido de oposição que tem como bandeira a mudança democrática. No entanto, Tsvangirai morre a menos de quatro meses das eleições. O advogado Nelson Chamisa, de 40 anos, ocupa seu lugar.

A câmera da diretora Camilla Nielsson assumirá desde o início o lado de Chamisa e seus assessores, que empreendem uma intensa campanha para conscientizar a população da necessidade de mudança visando à superação da crise econômica que atingia o país. Durante 37 anos, Mugabe se manteve no poder por meio de eleições fraudulentas. A marca do antigo regime paira como uma ameaça constante. Observadores da União Europeia e dos Estados Unidos são convidados para acompanhar o desenrolar da votação.

A luta de Chamisa e seus partidários para assegurarem a lisura do processo dão um ritmo de suspense ao filme. Ele se apresenta como um líder moderno, que enfrenta o governo corrupto de Mugabe desde os tempos de ativista estudantil. Assim Chemisa resume sua visão democrática: “É mais fácil pegar em armas, mas acreditamos numa forma civilizada de lidar com os problemas políticos.”

À medida que a disputa se torna acirrada, as ações de Emmerson Mnangagwa, de 75 anos, deixam claro que ele é uma mera perpetuação da política de Mugabe, o que vale a ironia de Chamisa: os lobos continuam sendo lobos. Suas suspeitas se confirmam quando ele recebe ameaça de morte e é forçado a se esconder. Sua combativa equipe se mantém na linha de frente.

As eleições se realizam e, como já suspeitavam Chamisa e seus assessores, existem indícios de mais uma fraude no ar. A divulgação do resultado da votação atrasa, escancarando a parcialidade da comissão eleitoral, responsável pelo processo. A população se revolta e é massacrada por forças policiais.

O documentário põe em evidência uma constatação e um alerta. Primeiro, a constatação: Robert Mugabe foi um dos responsáveis pela independência do Zimbábue, tendo sido considerado um herói revolucionário. O longo tempo no poder o corrompeu. E o alerta: o excessivo acúmulo de poder finda por impedir qualquer aspiração democrática, eliminando toda tentativa de exercício da soberania popular.



Conteúdo Relacionado