Cinema

'É Tudo Verdade': Zimba

Exibições gratuitas: Plataforma Looke, 14/04 às 21h00 e 15/04 às 15h00

13/04/2021 10:48

 

 
Que ninguém espere de Joel Pizzini uma cinebiografia tradicional, daquelas baseadas num personagem que narra a própria vida e/ou é narrado (e enaltecido) por outros tantos. Zimba até tem um pouco disso, mas diluído numa estrutura narrativa que privilegia a performance e o potencial cênico contido nos materiais de arquivo.

Zibigniew Marian Ziembinski (1908-1978) vem à luz num intenso jogo de espelhos que já começa por uma ressurreição. Pizzini arregimenta imagens de Zimba para dar corpo à fantasia de um velho ator que forja sua própria morte, assiste às honrarias póstumas e, mais tarde, ao cair no esquecimento, implora para ser reconhecido como vivo. Nesse documentário, o que prevalece é a vitalidade do grande ator e diretor que renovou o teatro brasileiro com a montagem de Vestido de Noiva em 1943 e seguiu injetando dramaturgia universal em nossos palcos.

O encontro com Nelson Rodrigues ocupa um espaço considerável no filme e funciona como espinha dorsal. Num palco onde a imagem e a voz de Ziembinski são de vez em quando projetados, Camilla Amado, a Alaíde da montagem dos anos 1970, desempenha um misto de narradora e encenadora. No mesmo espaço de evocação, Barbara Vida, Ana Paula Quevedo e Fernanda Huffel "representam" as atrizes da versão de 1943. O jogo temporal se reproduz ao longo de todo o filme, perfazendo a carreira de Zimba sem apego à linearidade.

Ziembinski contracena consigo mesmo em diversos momentos, num procedimento semelhante ao que Pizzini já havia adotado no seminal Glauces – Estudo de um Rosto (2001). Numa sequência montada por Idê Lacreta com sua proverbial inteligência, Zimba assiste ao próprio enterro. Impossível não se recordar do prólogo de Morangos Silvestres, de Bergman, em que o velho professor contempla a si mesmo num caixão.

A coprodução com a Polônia permitiu o acesso a registros preciosos de atuações de Zimba em filmes e peças polonesas, antes e durante a II Guerra Mundial. Após a vinda para o Brasil, em 1941, o artista logrou dar uma continuidade notável ao trabalho nos palcos, assimilando rapidamente a língua, embora sem nunca perder o sotaque. Seguiram-se Os Comediantes, Teatro Brasileiro de Comédia, Vera Cruz, Cinema Novo, TV Globo (onde se travestiu numa idosa na novela O Bofe) e muitos outros espaços nos quais Ziembinski, além de atuar, formou atores e dramaturgos.

Nathalia Timberg (a Alaíde de Antunes Filho) e Nicette Bruno (O Anjo Negro) completam o elenco das narradoras afetivas. Mas a narração principal é o arranjo caleidoscópico que Pizzini e sua equipe propõem para ressuscitar Ziembinski em sua pluralidade e energia. No lugar da ordem, o fluxo. Em vez da aula, a trama.





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