Cinema

1993: a grande Caravana da Cidadania

'3 refeições', filme de Maria Maia, é um registro documental sobre a fome, faz parte da mostra competitiva de longas-metragens do Festival de Cinema de Los Angeles, de 21 a 25 de outubro, e pode ser visto na plataforma Filmocracy

15/10/2020 14:40

'3 refeições' (Maria Maia)

Créditos da foto: '3 refeições' (Maria Maia)

 
Três refeições, este documentário de Maria Maia, cineasta nascida no Acre e há muitos anos em Brasília, é de uma atualidade incisiva para a compreensão do que sucede hoje no Brasil. E se inicia nos dizendo que é necessário rever o ontem: o primeiro quadro é literalmente um quadro; uma pintura de Portinari expondo as carnes fracas e cansadas de um povo retirante. Retrocedendo em mais de um século, a obra resgata a epopéia assustadora de Antônio Conselheiro e sua experiência visionária (religiosa, política, coletiva) nos primeiros anos da declarada República, virada do século 19 para o 20, em Canudos, desertão do estado da Bahia. Aí está o ponto de confluência nevrálgica de tragédias, dramas, sonhos e lutas com a vida, pelo ter um mundo.

Nesse contexto se faz notável que toda uma cultura brasileira de resistência e criação se sustenta neste território determinado pela fome - tempo e espaço em que se construíram as grandes críticas corporificadas em obras de arte e de pensamento: da inabalável escrita de Os Sertões, de Euclides da Cunha às Vidas Secas, de Graciliano Ramos; da consciência modernista aos manifestos da Antropofagia e do Tropicalismo, da poesia sem adjetivos de João Cabral de Melo Neto às obras fundadoras das ciências sociais no Brasil.

Para contextualizar e voltar ao filme: assistimos a desdobramentos da grande caravana, denominada Caravana da Cidadania, empreendida por Luis Inácio Lula da Silva, que cruza parte do país, de Pernambuco a São Paulo, com uma voraz e até hoje inesgotável questão: por que a fome é uma das faces da barbárie humana vivida pela sociedade brasileira?

O filme se movimenta nas estradas e tem mesmo partida quando, em 1993, Lula e o Partido dos Trabalhadores atravessam os sertões, passando por 60 cidades e vilarejos, para indagar a todos sobre o horror da fome, numa experiência que o jornalista e escritor Zuenir Ventura, um dos integrantes da viagem, considera um mergulho, um choque.

As vozes em 3 refeições são múltiplas. Não só a do líder político que também emigrou do Nordeste em busca de melhores condições de sobrevivência, mas ainda de pensadores, geógrafos, cientistas e jornalistas, que se deparam em cada parada na estrada para ouvir o que os cidadãos oprimidos têm a dizer. Um entre eles, que inclusive também se chama Lula, resume, até entre risos: nós somos escravos. Um tumor maligno que se alastra por séculos: o da colonização, da miséria fabricada pela indústria da seca, das terras dominadas por coronéis e oligarquias. Herança maldita de séculos, a miséria torna-se indigência. Um capitalismo selvagem, sim, pois nem cria condições para o trabalho, como se fosse um braço do genocídio moderno.

Com sua veemência e discurso direto, Lula elabora o que seria a bandeira mais concreta de sua ação política desde então: Fome Zero, um decreto que se constrói entre tantas abordagens e contradições. Como um país continental, de tantos recursos naturais, marcado pela exploração física, ambiental e humana, pode construir seu próprio abismo chegando aos extremos do que um filósofo africano da atualidade denomina de necropolítica?

Tantas possibilidades são apresentadas por este inquietante filme que se constrói no caos. O caos é a pobreza aviltante, a injustiça institucionalizada, o descaso dos direitos humanos. A terra desolada, as populações silenciadas, encostadas nas paredes, os registros de uma travessia feita pela linguagem visual nos campos, fisionomias, atitudes, silêncios.

Maria Maia pontua os momentos de tensão e revelação com a música de Villa-Lobos, um dos tantos sonhadores que pensaram um outro Brasil. Outro Brasil que resiste, insiste e se refaz no transe da terra e de seus marcos de fundação.

O documentário traz o pensamento de nomes como os geógrafos Josué de Castro (Geografia da Fome), Aziz Ab’Saber (Os domínios da natureza no Brasil), do ativista político Herbert de Souza, dos jornalistas Zuenir Ventura e Teresa Cruvinel e do economista João Pedro Stédile (Brava Gente – A Trajetória do MST e a Luta pela Terra no Brasil).

As falas convergem para a discussão da miséria estrutural que está no centro da nossa formação de Nação. Como espectadores, é evidente, saímos da zona de conforto. Somos levados a pensar e repensar nossas origens, origens, a sonhar (o cinema é uma atividade onírica, diz Pier Paolo Pasolini) com os horizontes onde as utopias nos desafiam para um novo instante.

Somos feitos desta mesma matéria do instante e das circunstâncias. “Muntra coisa”, como diz um dos falantes deste filme que fala por suas imagens.

Entre tantos momentos de comoção das imagens chama a atenção o retorno ao Monte Santo, lugar sagrado na cultura brasileira, com um registro cativante de sua ladeira, capela e remanescências do passado, trazendo à memória o cinema impulsivo de Glauber Rocha quando lá filmou seu Deus e o Diabo na Terra do Sol.

Nesse final de 2020, o Brasil voltou ao mapa da fome. Lula segue determinado depois de tantas reviravoltas (a presidência da República, o golpe, a prisão, punição da civilidade e a ascensão de um neofascismo ostentoso agora). Operações em curso e curto-circuito contra qualquer instância de liberdade.

Uma instituição da ONU é prêmio Nobel da Paz por sua atuação no combate à fome. A Fome Atualizada, e é concreta, está no estômago e neste documentário. Que finaliza revendo-se a si mesmo e revelando o conceito de sua feitura. É preciso assistir mais de uma vez o filme de Maria Maia.

“De toda tristeza existe/mas a tristeza mais triste/que faz tudo entristecer/é ver a mãe pobre gemer/nos olhos águas correndo/vendo seu filho dizendo/mamãe, eu quero comer”. (Poeta repentista Patativa do Assaré).



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