Cinema

A Cuba, com afeto e honestidade

As várias fases da revolução no tocante documentário de Jon Alpert, ''Cuba e o cameraman''

20/07/2021 12:41

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Créditos da foto: (Reprodução)

 
Neste momento que pode vir a ser mais uma das encruzilhadas da emblemática revolução cubana, o documentário Cuba e o cameraman, filme afetuoso e sobretudo honesto lançado em 2017, volta a ser procurado por centenas de espectadores no catálogo da Netflix. Faz sentido.

Seu diretor é o documentarista Jon Alpert, americano progressista, que lá atrás, há quase 50 anos, criou, em companhia de sua mulher, a produtora de filmes Keiko Tsunoe, o coletivo Downtown Community Television Center, em Nova Iorque. Alpert é autor de alguns docs de referência sobre as guerras americanas no Afeganistão e no Iraque e construiu esse Cuba and the cameraman durante quatro décadas filmando o desenvolvimento da vida e da trajetória de alguns amigos que fez em Havana, nas suas sucessivas viagens à ilha durante esse largo período.

Um deles foi Fidel Castro, que, se não chegou a ser um amigo chegado, era um dos notáveis líderes históricos que lhe concedeu entrevistas exclusivas, instantâneas e portanto descontraídas, as quais muito dizem do homem entrevistado, mais do que do líder político.

 ''O grande problema de Cuba é o embargo americano'', já dizia Fidel (é claro) a Alpert, num dos primeiros encontros que os dois tiveram tête à tête depois de um pequeno episódio com a bagagem profissional do diretor americano que chamou a atenção de Castro em outubro de 1976. Foi o ano do encontro inaugural entre os dois.

No filme, antes de apresentar esse encontro e dentre os flashes de abertura, vê-se a imagem de John Kennedy discorrendo sobre Cuba nesses termos: ''Não podemos suportar (esse regime) debaixo dos nossos narizes''. Um ano antes, houvera a primeira grande celebração, em Havana, do primeiro Congresso do Partido Comunista Cubano, retratada também no documentário.

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Em 1979, segundo retorno a Cuba de Alpert. Ele filma sua viagem junto com Fidel, no mesmo vôo de cerca de três horas da Cubana de Aviación* que os levou a Nova Iorque para o histórico discurso de Castro na ONU. A câmera do americano acompanhou detalhes da chegada: as restrições de mobilidade do grupo até para desembarcar da aeronave, as humilhações impostas pela alfândega aos seus integrantes, as manifestações diante do seu hotel e os riscos de Fidel sofrer em atentado. Respondendo ao jornalista se estava receoso com a possibilidade de ser alvejado e se estava usando colete à prova de balas Fidel desabotoa a camisa, ri e mostra o peito nu.

A sequência é a fala de Fidel: ''Por que em alguns países há crianças descalças andando pelas ruas e em outros, carros luxuosos percorrem as avenidas''? Em seguida, a imediata volta da comitiva cubana para a ilha e Alpert retornando junto com ela.

Em outras seções do filme se sucedem as várias fases da revolução e da queda de braço que os governos americanos impõem até hoje procurando asfixiar de algum modo a população cubana. Famílias que fugiram de Cuba para Miami. Visitantes cubanos levando na bagagem gêneros alimentícios para parentes. O êxodo histórico das centenas de barcos deixando a baía de Mariel rumo à Flórida com autorização do governo de Fidel. A queda do Muro de Berlim e o grande choque com o corte dos milhões de dólares que os russos despejavam na economia cubana. Com o desmoronamento da União Soviética, em 1991, as frias relações entre Moscou e Havana trouxeram o fim de uma ajuda financeira e provocaram grave crise com a paralisia e a pauperização dessa economia.

O cruel período do racionamento. Escolas, hospitais, quase paralisados. Farmácias e mercados de prateleiras vazias. Fome. As batatas, quando haviam, eram destinadas aos restaurantes dos hotéis de grandes cadeias internacionais que se instalavam no país. Nos paladares (restaurantes domésticos), as cascas das batatas eram servidas fritas, eram bem feitas e saborosas. (Eu comi muitas cascas de batata, fritas. Ótimas).

A partir da década dos anos 90, o período da construção da indústria do turismo de massa com foco em Varadero. Tímidos e cuidadosos investimentos de grupos espanhóis, e do Canadá para a construção do novo aeroporto de Havana.

O fio condutor do doc registrando todo o processo da revolução cubana através das últimas décadas é a série de reencontros filmados com a meia dúzia de amigos que o diretor fez na ilha caribenha. Entre eles, três irmãos camponeses, os Borrego - Angel, Gregorio, Cristóbal - que envelhecem à medida que o tempo passa e as condições de sobrevivência mudam. Caridad é outra amiga-personagem, com o filho pequeno, Luiz, que vai se tornando adulto. Acabam indo para a Flórida.

Alessandro Ciari on Twitter:

E Fidel, com quem Alpert se encontra novamente e mantém rápidos diálogos em algumas das viagens de retorno a Havana, até sua morte.

Em 1992 ele chega a levar a filha pequena consigo até Cuba e convence Fidel a escrever um bilhete para a professora da garota desculpando sua ausência na escola. “Você é um jornalista talentoso”, diz Castro ao diretor.

No nonagésimo aniversário do líder, em 2016, o americano exibe com orgulho a assinatura de Castro em sua camisa. E por fim, a sua singela homenagem ao líder revolucionário, no cemitério.

''O filme é imprescindível'', escreve um amigo cinéfilo visitante de Cuba algumas vezes. ''É de coração partido que experimentamos um tanto da trágica realidade da ilha e de seu povo esmagados pela exploração, sanha e impiedade do império capitalista. Documento lindo e extremamente bem realizado, mas de tristeza cortante e dilacerante.'' Tristeza que se contrapõe à energia e à resistência do povo cubano.

Em tempo: o filme francês Retorno a Ítaca, de 2014 e com roteiro do escritor Leonardo Padura, está no catálogo da Globoplay. Resenha com o título Mãos à obra: foi-se o tempo das utopias em Carta Maior.

*Cubana de Aviación, excelente companhia aérea. Voou durante algum tempo, nos anos 90, do Brasil para Havana.



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