Cinema

A História se repete: Panamá, Guatemala, Equador, Irã, Iraque. E Brasil?

O capítulo mais interessante 'Zeitgeist" é Assassinos Econômicos, baseado no best seller devastador do ex-agente da Agência Nacional de Segurança dos EUA

19/07/2017 18:16

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Com um formato de série para a TV com cinco capítulos, o extenso filme documentário do ativista americano Peter Joseph, 38 anos, da Carolina do Norte radicado em Nova Iorque, e intitulado Zeitgeist*, para muitos ambientalistas e dissidentes do sistema é uma espécie de bíblia cinematográfica. Foi relançado com um  ‘adendo’, em 2011, com o nome de Zeitgeist Addendum e ainda hoje conserva o prestígio e a atualidade. Em uma das partes o doc denuncia a queda forçada de dez presidentes da América Latina eleitos democraticamente, como se faz a  sabotagem econômica com fins políticos de dominação e a política econômica interferindo na política externa dos países mais vulneráveis. Hoje, o filme ganha uma perspectiva histórica e por isto se faz mais ainda interessante. Os fatos apresentados, nem as dúvidas nem as contestações que pairam sobre eles os desmentem.
 
O primeiro capítulo do filme é a introdução ao trabalho. O segundo, Assassinos Econômicos, com cerca de 30 minutos; o terceiro, Sistema sustentável, o quarto, Emergentes simbióticos e o quinto, uma extensa entrevista de duas horas com o autor.
 
Nessa série, Joseph pretende mostrar como o sistema funciona. A atual ‘’insustentabilidade material e moral da humanidade, ’’ ele denuncia. E fala sobre as instituições financeiras e religiosas manipulando o homem. O mundo globalizado e a máquina de guerra.
 
Quebrar paradigmas é a sua palavra de ordem.

O capítulo Assassinos Econômicos é uma das seções mais interessantes do filme. Baseado no best seller devastador do ex-agente da Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos, John Perkins, um economista travestido de consultor da poderosa empresa Chas.T. Main, área de produção de energia apontada como um braço da NSA, e conhecida hoje como Parsons Main. O trabalho de Perkins foi o de atuar como um ‘assassino econômico’.
 
Autor de vários outros livros, ele hoje é militante na política de meio ambiente e de culturas indígenas. No passado, cumpriu missões, ele conta, na Indonésia, Panamá, Equador e Arábia Saudita elaborando, segundo descreve, estudos econômicos falsos ao super dimensionar orçamentos públicos e procurando corromper políticos locais. O objetivo: pressionar governos-alvos a tomarem empréstimos que se revelariam impagáveis no futuro, tornando-se desse modo países falidos ou condenados à mediocridade, dependentes econômicos dos EUA e/ou de corporações transformadas em seus credores.
 
Em resumo: a tarefa dos ‘assassinos econômicos’, segundo John Perkins, entre outras, era – e é -  agir como cabeça de ponte para a entrada do FMI e do Banco Mundial no jogos econômicos locais em troca de ‘condicionalidades’: votos alinhados aos EUA nas decisões importantes da ONU, apoio a tropas em outras regiões, cessão de áreas para instalação de bases militares, privatização da energia nesses países alvos, venda da água e serviços de esgotos para concessionárias americanas ou multinacionais, venda em fatias de petroleiras (lá se esvai a nossa Petrobrás, por exemplo), reformas de leis sociais, assinatura de contratos engenhosos que acenam para o bem estar da população em serviços sociais, sistemas educacionais, previdenciários, de saúde etc., na verdade todos eles transformados, no curto prazo, em imenso prejuízo com pagamento de juros asfixiantes para qualquer economia.
 
Segundo ambos - Perkins, no seu livro, e Joseph, no documentário dele -, a consultora internacional Main possuía um quadro de peritos com vistosos currículos que conferiam credibilidade aos seus projetos econômicos criminosos.
 
Uma das chaves do sucesso, Perkins ressalta, nesse tipo de estratagema, é a rapidez do assalto que deve confundir a população e ser veloz na conclusão. Semelhanças? Qualquer analogia com o desmonte relâmpago da economia brasileira neste momento, não é ficção nem teoria de conspiração. A ver, inclusive, a pressão, esta semana, nas declarações enfáticas do diretor-executivo do Banco Mundial: as reformas, aqui, precisam sair logo, independentes do presidente-golpista de plantão.
 
A aula de Perkins no documentário continua com comentários do tipo: “O mundo é um grande negócio. É um grupo de corporações. E o imperador desse primeiro império global instituído não tem rosto. Chama-se ATT, DuPont, Exxon, Union Carbide, Dow, ITT.’’
 
Perkins conta ter decidido deixar a Main e escrever o livro/denúncia traduzido para dezenas de idiomas, português inclusive***, depois de dois eventos. O assassinato do presidente Jaime Roldós Aguilera, do Equador, em 84, democrata que pretendeu escorraçar a United Fruit do seu país (depois de sua morte ela retornou), e três anos antes, a morte em acidente aéreo nunca esclarecido de Omar Torrijos, do Panamá, que chegou a comentar em uma conversa com o autor pouco tempo antes de morrer: “Eu sei que sou o próximo a ser eliminado.”
 
O doc é didático nas suas partes. A narrativa do ex-agente se inicia no Irã, em 1953, com a deposição do democrata Mohamed Mossadegh cuja política taxava petroleiras estrangeiras instaladas no país e procurava beneficiar a população com os ganhos da venda de óleo. Um espião americano, Kermit Roosevelt, enviado para Teerã, trabalhou para desestabilizar o país e reintroduzir o Xá da Pérsia em um governo títere com poderes absolutos e obediente aos interesses econômicos do ocidente.
 
Jacobo Árbenz Guzmán, da Guatemala, foi defenestrado em 54, Perkins lembra. Nesse caso, a mídia (segundo ele, nesses países ela se encontra ‘no bolso’ das grandes corporações) funcionou, como ocorre com frequência, como mão longa dos interesses americanos vendendo a imagem de Árbenz como marionete dos soviéticos.
 
Nicarágua, Equador (tentativa de tirar Corrêa do governo), Bolívia. A Honduras de Zelaya. Cuba como bode expiatório. A tentativa de golpe em Chavez, em 2002, Perkins também registra no filme. E embora, diz ele, tenham tentado tirar Hussein do governo, matando-o, os EUA foram levados a usar forças militares e invadir o Iraque. Hussein trabalhara para a CIA e conhecia o suficiente como funcionavam o sistema e os métodos da agência. Foi duro na queda.
 
Perkins também se refere ao sentimento dos mentores e executivos do Banco Mundial se sentindo como que ‘agonizantes’ diante da criação do Banco dos BRICS. Fala do que chama de corporatocracia – uma economia de morte que estimula a desigualdade e destroça países não alinhados aos interesses do império.
 
Enfim: é impossível assistir a este documentário sem refletir com cuidado sobre o que ocorre no Brasil, neste momento em que nossa economia está destroçada. Privatização da energia, fatiamento da Petrobrás. Plantio do que for de interesse imediato de indústrias transnacionais de alimentação. Desapropriação de extensas áreas resguardadas até então, da Amazênia. Anúncio da privatização de Angra Três. Alcântara vendida. A abertura de áreas estratégicas para mineração. Venda indiscriminada de terras a estrangeiros. Travar a atuação do BNDES no financiamento de pequenas e médias empresas. Assassinar a indústria nacional. Mudança de legislação e desregular esses e outros temas. Vender nossa água - ‘’a água é o próximo petróleo’’, comenta Perkins em Assassinos econômicos.
 
Pense. Reflita: teoria de conspiração?
 
No doc de Peter Joseph, Perkins nos oferece uma pista quando garante: “Existem dois modos de escravizar e subjugar uma nação. Pela força e pelas suas dívidas.”
 
Nós, do nosso lado, lembramos Simone de Beauvoir, com sua extraordinária lucidez: “O opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os oprimidos.”
 
 
*Jornalista
     
      ** Significa O espírito da época
    
     *** Edição brasileira esgotada





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