Cinema

A-I5, o filme: ver para não esquecer e não se repetir

Produzido em 2001, o documentário 'AI-5, o dia que não existiu' narra a pouco conhecida última sessão da Câmara dos Deputados, em 13 de setembro de 1968, antes de os militares da ditadura civil-militar fecharem o Congresso

07/11/2019 10:25

 

 
Com grande audiência nestes últimos dias - mais de 150 mil visualizações até este momento -, está sendo divulgado no streaming (youtube) o documentário AI-5 – o dia que não existiu, de 57 minutos, do jornalista paulista Paulo Markun, no qual ele reproduz, reencenando algumas delas, diversas sequências até hoje pouco conhecidas da última sessão da Câmara dos Deputados antes da promulgação do Ato Institucional número 5.

O boom de visualizações de um documentário sobre o assunto agora revistado por uns, ou visto pela primeira vez por outros, é uma das formas de protestar e denunciar o despropósito e a insensatez do deputado Eduardo Bolsonaro, semana passada, quando em mais um misto de ignorância inaceitável em um personagem público do qual se exige um mínimo de responsabilidade, e, sobretudo, de seriedade, ameaçou a população com um novo AI-5!

Nessa sua fala, algarvia rasa, frívola, de palavras e idéias desconectadas, o deputado Bolsonaro, eleito não se sabe ainda com clareza se com o favorecimento de fake news (ou não), mostra não ter assimilado ainda, com é do seu feitio, que os anos 60/70 acabaram.

E que uma derrapada neofascista em direção a uma ainda maior insegurança democrática pode vir a provocar um terremoto econômico no atual governo de um país prostituído e à venda na bacia das almas.

A prova: o vexame e o fracasso do leilão do pré-sal, e a consequente insegurança jurídica que assusta e afasta investidores de grande porte.

As imagens reproduzidas no filme de Paulo Markun se misturam a algumas cenas de preciosas entrevistas de líderes políticos da época realizadas bem mais tarde, em 2 000, e a outras imagens de arquivo ciosamente guardadas pelas funcionárias do serviço de arquivo da Câmara, Gracinda Vasconcellos e Ana Lucia Brandão.

No filme, se seguem depoimentos do historiador Boris Fausto, do ex-ministro Jarbas Passarinho, de Mario Covas, do jovem Vladimir Carvalho, deputada Julia Steinbruck e do próprio deputado Moreira Alves entre outros.

Imagens que estiveram a pique de desaparecer. A ata da histórica sessão legislativa jamais foi publicada pelo Diário Oficial e até a virada do século 20 poucos – ou ninguém – sabiam da existência do material.

As imagens históricas rememoram vários discursos de deputados do MDB e também de líderes apoiadores do governo da ditadura civil-militar, do partido da Arena, justificando seus votos contra a cassação do deputado Marcio Moreira Alves, e negando a licença para fazê-la a pedido do Supremo Tribunal de Justiça. Noventa e seis por cento dos deputados rejeitaram a cassação.

Foi o estopim e a falsa justificativa para a edição do famigerado Ato Institucional número 5 promulgado pelo ministro da Justiça da época, Luis Antonio da Gama e Silva, no Palácio das Laranjeiras, no Rio de Janeiro, horas depois de terminada a sessão da Câmara, em Brasília. Às 22 horas de 13 de dezembro de 1968 ele presidia a reunião do Conselho de Segurança.

Sobre AI-5 – o dia que não existiu, Markun, que foi finalista do premio Jabuti duas vezes e é um experiente jornalista vindo de diversas redações de jornais e de emissoras de TV, disse em entrevista ao Observatório da Imprensa: ‘’É a história do dia em que a Câmara dos Deputados negou a autorização para processar um deputado, Márcio Moreira Alves, e gerou, nesse processo, um enfrentamento com a ditadura que levou ao fechamento do Congresso e à edição do AI-5. ’’

O Congresso brasileiro foi fechado e só reabriu em 22 de outubro do ano seguinte. O balanço do período dos dez anos do AI-5, os créditos finais do documentário registram: além das torturas, mortes e prisões ilegais, foram 5 785 sanções políticas, 500 letras de músicas proibidas, 450 peças de teatro censuradas, 200 livros, 100 revistas, 500 filmes, muitos documentários e dezenas de telenovelas.

Mais de mil e setecentos trabalhadores foram demitidos por motivos políticos, mais de mil funcionários públicos foram aposentados, 1 062 cidadãos tiveram os direitos cassados, 750 militares foram reformados e 154 mil colocados na reserva.

Cento e vinte e sete brasileiros foram banidos e 565 mandatos cassados.

A reação atual, indignada, contra a advertência atrevida do deputado Bolsonaro foi tão imediata e vigorosa que até o general/ministro Augusto Heleno, do atual governo, recuou da sua própria fala, uma suíte sua que completou a ameaça do deputado do PSL por São Paulo. ‘’Resta saber como fazer (N.R. ‘este AI-5’) ”.

O general abdicou, aparentemente, do apoio ao deputado tagarela, e esta semana está tentando garantir: ‘’Este governo não tem vocação ditatorial, não tem este (sic) tipo de atitude. ’’

Para ele, são ‘’invenções da esquerda para assustar. ’’

É melhor mesmo que o general tenha razão nessa sua primeira pensata e jogue no lixo a segunda trovata, diriam os italianos.

Quanto ao deputado Eduardo, será para ele de bom augúrio assistir o AI-5, o dia que não existiu para entender que o tempo passou e o desastre, hoje, no caso de o pior ocorrer, será muito maior.

Assista o documentário completo:





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