Cinema

A bela partitura de "Diários de Motocicleta"

Delicada e intimista, a partitura adequa-se com perfeição às belas imagens do filme.

05/06/2007 00:00

 

Um dos fatores que mais chama a atenção durante a exibição de Diários de Motocicleta' é a sua trilha musical, composta pelo argentino Gustavo Santaolalla (de 'Amores Brutos e 21 Gramas). E não por ser grandiloqüente ou opulenta, mas sim por ser extremamente delicada e intimista adequando-se com perfeição às imagens captadas pelo diretor Walter Salles e pelo fotógrafo Eric Gautier.

Ao narrar a primeira aventura do jovem Ernesto Guevara, muito antes de transformar-se no mitológico Che, o cineasta optou sabiamente por uma aproximação sutil e humana. E isso está refletido na música de Santaolalla que, além de escrever a partitura, também tocou vários dos instrumentos acústicos utilizados nela - violão, guitarra, ronrocco, charango, caja, flautas, percussão, vibros e baixo.

A trilha musical de Diários de Motocicleta é dominada principalmente pelo violão de Santaolalla, o qual o músico utiliza para destacar sentimentos de isolamento ou de melancolia, em faixas como Lago Frias, Leaving Miramar, Jardín, La Morte De La Poderosa e Leyendo En El Hospital, ou para dar contraponto aos diversos tipos de instrumentos de percussão que ressaltarem o sabor ''latino'' do filme, em faixas como Apertura e La Partida.

O compositor utiliza a guitarra elétrica junto com a percussão na faixa La Salida de Lima, que pontua a seqüência em que Enersto e Alberto saem da capital peruana em direção ao leprosário numa balsa, passando através da música a crescente sensação de inquietação dos protagonistas que Salles busca mostrar neste ponto do filme.

Em momentos de tensão, Santaolalla prefere deixar a música baixa e indefinida usando para isso basicamente solos de percussão (Procéssion, Amazonas e El Cruce). Já em cenas de caráter intimista, predominam a performance de instrumentos de sopro criando uma textura etérea que busca apoio nas imagens invertendo a função da trilha sonora (Montaña, Círculo En El Rio e Partida Del Leprosario). O material temático e as diferentes instrumentações criadas pelo compositor são resolvidos com precisão e riqueza de detalhes em De Usuhaia a La Quiaca, a qual descreve de maneira tocante a cena que encerra o filme de Walter Salles.

O álbum com a trilha sonora de Diários de Motocicleta traz ainda a divertida canção Chipi Chipi de Gabriel Rodriguez, Que Rico El Mambo de Dámasco Pérez Prado e a sensível Al Outro Lado Del Rio composta especialmente para o filme por Jorge Drexler, que também é responsável pelos vocais e solos de violão.

Quem gostou do filme certamente vai apreciar também esse trabalho de muito bom gosto de Gustavo Santaolalla registrado em um CD que contém aproximadamente 38 minutos de música, mas que dá impressão de ser mais curto e deixa um gosto de ''quero mais'' no final - o que é sempre um grande elogio. E isso tanto é verdade que, depois de Diários de Motocicleta o músico argentino iniciou uma brilhante carreira no mundo das trilhas de cinema, tendo inclusive conquistado dois prêmios de "melhor trilha musical" da indústria de cinema estadunidense (o badalado Oscar) para os filmes Brouckback Mountain e Babel.


(*)André Lux, jornalista e crítico de cinema (http://tudo-em-cima.blogspot.com) nullnullnull



Conteúdo Relacionado