Cinema

A boa vontade do Peace Corps no sertão do Nordeste

'O documentário versa sobre uma das ações assistencialistas, de 'boa vontade', hoje quase esquecida, e produto de propaganda maciça da política externa do presidente dos EUA, John Kennedy, para diversos países incluindo o Brasil'

05/04/2018 06:52

 

 
Por Léa Maria Aarão Reis
 
A produção do primeiro filme longa metragem Em nome da América, do pesquisador fluminense e professor de cinema da Universidade Federal de Recife, Fernando Weller, informa que o documentário com roteiro e direção de sua autoria ‘’retrata os interesses dos Estados Unidos no golpe militar de 64. ’’ O documentário versa sobre uma das ações assistencialistas, de ‘’boa vontade’’ (de good will, como eram conhecidas na época), hoje quase esquecida, e produto de propaganda maciça da política externa do presidente dos EUA, John Kennedy, para diversos países incluindo o Brasil.
 
Ganhou o Prêmio Petrobrás de Cinema de Melhor Documentário na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo do ano passado e esta semana estreia em grande cadeia nacional, em cinemas do Acre ao Rio Grande do Sul. 
 
Segundo o governo americano de então, o Peace Corps ou Corpos da Paz, na América Latina, era uma ação de solidariedade na luta contra a fome e a pobreza do subdesenvolvimento. Na Suécia - no filme isto é comentado - o seu enfoque foi mais ‘’progressista’’; na Colômbia, agressivo.
 
O certo é que justamente naquele momento, a Casa-Grande brasileira e o governo dos EUA acreditavam, em pânico, que o Nordeste brasileiro poderia se tornar uma ‘’nova Cuba’’ com a atuação das Ligas Camponesas do deputado federal cassado, advogado, escritor e uma de suas lideranças mais efetivas e brilhantes, Francisco Julião. O clichê era esse.
 
Hoje o mantra mudou para ‘’nova Venezuela’’.
 
O governo de Kennedy precisava concomitante, projetar uma imagem mais simpática e menos arrogante de protagonista da Guerra Fria e necessitava cooptar corações e mentes de países vassalos. Ou aliados, na terminologia de tio Sam.
 
Centenas de universitários americanos que se esgueiravam da convocação para a guerra do Vietnã e outros tantos que acreditavam nas políticas de direitos humanos do seu país formaram fileiras como Voluntários da Paz e desembarcaram no Nordeste do Brasil neste cenário; apenas quatro meses depois de consumado o golpe civil militar de 01 de abril de 54 anos atrás.
 
O doc Peace Corps – o grupo era conhecido também como Voluntários da Paz - é resultado de uma minuciosa pesquisa de Fernando Weller, em Washington e – uma façanha – de pesquisas na bagunça dos arquivos brasileiros. É baseado no livro Em Nome da América de Cecília Toledo Azevedo.
Reúne imagens raras da atuação dos voluntários, registros históricos até aqui desconhecidos como documentos do Serviço Nacional de Informações, o SNI, revelando, entre outras alianças, a articulação entre setores da Igreja Católica e corporações norte-americanas.
E traz filmetes realizados pelos visitantes, preciosos documentos de época, e entrevistas feitas nos Estados Unidos durante dois anos com alguns dos ex-voluntários, hoje mulheres e homens idosos bonachões que rememoram sua experiência sertaneja, na juventude, com ternura e bom humor. Em especial a sua participação, no município de Bom Jardim, na Zona da Mata, no atendimento de saúde, educação e em técnicas modernizantes da agricultura.
Logo no início do filme, um deles, Bob Dean, canta ao violão, em português, Carolina, de Chico Buarque, com sincera afeição, e comenta, rindo: “Eu não tenho certeza, hoje, de que eles (NR: os sertanejos; os brasileiros) precisavam mais de nós do que nós  precisávamos deles; eles precisavam do governo’’.
Também no começo do doc, assistimos  o embaixador americano Lincoln Gordon, preposto do seu governo como um dos articuladores ativos do golpe de 01 de abril, declarando em entrevista, com a conhecida postura imperial, e acendendo o indefectível cachimbo: “A revolução (NR: leia-se, o golpe) evitou um desastre. Ela, em si não trouxe soluções. Os problemas que o governo herdou após a revolução (sic) são enormes.”
Weller ilumina, com placidez, questões desse período conturbado, de verdadeira ‘’ocupação’’ cultural norteamericana, como diz um ex-voluntário no filme. Jornalistas, intelectuais respeitados, artistas, lideranças políticas e econômicas e altos burocratas foram cooptados.
O diretor declara, em uma das inúmeras entrevistas que concedeu, ‘’explorar a presença ambígua dos americanos no Brasil sem julgar os personagens, mas situando suas ações em um contexto político maior, muito além das vontades individuais.’’ Trata-se de filme de historiador.
‘’Fomos atrás dessa geração de americanos que vieram ao Brasil e, paralelamente, tentamos desatar alguns nós obscuros sobre a presença americana que nos levaram à Igreja Católica, aos sindicatos e cooperativas rurais, ao governo militar e a agências americanas que, segundo alguns historiadores, eram fachada para a atuação da CIA na América Latina. O papel de setores da Igreja Católica e suas articulações políticas e financeiras com o governo americano, por exemplo, é um gancho levantado no filme que precisaria de outro filme para ser discutido em profundidade.’’


O episódio, no Brasil, dos rapazes e moças americanos dos Corpos da Paz, é praticamente desconhecido pelas novas gerações envolvidas hoje com políticas progressistas.
Este é o grande mérito do documentário Em Nome da América: mais que reviver para os mais velhos uma fase de subserviência ostensiva, escancarada, ele informa aos jovens a poderosa frente de propaganda que atuava no Brasil no fim da década de 50/ começo dos anos 60.
Identificando siglas e movimentos da época – entre outros, a Usaid, Usia, Aliança para o Progresso, Fundação Ford, Food for Peace e Partners in Progress (um grupo promotor de festinhas de dança, concertos de jazz americano em universidades e feiras) e, é claro, com a CIA operando a pleno vapor - o filme de Weller traz a lembrança da intensa atuação norte-americana no período.
“A cidade do Recife,’’ ele diz, ‘’ e poucos sabem, abrigava um dos maiores escritórios da Usaid (a agência americana de ajuda internacional) do mundo na época.’’
Investimentos? “Em Pernambuco, uma fábula,’’ declara em entrevista a Weller, um dos ex-diretores da organização, o já idoso professor Stephen Dachi. “Cinco anos depois, não havia traço da nossa presença por lá.’’
É também do professor Dachi a observação filosófica angular relacionada por ele ao episódio dos Voluntários da Paz no mundo: “Essas são as fases da vida de um indivíduo,” diz. ”Primeiro, ele é idealista. Mais tarde, mas ainda jovem, é pragmático. Em seguida, se transforma em realista e a partir dos 50/60 anos, cínico. Depois disso, fica amargo.”





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