Cinema

A boiada da Caixa Econômica passando

O recente filme de Maria Augusta Ramos, brilhante documentarista brasileira, é uma reflexão sobre a importante função dos bancos públicos

20/07/2020 13:32

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Créditos da foto: (Divulgação)

 

Dois anos depois de lançar O processo, documentário primoroso sobre o impedimento e golpe contra a presidente Dilma Rousseff, Maria Augusta Ramos apresenta Não toque no meu companheiro em várias plataformas de streaming*. O filme é despretensioso, de 73 minutos, sobre a histórica greve dos bancários da Caixa Econômica Federal há 30 anos, durante o governo de Fernando Collor. Ele chega num momento preciso, quando o atual governo, aproveitando-se da gigantesca crise sanitária e econômica provocada pela pandemia no Brasil, tenta ''passar a boiada'' nas barbas de uma população em silêncio, assustada e exaurida com cerca de 80 mil casos de morte pela covid-19 e com uma crise política que se perpetua e destrói com celeridade o processo de construção de soberania madura do país que vinha sendo articulado nas décadas recentes.



Privatiza-se a Caixa Econômica, disfarçadamente, como anota a Fenae (Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa Econômica Federal) enquanto a Petrobrás é esquartejada com o mesmo objetivo. Uma venda de ativo público estratégico que, evidentemente, já naquela época/Collor se constituía num projeto - e isso é discutido no filme.

"É o tipo da doutrina de choque", comenta a cineasta Maria Augusta. "Quando a sociedade está completamente paralisada, vivendo em luto, 'passar a boiada'. Guedes está tentando fazer isso. Mas temos a possibilidade de exibir o filme nas plataformas digitais e promover debates em lives".

A propósito, o deputado petista Enio Verri lembra que '' vender setores da Caixa em um momento como esse significa vender por preço muito barato porque o mercado não é (o real) comprador. O comprador possivelmente deve ser algum amigo do ministro (da Economia) Paulo Guedes ou seus próximos, todos especuladores do mercado financeiro. É um crime lesa pátria que tem que ser denunciado".

 
A greve de 91 narrada no doc de Maria Augusta foi especial. Contou com um viés de rara solidariedade dos 35 mil bancários da estatal direcionada aos 110 funcionários demitidos injustamente evitando que eles passassem necessidades básicas durante o ano em que estiveram desempregados; um período em que continuaram lutando, junto com os colegas, contra a ameaça de privatização.

Cada um deles autorizou o desconto de 0,30% do salário para remunerar os companheiros demitidos enquanto correu, na Justiça, a ação de sua reintegração, que acabou vitoriosa.

Embora o tema seja específico e árduo, o filme seduz e atrai. Não há narração em off, que é uma das marcas da documentarista (a outra é não usar trilha musical em seus trabalhos, exceto aqui algumas notas das Variações Goldberg, já com os créditos finais caindo), mas um roteiro impecável, austero, sem adjetivos e uma edição que injeta emoção nesse mergulho concentrado na realidade, característica do cinema direto.

Há reuniões de grupos de funcionários da Caixa rememorando (com filmes da época) o movimento grevista do qual participaram e outras conversas com colegas mais jovens. Discute-se o estrangulamento de direitos trabalhistas, a uberização do mercado de trabalho e o improvável financiamento por parte da iniciativa privada a quem não tem recursos. Discute-se a representatividade dos sindicatos e a previdência capitalizada, outra boiada que o atual governo quer fazer passar.

Há registros de Collor presidente eleito por um poder ''divino'', como observa em palestra a professora Marilena Chaui numa sequência memorável; Collor, o ''portador da modernidade, símbolo da nação moderna'' como observa a filósofa; e o momento da sua deposição oficial, em 92.


Há paralelismo com o atual presidente da República reinterpretando a farsa atualizada pelo avanço do tempo e dos costumes de um personagem salvador '' que vem do alto'' para salvar um país ''à beira do abismo'' (do socialismo).

''O poder vem do alto e garante o poder despótico,'' diz Chaui na sua intervenção no filme que tem também comentários de Luiz Gonzaga Beluzzo e trecho da fala de Julieta Abraão, líder da União Nacional por Moradia Popular.

Não Toque em Meu Companheiro foi realizado em seis meses. É uma co-produção da Nofoco Filmes e da Federação Nacional das Associações de Empregados da Caixa (Fenae). O roteiro foi sendo elaborado no processo de edição, como costuma trabalhar a diretora, e o rigor cinematográfico e a concisão, mostrados no seu O processo, continuam brilhando neste trabalho sobre o qual ela comenta: "Não consigo pensar o Brasil sem a Caixa Econômica".

O filme, imperdível, é mais uma reflexão necessária sobre a função dos bancos públicos e a resistência à perda de direitos dos trabalhadores organizados pelos sindicatos.

**Disponível no Now, Vivo Play e Looke.





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