Cinema

A caça ao bode expiatório

Que lógica obscura atua sobre a massa e faz com que cidadãos individualmente pacíficos e ordeiros se transformem em artífices da guerra civil quando arregimentados pelo exército espontâneo da vingança? Eis uma das perguntas a que os espectadores do filme dinamarquês 'A caça' (2012), dirigido por Thomas Vinterberg, são expostos. Por Flávio Ricardo Vassoler

10/06/2013 00:00

 

Tarde pacífica de domingo. A molecada joga bola na rua, pipas fazem acrobacias e suas cores se fundem ao azul límpido de um céu sem nuvens. Súbito, o caos rasga a calmaria. Um carro irrompe pelas ruas do bairro a uma velocidade bem mais do que temerária. Os futebolistas pré-mirins conseguem driblar o automóvel doloso, à exceção de Ronaldinho, o goleiro, que não consegue evitar o atropelamento. Gritos e mais gritos, há quem diga que o motorista, quiçá embriagado, tentou fugir. “Assassino, assassino!” Os brutamontes da rua o arrancam do carro, a vizinhança outrora acolhedora distribui socos, pontapés, cuspes e mordidas. Não fosse a chegada inusitada dos policiais, Ricardo, 21 anos, estudante de Direito, teria sido linchado. Os policiais mal conseguem resguardá-lo na viatura, a multidão taliônica quer vingança. “Lincha! Lincha!” Agora são os soldados da PM que estão em apuros, os moradores querem tombar a viatura, é preciso chamar reforços. Chegam mais policiais. Para dispersar a horda, o capitão Roberto Nascimento atira contra o mesmo céu azul que há pouco abrigava as pipas lúdicas. A multidão se dispersa, mas o cotidiano acaba de desvelar o caos sob a máscara de civilidade. É bem verdade que Ricardo cometeu um crime. Se doloso ou culposo, o devido processo legal deverá determinar. Mas de onde vem o ódio que transforma donas-de-casa, adolescentes e aposentados em cossacos sanguinários? Será mesmo verdade que o caos não se deixa quantificar e compreender? Que lógica obscura atua sobre a massa e faz com que cidadãos individualmente pacíficos e ordeiros se transformem em artífices da guerra civil quando arregimentados pelo exército espontâneo da vingança?

Eis as perguntas a que os espectadores do filme dinamarquês A caça (2012), dirigido por Thomas Vinterberg, são expostos. Lucas, um professor de jardim de infância em uma pacata cidadezinha escandinava, brinca com as crianças a não mais poder. Se Nietzsche assistisse à cena, reeditaria seu belo aforismo lúdico. “Maturidade do adulto: recuperar a seriedade da criança ao brincar”. O tio Lucas chega até mesmo a limpar o bumbum de um aluninho algo incontinente. “Você tá comendo doce escondido da tua mãe, né?” Todos o veneram. Lucas, que tem o nome de um dos evangelistas, até então faz coro à pregação de Jesus Cristo. “Trouxeram-lhe também criancinhas, para que ele as tocasse. Vendo isso, os discípulos as repreendiam. Jesus, porém, chamou-as e disse: ‘Deixai vir a mim as criancinhas e não as impeçais, porque o Reino de Deus é daqueles que se parecem com elas. Em verdade vos declaro: quem não receber o Reino de Deus como uma criancinha, nele não entrará’”. (Lucas 18, 15-17)
Tudo corria bem no jardim do Éden, até que uma aluninha se apaixona pelo tio Lucas. O professor esbelto, melhor amigo do pai de Klara, a leva para a escola todos os dias. Klara, cuja face obscura logo virá à tona, é mimada a não mais poder. Ela mal sabe o que é um “pipi”, mas o irmão adolescente faz a traquinagem de lhe mostrar algumas fotos. Se Klara beija o papai e a mamãe na boca, por que não pode fazer o mesmo com o tio Lucas? E assim acontece. Até que o professor, ciente da paixonite pré-mirim, ensina para Klara que é preciso separar o joio do trigo. “Klara, você não pode me dar esse tipo de beijo. Isso é só para as pessoas da sua família, as pessoas mais próximas. Eu sou seu professor, não sou seu papai”. Talvez seja possível dizer que, nos 5 aninhos de Klara, aquela tenha sido a primeira grande frustração de seus desejos. A loirinha postulante ao trono da Barbie possivelmente era atendida em tudo o que queria. Mas Lucas desempenha o papel fundamental de mostrar para Klara que viver também implica se frustrar.

Tudo corria bem em Utópolis, até que algo de errado desponta no Reino da Dinamarca. Klara diz para a coordenadora pedagógica que Lucas lhe mostrara “o pipi duro”. (O mesmo “pipi duro” que Klara vira na foto mostrada pelo irmão traquinas.) Pronto, está plantada a semente da discórdia que dará vazão à caça de Lucas. A escalada de violência contra o suposto pedófilo se reproduz como que a nos trazer suspeitas de que o ódio se esgueirava pela cordialidade das máscaras. Todos os que davam as mãos a Lucas agora lhe oferecem os punhos cerrados. Lucas não pode ir ao jardim de infância, o supermercado lhe nega as compras, sua casa é apedrejada, a namorada tende a achar que a massa tem razão, que a virilidade de Lucas é pervertida. O professor aprende o Sermão da Estepe que o Evangelho segundo Talião há muito vem pregando à humanidade: os homens não buscam apenas alguém diante de quem se inclinar; é preciso haver alguém a quem culpar. Eis a parábola do bode expiatório.

Em 1933, o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, encabeçado por Adolf Schicklgruber, também conhecido como Adolf Hitler, chegou ao poder. Os socialistas embasbacados não conseguiam entender como o partido da reação pudera arregimentar o apoio maciço dos trabalhadores. O iluminismo socialista parte do pressuposto de que a consciência de classe sempre realiza um cálculo utilitário que discerne claramente os interesses de determinado grupo ou partido. Mas contra a liberdade, a igualdade e a fraternidade propugnadas pelas revoluções francesa e russa há milênios de hierarquia patriarcal. Em Mein Kampf (Minha Luta), Hitler bem soube sintetizar o ímpeto arrivista da massa. “Se não houvesse o judeu, teria sido preciso inventá-lo”.

Para aqueles que estão acostumados a viver segundo a lógica da distinção via de regra assimétrica; para aqueles que estão acostumados a se ajoelhar na oficina, na igreja e na escola; para aqueles que veem no Führer a extensão do pater familias e de Deus Pai, é preciso que a lei sagrada seja respeitada por séculos e séculos, amém. O transgressor, nesse sentido, afronta os valores da comunidade. O transgressor, o diferente, deve ser punido de forma exemplar. Quem fere os dez mandamentos deve ser apedrejado. A mesma comunidade escandinava que ora a Jesus se esquece de uma passagem espinhosa de Cristo – passagem deveras espinhosa para aqueles que querem esquecer o oferecimento da outra face. Os fariseus levam a Cristo uma adúltera. Segundo a lei consuetudinária, a mulher deve ser apedrejada fora dos muros da cidade. Se Jesus corroborasse tal lei, obedeceria à tradição, mas renegaria o Sermão da Montanha e a lógica da compaixão. Se, por outro lado, Cristo abraçasse a adúltera, a lei de Moisés seria enxovalhada. Que fazer? Eis uma dicotomia inelutável entre a justiça e o amor, a clava e o perdão. Que fazer? “Jesus se inclinou para a frente e escrevia com o dedo na terra. Como todos insistissem, ergueu-se e disse-lhes: ‘Quem de vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra’. Inclinando-se novamente, escrevia na terra. A essas palavras, sentindo-se acusados pela sua própria consciência, eles se foram retirando um por um, até o último, a começar pelos mais idosos”. (João, 8, 6-9)

Durante a caça de Lucas, uma máxima é lançada como que a sentenciar que a natureza humana é inequivocamente torpe. “Há muita maldade pelo mundo”. Não é possível sentenciar de modo cabal que a pequena Klara tenha sido maquiavélica a ponto de projetar uma tragédia para o professor que lhe trouxe um primeiro aprendizado da frustração. Mas o reacionarismo bem sabe articular o ódio historicamente disperso para transformá-lo em um aríete que colida contra a evolução da humanidade. O mal-estar na civilização irrompe sempre que a massa sente que os dogmas que respeita às cegas foram minimamente tensionados. O mero boato tem o peso de uma sentença. A pena capital. A mesma massa à qual o iluminismo socialista atribuiu consciência revolucionária. Pois o diretor Thomas Vinterberg bem soube narrar que a revolução pode continuar a se confundir com a reação enquanto a retaliação e o ódio forem o subsolo da justiça. 11º Mandamento: Obedecerás. 12º Mandamento: Retaliarás. Nem por um único dia o perdão pôde narrar sequer uma página da História como um todo. A caça ao bode expiatório nos faz pensar sobre os obstáculos encarniçados para a humanização da humanidade. Enquanto Talião e seu evangelho forem nossa segunda natureza historicamente reproduzida, o perdão será relegado ao Sermão da Montanha e não descerá à estepe árida e enregelada de nosso cotidiano.

*Flávio Ricardo Vassoler é escritor e professor universitário. Mestre e doutorando em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, é autor de O Evangelho segundo Talião (Editora nVersos) e organizador de Dostoiévski e Bergman: o niilismo da modernidade (Editora Intermeios). Periodicamente, atualiza o Subsolo das Memórias, www.subsolodasmemorias.blogspot.com, página em que posta fragmentos de seus textos literários e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.



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