Cinema

A casa vazia

Com memorável trabalho de Anthony Hopkins o filme britânico 'Meu pai' é um dos grandes candidatos ao Oscar com seis indicações e estréia em plataformas de streaming

04/04/2021 12:25

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Créditos da foto: (Divulgação)

 
The father passará à história do cinema como uma pequena jóia. É um filme curto, extraordinário, de 97 minutos, do autor da peça teatral, Florian Zeller, com roteiro em colaboração do britânico Christopher Hampton. O jovem escritor e dramaturgo francês encontrou inspiração para encenar a história no próprio ator Anthony Hopkins. Relatou no palco e agora na tela os anos finais do seu personagem, o velho pai da personagem Anne, que aos 81 anos, cambaleando entre a racionalidade e a fantasia antes de cair no vazio da demência senil não está mais apto a viver sozinho.

Meu pai - um título mais comercial encontrado para o português, mas que não oferece a mesma a carga dramática do original - estréia no próximo dia 9 deste mês nas plataformas digitais Now, Itunes (Apple TV) e Google Play e é um dos grandes cartazes disputando o Oscar deste ano com seis indicações. Melhor ator, melhor filme, atriz coadjuvante (a excepcional Olívia Colman, e sem falar de Hopkins, como sempre brilhante), montagem precisa, a fascinante direção de arte e o roteiro adaptado.

O tour de force de interpretação de Hopkins, Colman, Mark Gatiss, Imogen Poots, Rufus Sewell e Olivia Williams, admiráveis atores vindos da poderosa tradição teatral inglesa, é resultado da marcação meticulosa do diretor ao narrar a situação delicada de um velho engenheiro aposentado e bem sucedido, que mora sozinho (sózinho?) no seu apartamento em Londres. Ele começa a se insurgir contra a antiga cuidadora que há tempos o acompanha e com seu comportamento passa a indicar para a filha Anne que não pode mais morar sozinho, com segurança, sem uma assistência permanente. Apresenta dificuldades em se manter na linha da realidade.



A memória imediata falha cada vez mais e o velho pai está mergulhando na confusão mental entre fantasia, delírio, fatos concretos, retorno a lembranças originais e na paranóia acompanhada de agressão e irritabilidade. A necessidade de levar o pai a viver numa instituição para idosos passa a ser uma possibilidade imediata quando Anne decide mudar para Paris e deixar de estar com o pai diariamente.

No início do filme há a sensação de estar diante de uma obra de teatro filmado como tão bem os ingleses sabem produzir. Logo a impressão se desvanece com o talento de roteirista de Hampton, que no passado adaptou para a tela a festejada versão cinematogáfica dirigida por Stephen Frears de Ligações Perigosas, de Choderlos de Laclos, e agora colaborou para transformar a peça de Zeller, seu amigo, em fino produto de cinema.

Presente, o humor britânico rascante, como na conversa da filha com o pai anunciando que precisa mudar para Paris onde vai viver com o novo marido, e em duas ocasiões ele protesta ''... mas em Paris não sabem falar inglês!'' Presente também a frieza das relações familiares saxônicas, aqui com a afeição, a generosidade e o acolhimento firmes da filha que afinal nunca foi a preferida do pai - ao contrário; sempre foi preterida pela talentosa irmã caçula.

Mas um dos aspectos mais admiráveis nessa sonata que vai levando os personagens embalados pelo belo som do piano de Ludovico Einaudi a se reposicionarem diante da decomposição mental do velho Anthony - fora, repetimos, a precisão do trabalho do pequeno elenco e a segurança da montagem cirúrgica - é a direção de arte desse filme.

Os ambientes dos apartamentos (ou será um único apartamento?) onde mora Anthony como que sublinham a casa vazia em que vai se transformando seu cérebro, seu coração e sua alma. E é exato o quase lusco-fusco da iluminação que remete a sombras cinza azuladas - não depressivas, mas simplesmente tristes - que vão pousando sobre até as mínimas e cotidianas operações mentais do protagonista.

O pequeno quadro da sequência final de The father vale o belo filme. Um Anthony lamentando um pouco a possibilidade de não estar podendo recolher as folhas caindo das árvores que eram da sua infância, lá fora, na praça, e a enfermeira/médica (atriz Olivia Williams, de precisão notável entre o profissionalismo e a delicadeza de uma pietá) embalando e consolando a criatura humana - afinal, apenas uma criança que sofre.

Um filme necessário.





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