Cinema

A cordilheira isola mas protege

Depois de celebrar a luz no deserto do Atacama e ir ao fundo das águas na Patagônia, o chileno Patrício Guzmán encerra uma trilogia de documentários políticos com 'A cordilheira dos sonhos'

27/09/2020 13:24

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Créditos da foto: (Divulgação)

 
Há dez anos o extraordinário documentário do cineasta chileno Patrício Guzmán, Nostalgia da luz, era premiado no Festival de Cannes e causava grande comoção. Saudado como a grande novidade cinematográfica da época, ele apresenta mulheres da geração que chegara aos setenta, oitenta anos de idade - '' a lepra do Chile”, como elas se definem -, sozinhas, sem qualquer ajuda do governo ou da sociedade, numa permanente busca no deserto do Atacama à procura dos restos dos cadáveres de parentes assassinados e lá jogados durante o sinistro período Pinochet.

 “Elas denunciam um país que os outros indivíduos desejam esquecer”, obervou Guzmán, cinco anos depois da sua obra prima receber o premio de Cannes, numa entrevista à jornalista Leneide Duarte, sua amiga, no blog Bilhetes de Paris.

A ele seguiu um outro tocante documentário, El botón de nácar, (O botão de pérola), Urso de Prata de Melhor Roteiro do Festival de Cinema de Berlim de 2016, de triste e trágica beleza. Para fazê-lo, Guzmán se deslocou para o sul, para as águas que banham a Patagônia e levantou um véu de silêncio que caiu, durante mais de século, sobre o massacre dos índios kawéskar, um dos quatro grupos de indígenas da região. Apenas 19 dos kaweskar sobreviveram.

“Os chilenos eram silenciosos sobre esse episódio,'' comenta Guzmán, até romperem o silêncio quando Allende devolveu as terras usurpadas dos indígenas aos sobreviventes.

Contraponto à história do massacre dos kawéskar, esse doc também revela o trágico episódio dos corpos de dissidentes do regime Pinochet, esquartejados, degolados ou estuprados, queimados com ácidos ou drogados, e atirados ao mar de aeronaves.

Agora, o mais recente filme de Guzmán encerra a trilogia das reminiscências da ditadura dos generais chilenos com A cordilheira dos sonhos. O filme foi premiado novamente em Cannes, em 2019, estreou há um ano em Paris com grande repercussão e na semana passada abriu o Festival É tudo Verdade, de São Paulo, mas com apenas duas sessões on line. É um canto de amor à cidade de Santiago do Chile, na qual nasceu o diretor, exilado em Paris desde 1973 e onde vive desde então.

Se nos filmes anteriores ele tratou do papel histórico do deserto do norte do seu país e em seguida dos acontecimentos trágicos nas águas do extremo sul, neste trabalho mais recente ele se concentra na majestosa cordilheira dos Andes.

''A cordilheira que isola e protege ao mesmo tempo'', ele diz.

Assim como os dois primeiros, o filme é um poema, uma coprodução Chile/França e a produtora executiva é a psicanalista Renate Sachse, mulher do diretor. Narrado mais uma vez por ele mesmo, nesse de agora há traços da sua história pessoal. Lembranças de infância, uma bela sequência do casarão onde viveu com a família, ainda menino, em Santiago. Hoje a construção é uma fachada abandonada de um espaço destruído. Registro em imagens admiráveis.

''Eu lembro do país de minha infância, o país de minha origem. Lembro de um país onde me sentia em casa, com meus amigos e minha família'', narra o diretor, contando também sobre os tempos imediatos após o golpe, quando sentia um grande medo de sair à rua. Acabou sendo preso e chegou a ser levado para o hoje Estádio Victor Jarra onde o cantor e compositor chileno foi martirizado e assassinado.

''Tudo me parece irreal em Santiago, onde eu nasci; uma cidade que me recebe com indiferença'', ele continua na sua narração.

 A cordilheira dos sonhos conta com um prólogo magnífico, especiais imagens aéreas do poderoso cenário dos Andes. Atravessá-los é experiência inesquecível para os que sobrevoam a cadeia de montanhas, durante horas, em manhã de céu azul antes de chegar a Santiago, ao litoral e ao oceano.

Na câmera de Guzmán, primeiro as nuvens se esgarçam devagar. São véus descortinando aos poucos vales, vulcões, despenhadeiros, os eternos picos nevados a perder de vista e apresenta o tema do filme.

Uma sequência de fusões extraordinárias se amoldam a um grande painel da cordilheira pintado num muro do metrô da capital, obra do amigo Guillermo Muñoz, ele também chileno e exilado na Espanha. '' Sonhamos com o Chile de longe, '' diz Muñoz, '' e a cordilheira é a metáfora desse sonho.''

Na segunda parte do filme, o uso de imagens de arquivo, protestos das ruas, gente. A natureza e o homem. '' Ambos estão frente a frente e estão muito próximos - uma e o outro, '' observou Guzmán numa entrevista concedida em Paris.

'' Em Santiago não podemos deixar de ver a cordilheira. É uma parede enorme. Ela está lá sempre a olhar para nós. Há uma relação entre a montanha e as pessoas. E por causa da sua presença maciça há uma certa depressão no Chile, uma depressão mental que se deve à montanha. Ela é demasiado grande. Impõe-se.''

Quando esse belo documentário será exibido no Brasil? Pena ter sido mostrado de relance e de modo precário numa plataforma on line. O tríptico por ele concluído, assim como a primeira trilogia política cinematográfica de Patrício Guzmán, - Batalha do Chile (1974/1979), considerado pela critica francesa um dos dez mais importantes docs políticos já realizados, mais O Caso Pinochet (2001) e Salvador Allende, de 2004 - merecem uma programação urgente, especial. São documentários que valem ver e rever.




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