Cinema

A desumanidade em família

A família pode ser um ofidiário? O clássico filme de Mario Monicelli, 'Parente Serpente', diz que sim. A comédia de humor negro e obra prima italiana irresistível pode ser vista e revista no cinema em casa

06/07/2018 09:06

 

 

O convívio entre indivíduos da mesma célula familiar pode ser agradável e até gratificante. Trata-se do mesmo sangue, de certa intimidade necessária e bem vinda entre humanos; trata-se de reconhecimento de identidade, de amizade – compulsória ou não - e de apoio irrestrito. Ingredientes sob medida para serem capturados pelas direitas fascistas, como o foram, que proclamam - Deus, pátria e família. Pilares de uma sociedade feliz segundo seu evangelho rançoso.

No cinema, se a grande maioria dos filmes celebra e exalta virtudes e delícias do paraíso da vida em família, um cineasta italiano emblemático, o finado Mario Monicelli não pensa assim.



Parente Serpente*
é uma demolidora comédia negra do diretor e roteirista, e às vezes ator, um dos grandes pais do vigoroso cinema neorrealista italiano do pós-guerra. Sobre a família e a velhice, é um clássico a ser revisto sempre que for possível.

No riso acre/doce que provoca durante seus cem minutos de aula cinematográfica, ali estão inteligência e brilho dos diálogos cortantes, o humor agudo que não perdoa a crítica e a caricatura de um mundo, já naquele começo dos anos 90, rendido aos valores galopantes do capitalismo, da intolerância e egoísmo da burguesia multifacetada, no filme, em funcionários públicos, profissionais liberais e católicos racistas.

É a época em que os bem-pensantes diziam (como se vê na produção): “Esses comunistas todos deviam ser mandados para a Rússia ou para a Albânia!”

(Cuba já estava fora de moda.)

E sugeriam contratar uma acompanhante para os velhos pais, ‘’uma dessas polonesas aí, uma albanesa, ora. ’’

Parenti serpenti
, de 1992, está novo em folha. Fala de solidão, de velhice, do homossexualismo, ressentimentos e segredos bem guardados e das relações familiares expostas na sua forma mais crua – mas não tão rara –, na hora da verdade de um fim de ano da família Colapietro.

Os Colapietro são acompanhados pelo espectador desde a véspera do almoço de Natal na casa dos velhos pais, com direito à encenação majestosa de uma missa do galo, na igreja, com muita ‘’mea culpa, mea culpa’’, até a última noite daquele ano em uma boate.

Na casa paterna onde pontifica uma mama italiana demasiadamente espaçosa ao lado de um pai esclerosado, porém os dois, alegres e divertidos, há risos, gritinhos, lembranças em comum, histórias picantes e fofocas para trocar.

As mulheres preparam as delícias da mesa, os homens jogam baralho e assistem televisão, as crianças implicam entre si. À noite, todos vão à missa. No dia seguinte, o grande almoço, a mais aguardada comemoração do ano. É quando a matriarca anuncia, candidamente, que ela e o marido estão demasiadamente velhos e não podem continuar vivendo sozinhos. Decidiram mudar para morar com um dos filhos - ou filhas. Eles e elas devem escolher com qual os dois idosos devem morar dali para frente.

A notícia cai como bomba atômica sobre o grande banquete, sobre a pasta e o peru. Apesar das juras e declarações de amor filiais permanentes, ninguém quer ficar com os velhos e a festa se transforma numa batalha entre irmãos e seus consortes, todos ansiosos para se livrarem da penosa missão. Uma cunhada resume a situação avisando o marido sobre uma hipotética chegada da sogra: “Se ela entrar por uma porta da minha casa eu saio pela outra. ’’

As sequências do empurra-empurra dos irmãos são antológicas. Os atores, magníficos.

Eu cuido deles há 20 anos; não é justo agora ter que recebê-los!’’’, diz uma filha. ‘’Por isto você é culpada; porque os mimou demais, ’’ dizem os irmãos. Outro irmão a uma irmã: ”A sua casa é a mais adequada; tem 180 metros quadrados fora o terraço!”

‘’Você, solteiro, é o mais indicado!” “Não posso; não vivo sozinho.’’ ‘’Mas nós nunca soubemos disto. E quem é a mulher?” ‘’Chama-se Mario’’, responde
, e sai do armário com alívio.

O roteiro de Suso D’Amico, outro dos grandes mestres do cinema neorrealista italiano e coautor, com Monicelli, deste filme, coloca o garoto da família como narrador da história. Ele observa a tudo e tudo vê e ouve.

A saída final e inesperada de Parenti Serpenti se faz através da metáfora: é preciso destruir aquele mundo  que já no começo da década dos 90 era ‘’tumultuado e maluco’’, como diz um personagem, para que surja outro. Surgiu. Novo. Desumano.



Monicelli tinha 77 anos quando filmou mais esta sua obra prima. Depois, dirigiu ainda nada mais nada menos que onze outros, até 2006. Foi ligado a vida inteira ao partido Socialista Italiano.

Seu filme I Compagni (Os Companheiros), um manual obrigatório para trabalhadores de todas as partes, teve grande impacto no Brasil nos anos 60. Foi censurado no Brasil da ditadura civil-militar de 64, é claro.

Monicelli morreu em uma manhã de 29 de novembro de 2010. Saltou pela janela do quarto onde estava internado por causa de um câncer terminal, no vetusto Hospital San Giovanni, de Roma. Tinha 95 anos de idade.

É irresistível lembrar que o nome do melancólico ex-presidente da Petrobrás que perpetrou tantos crimes contra o povo brasileiro em tão pouco tempo, faz lembrar o título desta obra prima italiana. É uma coincidência que reafirma: Parente é uma serpente.

*O filme Parente Serpente em versão completa e dublada está no youtube.

Conteúdo Relacionado