Cinema

A diplomacia das sombras na guerra do Vietnã

Em documentário de TV, vários filmes de época, entrevistas e gravações inéditas mostram os dois anos de encontros secretos entre Le Duc Tho, representante de Ho Chi Minh e Harry Kissinger, tentando assinar a paz dos Acordos de Paris

15/05/2018 17:14

Henry Kissinger aperta a mão de Le Duc Tho, líder da delegação do Vietnã do Norte, após a assinatura dos Acordos de Paz de Paris em 23 de janeiro de 1973

Créditos da foto: Henry Kissinger aperta a mão de Le Duc Tho, líder da delegação do Vietnã do Norte, após a assinatura dos Acordos de Paz de Paris em 23 de janeiro de 1973

Por Léa Maria Aarão Reis
 
Somos uma só nação e um só povo, martelava sem cessar o chefe da delegação do Vietnã do Norte, o legendário Le Duc Tho, membro do Politburo do governo de Hanói. Foram 72 encontros secretos, durante três anos, mantidos por ele com o representante do governo de Richard Nixon, Harry Kissinger e o seu grupo, em uma casa discreta com cortinas arriadas, na Rue Darthé, número 11, na cidadezinha de Choisy-le-Roi distante meia hora de carro de Paris. “Nossa guerra é de libertação e não seremos subjugados pelo medo’’, alertava Le Duc ao americano, em 1968.
 
Esses encontros – o primeiro deles durou mais de seis horas - passaram para a História como os Acordos de Paris que, enfim, em 1973, lograram suspender definitivamente os bombardeios sistemáticos dos aviões B-52 americanos. Durante dez anos foram mortos milhões de civis vietnamitas, na mais longa guerra química que o mundo já viu - a guerra do Vietnã.
 
Agora, meio século depois de 1968/1970, o programa de TV de uma hora de duração produzido em 2014 e intitulado Vietnã - negociações secretas*, dirigido pelo francês Daniel Roussell, exibe os encontros entre Le Duc e Kissinger com entrevistas de ambos, desenhos e depoimentos de alguns dos negociadores, e apresenta gravações inéditas de diálogos desse confronto da chamada diplomacia das sombras.
 
Le Duc ecoava a frase histórica do presidente Ho Chi Minh (morto em 1969) e insistia: os problemas do Vietnã seriam resolvidos pelos próprios vietnamitas e não por soldados estrangeiros.  
 
Nas exaustivas e penosas reuniões sigilosas em que os dois, Le Duc e Kissinger se confrontaram, os objetivos dos americanos eram óbvios. Encerrar a guerra que se transformara num atoleiro para os Estados Unidos visto a inabalável resistência do exército do Vietnã do Norte, dos vietcongs e da população em geral, e salvar a sua imagem e sua honra diante do mundo - porém deixando os vietnamitas divididos, exauridos e fracos, e mantendo o controle do governo de Nguyen Van Thieu em Saigon.
 
Nixon insistia em manter no Vietnã do Sul uma liderança política e ali conservar a maior força militar americana do sudeste asiático para evitar o contágio do comunismo chinês de Mao Tse Tung na região.
 
Para manter palatável sua política interna, Nixon e Kissinger desejavam atender a opinião pública - não só a americana, mas internacional também - que clamava, em manifestações cada vez maiores, pelo fim do massacre perpetrado pela potência mais poderosa e rica do mundo contra um pequeno país de camponeses pobres.
 
Além do agente laranja despejado em todo território acima do Paralelo 17 situado próximo da bela cidade imperial de Hue e que cortava o país em dois, as bombas americanas do governo de Nixon (no começo, também as de Lyndon Johnson) devastavam os sistemas de irrigação de terras cultivadas de modo a destruir, meticulosamente, as colheitas de arroz e assim matarem de fome soldados e populações civis.
 
As armas pesadas dos vietnamitas eram de fabricação russa. As leves vinham da China.
 
As negociações entre Le Duc e Kissinger foram difíceis, é claro. “Como uma conversa de surdos, ’’ declarou Nguyen Thi Bin, a única mulher da delegação vietnamita, em uma de suas  entrevistas concedidas ao filme. Mas o respeito e a civilidade pontuaram as conversas, ela acentua. Em uma de suas entrevistas, Kissinger comentou: ”Pena que Tho era um adversário marxista; ele tinha disciplina, dignidade e cortesia.”
 
Para madame Bin, Kissinger possuía um senso de humor formidável e era um grande manipulador. ‘’ Tudo os afastava um do outro: a ideologia e a cultura marxista. E os dois tinham que lutar em três frentes: a militar, a política e a diplomática. Mas Kissinger acabou se dobrando diante de Tho. ’’
 
‘’Vocês falam de paz, ’’ dizia Tho a Kissinger, ‘’mas fazem a guerra. ’’ os vietnamitas temiam uma traição, que ocorreu.
 
No penúltimo encontro, já à beira de um acordo de paz, em novembro de 72, ficou acertado que Tho voltaria a Hanói para esclarecer alguns pontos obscuros do documento final e logo retornaria a Paris. Mas antes mesmo de desembarcar na capital do Vietnã do Norte, a cidade e seus subúrbios começavam a ser bombardeados de surpresa assim como todo o Vietnã do Norte e o porto de Haiphong, na beira do Mar do Sul da China, de posição estratégica.
Durante doze dias caíram mais bombas americanas na região do que em todos os dez anos da guerra. A operação passou à História como o terrível bombardeio de Natal - ou Linebacker – que deixou mais indignada ainda a opinião pública mundial.
Quando retornou à mesa de negociações com Kissinger, no seu último encontro, o mais tenso, com o conselheiro de Nixon, Tho foi duro. Nesse dia, a imprensa internacional estava reunida defronte da casa onde eram realizadas as conversas. As reuniões há tempos já não eram mais secretas.
Le Duc Tho cobrou a traição de Kissinger que sabia, durante o seu encontro anterior, que os bombardeios logo começariam sobre Hanoi. E se manteve em silêncio.
‘’Seus métodos foram brutais e cínicos. Vocês sujaram a honra dos Estados Unidos e quiseram nos vencer pelo medo. Saibam que nunca seremos subjugados, ’’ dizia Le Duc, de pé, sereno e firme.
A resposta de Kissinger, como se pode assistir no documentário de Roussell: “Acho que as bombas continuarão caindo. Você terá que retirar o que disse. ’’ E tentando dar uma certa leveza à situação: ‘’Falando assim tão alto, lá fora os jornalistas vão ouvir.’’
Em 27 de janeiro de 1973 as forças militares americanas suspendiam definitivamente os bombardeios e o acordo final de paz era assinado.
Nixon anunciava o fim da guerra para o mundo. É óbvio que não se referia à realidade: a rendição dos Estados Unidos. Dois anos depois, aí sim, o Vietnã conheceu a paz após o mitológico general Vo Nguyen Giap entrar em Saigon com o seu exército.
Meses depois de assinado o documento final oficializando o fim da invasão americana, Le Duc Tho foi indicado para dividir o Nobel da Paz com Harry Kissinger. Recusou polidamente. ’’Não quero ser confundido com o agressor. ’’
Kissinger aceitou.
 
* Este documentário está disponível no NOW/Programas de TV.





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