Cinema

A dor da memória

Pré-candidato ao Oscar de Melhor Filme Internacional, o húngaro 'Aqueles que ficaram' retrata com extrema delicadeza uma sociedade sobrevivente da guerra e hoje ameaçada pelo neo fascismo

13/01/2020 09:14

 

 
Lembrar pode ser motivo de muito sofrimento. É o que mostra, de um modo pungente, o filme húngaro Aqueles que ficaram  (Who's Left, de2019), um dos pré-candidatos ao Oscar de Melhor Filme Internacional, lista que será anunciada hoje. Ele concorre com duas outras produçõe sexcelentes. Uma, o contundente Parasita, e a outra, Dor e Glória, de Pedro Almodóvar. Mas mesmo que não seja indicado ao prêmio, este primeiro filme do jovem Barnabás Tóth, 30 anos, de Budapeste, está em cartaz no Brasil com salas cheias, desde a semana do Natal. Compreende-se. É um belo filme.

Baseado no livro da psicóloga e escritora Zsuzsa Várkonyi, narra a relação de imenso afeto nascida entre uma adolescente de 14 anos, ansiosa, reativa, muito inteligente e culta, que nutre a fantasia desejante da volta dos pais perdidos em campo de concentração nazista, e um médico ginecologista de meia idade, deprimido e solitário, imerso em lembranças da mulher e dos dois filhos pequenos desaparecidos na guerra. Um ajuda ao outro a, se for possível, retomar suas vidas através da afetividade e curar o Trauma, como diz Várkonyi

Ambos são o retrato simbólico da sociedade húngara do fim dos anos 40 libertada pelas tropas soviéticas das atrocidades cometidas pelos nazistas e a caça feroz à população judia, reduzida de 200 mil indivíduos para 70 mil, no término da guerra. Sociedade que começa, logo em seguida, a derrapar para o cruel sistema estalinista de delações, perseguições, processos e prisões que se inicia.



Aldo e Klara, os dois sobreviventes, vivem o período entre a ocupação dos exércitos alemães e a libertação da população judaica de Budapeste - dos campos e do gueto da cidade, um dos dois maiores da Europa Oriental - e a morte de Stalin.

A jovem atriz Abigél Szõke é uma revelação nessa sua estréia no cinema. O ator KárolyHajduk compõe a representação da dor das lembranças e da memória dos fatos com uma atuação lancinante.

À pergunta de Klara ao médico Aldo para saber se ele costumava pensar na família perdida, a resposta: ''Como não pensar? Eles estão em toda parte."

A atmosfera naturalista criada pelo diretor se reporta à Hungria narrada na obra de um dos mais brilhantes escritores do século passado, Sándor Márai. Também ele um sobrevivente, como Aldo e Klara, matou-se com um tiro de revólver, na Flórida onde foi parar após perambular por diversos países, dois meses depois do Muro de Berlim começar a cair.

Quase todos livros de Márai, hoje lidos livremente no mundo, falam justamente da dor e da insistência em recordar.

A expectativa é a de que o jovem Barnabás Tóth, depois dessa estréia promissora, possa seguir os passos de outros cineastas húngaros clássicos como Miklos Jancso, de Os sem esperança, Béla Tarr, ou Istvan Szabo, de Mephisto.

Sua tarefa é complexa. Ele filma sob o governo de extrema direita de Viktor Orbán, parceiro e anfitrião de filhos do presidente do Brasil, no ano passado.

Regime de crueldade assustadora em relação aos imigrantes orientais que sustenta um esquema de controle autoritário da Justiça, da mídia húngara e da Cultura.

No teatro, como se tem noticia atualmente, há manifestações e protestos dos principais atores e diretores húngaros. Os planos do governo, dizem eles, recordam a era estalinista, quando o Estado controlava a maioria dos aspectos da vida nacional, como se vê no filme do estreante Tóth.





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