Cinema

A história se transforma e permanece idêntica a si mesma

Em 'Desaparecido' (1982), o diretor Constantin Costa-Gravas procura desvelar a história subterrânea do desaparecimento do norte-americano Charlie, um escritor esquerdista radicado no Chile quando do golpe militar capitaneado pelo general Augusto Pinochet sob o beneplácito da CIA. Por Flávio Ricardo Vassoler

10/09/2013 00:00

 

O filme Desaparecido (1982), dirigido por Constantin Costa-Gravas, procura desvelar a história subterrânea do desaparecimento do norte-americano Charlie, um escritor esquerdista radicado no Chile quando do golpe militar capitaneado pelo general Augusto Pinochet sob o beneplácito da Central Intelligence Agency, também conhecida como CIA. O pai e a esposa de Charlie buscam o escritor junto à embaixada dos EUA, “nós queremos revê-lo, nós queremos respostas, nós queremos revê-lo ainda uma vez...” A ambiguidade desta última oração – “nós queremos revê-lo ainda uma vez” – trai a esperança que o pai e a esposa ainda ousavam expressar diante da truculência do exército golpista. “Nós queremos revê-lo ainda uma vez”, pois Charlie talvez já tenha sido reduzido a um mero corpo – o cadáver de suas ideias que o pragmatismo assassino do Secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger, um dos arquitetos da Guerra Fria na América Latina, sequer por um momento deixou de sepultar.

Ao fim e ao cabo, o pai, a esposa e os espectadores estarrecidos exumamos o cadáver de Charlie em meio a um sepulcro inusitado: o corpo fora sepultado em uma parede do Estádio Nacional, local onde Charlie havia sido fuzilado. Também não deixa de ser ambígua a escolha de paredes como túmulos. Se, após o golpe militar de 11 de setembro de 1973, o Chile viria a se tornar um dos primeiros laboratórios para a experiência de erradicação do (assim considerado) bacilo da proteção social com vistas à implementação do Estado mínimo neoliberal, a nova sociedade ditatorial deveria erguer suas base sobre e com os cadáveres daqueles que ousaram dizer não.

Mas não devemos nos esquecer de que a ambiguidade não pertence apenas à frágil esperança e à ironia dos algozes. A ambiguidade se confunde com o dia 11 de setembro. 28 anos após o 11 de setembro de 1973 chileno, o 11 de setembro de 2011 nova-iorquino, também uma terça-feira, mostrou ao já aposentado Henry Kissinger que o ressentimento – ou pior, a impossibilidade do esquecimento – constitui uma camada histórica ainda mais profunda do que as pilastras repletas de cadáveres do Estádio Nacional de Santiago do Chile.

O diretor britânico Ken Loach entreviu o diálogo das cicatrizes chilena e norte-americana que Constantin Costa-Gravas havia desvelado. Pablo, um sobrevivente chileno, tem muito a dizer à esposa e ao pai de Charlie. Em memória das vítimas do terrorismo que devastou o Chile em 1973 e os Estados Unidos em 2001, leiamos, a partir de agora, a carta que Pablo e Ken Loach nos legaram como mais uma interpretação fílmica para 11 de setembro (2002).

“Queridas mães, pais e entes queridos daqueles que morreram em 11 de setembro em Nova Iorque: eu sou chileno, moro em Londres e gostaria de dizer que talvez tenhamos algo em comum.

“Seus entes queridos foram assassinados como os meus... E nós temos uma data em comum: 11 de setembro. Terça-feira, 11 de setembro.

“Em 1970, houve uma eleição. Eu tinha 18 anos e votei pela primeira vez. Nós tínhamos o lindo sonho de construir uma sociedade na qual nosso povo repartisse o fruto do seu trabalho, a riqueza do país. Em setembro de 1970, todos fomos votar e vencemos. Havia leite e educação para as crianças. Terras improdutivas foram dadas a camponeses sem terra. O carvão, as minas de cobre e as indústrias de base se tornaram propriedade de todos nós. Pela primeira vez na vida, as pessoas tinham dignidade. Mas nós não sabíamos como tudo aquilo era perigoso...

“O secretário de Estado de vocês, Henry Kissinger, anunciou: ‘Não vejo por que deveríamos deixar um país se tornar comunista devido à irresponsabilidade de seu próprio povo’. Nossa decisão democrática, nossos votos não eram relevantes. O mercado e o lucro eram mais importantes do que a democracia. Daquele momento em diante, nossa dor e a dor de vocês foram legalizadas.

“O presidente de vocês, Richard Nixon, disse que faria nossa economia gritar. Ele mandou que a CIA se envolvesse diretamente na organização de um levante militar, um golpe de Estado para aniquilar nosso presidente, Salvador Allende.

“Amigos, os líderes de vocês estavam decididos a nos destruir!

“Eles provocaram uma greve nos transportes que quase paralisou nossa economia. Embargaram todo o comércio conosco, o que instalou o caos. Trabalharam com aqueles que, em nosso país, não aceitavam a nossa vitória. Seus dólares sustentaram um grupo neofascista que gerou violência e bombardeou fábricas e centrais elétricas. De forma inacreditável, aquilo tudo não funcionou. O povo só fazia dizer ‘Allende, Allende, o povo te defende!’ Nas eleições municipais, na verdade, nossa base de apoio aumentou. Então, o que foi que os EUA fizeram?

“Discurso de George W. Bush:

“− Em 11 de setembro, os inimigos da liberdade cometeram um ato de guerra contra o nosso país e, à noite, o mundo já era outro. Estamos em um novo mundo no qual a própria liberdade está sendo atacada.

“Em 11 de setembro, os inimigos da liberdade cometeram um ato de guerra contra o nosso país. Assim que clareou, tropas e tanques atacaram o palácio presidencial. Allende, seus ministros e assessores estavam lá dentro. Allende não fugiu quando o Palácio La Moneda foi bombardeado.

“Discurso terminal de Allende, voz combalida:

“− Eles têm a força, podem nos subjugar, mas não se detêm os processos sociais nem com os crimes e nem com a força. A história é nossa. Ela é feita pelos povos. Viva o Chile! Viva o povo! Vivam os trabalhadores!

“Allende foi assassinado. Terça-feira. Também foi numa terça-feira, 11 de setembro de 1973. Um dia que destruiu nossa vida para sempre.

“Levei um tiro no joelho e, depois, eles bateram minha cabeça contra o chão. Eles me batiam tanto que, às vezes, eu chegava a desmaiar. Um dia, na prisão, vi um homem sendo arrastado pelos braços. Ele não conseguia andar. Saía sangue de seus ouvidos. Quebraram os ossos dele e depois o assassinaram. Ficamos sabendo sobre os campos de tortura dirigidos por oficiais do exército treinados nos EUA. Ficamos sabendo sobre os que foram estripados, jogados de helicópteros, torturados diante de seus filhos e cônjuges. Vocês sabem o que eles faziam? Ligavam fios elétricos nas genitálias. Enfiavam ratos na vagina das mulheres. Treinavam cães para estuprá-las. E aí ficamos sabendo sobre a caravana da morte: o general que ia de cidade em cidade fazendo execuções a esmo. 30 mil foram assassinados. 30 mil!

“Seu embaixador no Chile reclamou de tortura, mas Kissinger respondeu: ‘Pare de querer dar aula de Ciência Política’. O general Pinochet, que organizou o golpe, sorriu e aceitou os parabéns do secretário de Estado pelo ‘bom trabalho’. E os dólares começaram a entrar de novo no Chile.

“Eles me chamaram de terrorista e me condenaram à prisão perpétua sem julgamento nem defesa. Fui libertado após cinco anos, mas tive que sair do país pela segurança dos meus amigos e entes queridos. Não posso voltar para o Chile agora, embora só pense nisso. O Chile é meu lar, mas o que aconteceria com os meus filhos? Eles nasceram em Londres. Não posso condená-los a um exílio como o meu. Não posso fazer isso agora, mas desejo voltar para casa com todo o meu coração.

“Santo Agostinho disse: ‘A esperança tem duas filhas lindas, a raiva e a coragem. A raiva do estado das coisas e a coragem para mudá-las’.

“Mães, pais e entes queridos dos que morreram em Nova Iorque, logo chegará o 29º aniversário de nossa terça-feira, 11 de setembro, assim como virá o primeiro aniversário da sua. Nós vamos nos lembrar de vocês. Eu espero que vocês se lembrem de nós”.

Carta escrita por Pablo Sísifo, para quem a história se transforma e permanece idêntica a si mesma.


*Flávio Ricardo Vassoler é escritor e professor universitário. Mestre e doutorando em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, é autor de O Evangelho segundo Talião (Editora nVersos) e organizador de Dostoiévski e Bergman: o niilismo da modernidade (Editora Intermeios). Todas as segundas-feiras, às 19h, apresenta, ao vivo, o Espaço Heráclito, um programa de debates políticos, sociais, artísticos e filosóficos com o espírito da contradição entre as mais variadas teses e antíteses – para assistir ao programa, basta acessar a página da TV Geração Z: www.tvgeracaoz.com.br. Periodicamente, atualiza o Subsolo das Memórias, www.subsolodasmemorias.blogspot.com, página em que posta fragmentos de seus textos literários e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.



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