Cinema

A imagem da família fora do álbum de fotografias

'O que é mesmo a família?' indaga o diretor japonês Hirokazu Kore-eda em seu filme 'Assunto de família', vencedor da Palma de Ouro de Cannes ano passado, candidato ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e há mais de um mês em cartaz nas principais cidades do país

08/02/2019 17:37

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Créditos da foto: (Divulgação)

 
Numa das quadras mais sombrias da história deste país, quando o jargão Deus, Pátria e Família inesperadamente voltou a ecoar em uma máquina do tempo e nos remete aos idos dos anos 40, o filme do cineasta japonês Hirokazu Kore-eda, Assunto de família (Shoplifters), deixa platéias avançadas e público conservador no mínimo perplexos.

Entende-se que se mantenha em cartaz há um mês nos cinemas, esse filme vencedor da Palma de Ouro em Cannes, ano passado, e candidato a melhor estrangeiro do Oscar. Ele concorre com o extraordinário libanês Cafarnaum e com a obra prima do mexicano Alfonso Cuarón, Roma, duas outras produções super premiadas desta temporada.

Assunto de família não só confunde, espicaça, mobiliza e põe em xeque um dos mais importantes ‘‘fundamentos da ideologia da direita brasileira, atolada no neopentecostalismo, ’’ como escreveu Luiz Gonzaga Belluzzo há poucos dias. Ou seja, a família, assim como a vêem, com hipocrisia, os fundamentalistas religiosos em prontidão permanente e a burguesia.

Trabalhando pelo avesso, o filme desconstrói a crença da célula familiar convencional como ideal e necessária à estabilidade social e ancoradouro de um grupo de indivíduos partilhando a mesma identidade por meio de vínculos de sangue; e subverte o culto da imagem familiar idealizada existente apenas nos álbuns de fotografias.

Trata-se de mais um filme sobre o tema – laços familiares - desse discípulo do saudoso mestre Yazugiro Ozu que se dedica a um gênero de cinema japonês, o shomin-geki, quase documental, com filmes memoráveis e, frequentemente, realizados com câmera baixa, mantendo o meio do abdome dos atores no centro do fotograma. Também conhecida como câmera do tatame.

Depois de encerrar o seu trabalho na televisão de Tóquio, de onde veio, e a produção de filmes documentários, a estreia de Kore-eda na ficção ocorreu em Morobosi - a luz da ilusão (de 1995), um clássico festejado em toda parte. Dali em diante, a cada filme seu lançado, a crítica internacional comemora: ‘’Hirokazu Kore-eda faz alguns dos mais belos filmes japoneses dos últimos 15 ou 20 anos. ’’ ‘’ Kore-eda tem o refinamento da arte japonesa.’’ E o grupo de cinema do Harvard Institute comparam-no a dois gigantes da arte cinematográfica: ‘’Tem o ritmo e o estilo contemplativo de Hou Hsiao - Hsien e de Tsai Ming - liang."



No seu porto folio, Depois da Vida, A irmã mais nova, Ninguém Pode Saber e Pais e Filhos são os seus principais trabalhos. Produções que se dedicam a esmiuçar o tema das relações familiares que foi tão caro também a Ozu.

O assunto de Kore-eda neste de agora é a família muito pobre, moradora de uma periferia de grande cidade vivendo amontoada numa casa/gaveta mínima como são muitas das habitações de Tóquio e de Hong Kong.

Seus membros, a avó, o casal sem filhos e uma jovem recém saída da adolescência, a neta, sobrevivem com empregos precários e salários insuficientes para a sobrevivência digna. Há também duas crianças no grupo desses indivíduos. Todos, símbolos e representantes dos resíduos humanos deixados para trás pelo sistema social, político e econômico dos chamados países avançados (ou não) que o hipercapitalismo procura esconder nos cafofos das ‘’comunidades’’ miseráveis.

Os tais ‘efeitos colaterais’ humanos do sistema.

Para se manterem vivos e alimentados com um mínimo de decência, essa família – ou agrupamento acidental - onde a avó não é avó das crianças, as crianças não são filhos do casal estéril e a jovem neta é uma prostituta precoce, todos praticam pequenos furtos no comércio para arredondar os ganhos. Adultos e crianças. São ladrões incomuns.

O dinheiro é o vínculo que une os membros dessa família, como, aliás, ressalta a mulher, a mãe, num dos inúmeros diálogos brilhantes, à mesa; no filme há uma sucessão de sequências em que todos comem e se alimentam juntos. O vínculo é a tenaz caça ao dinheiro para a sobrevivência.

Soa familiar.

No dia-a-dia, a avó, que não deseja morrer sozinha, o casal sem filhos, as crianças e a prostituta jovem se amam, se protegem, reclamam, resmungam, se cuidam e fazem as refeições (muitas) uns em companhia dos outros e sempre em um ambiente caloroso, vivo e acolhedor.

E aí é que a narrativa de Kore-eda rompe e desmonta os cânones dos fundamentalistas e dos conservadores: no conteúdo de afeto latente e até expresso do grupo. Não é a transgressão que tanto importa no argumento (o roteiro é do próprio diretor) apesar de ela ser o elemento que confronta e desafia a ordem social, a polícia, o estado, as leis e a justiça e que portanto deve ser punida! conclamam logo os ‘’homens de bem’’.



‘’Uma das marcas registradas do pensamento conservador, do novo e do velho, é a convicção da bondade natural do indivíduo criado na família. (Para ele) Só a família torna o indivíduo capaz de discernir entre o justo e o injusto, o certo e o errado, ’’ escreve ainda Belluzzo.

Errado. E Kore-eda mostra que não é assim. Esse princípio estreito e falso é colocado na mesa (na tela) de refeições em diversas ocasiões do perturbador filme do japonês. Em meio à floresta de convenções anacrônicas ele indaga: o que é justo e o que é injusto? O que é certo, o que é errado? O que é moral? Imoral? E amoral?

Na zona cinzenta em que Kore-eda trabalha, a família, em vias de ser punida pelo estado, ainda tenta fugir da punição (não tem identidade, domicílio nem documento regularizado) mesmo que precise deixar para trás o filho que ficou no hospital imobilizado, perseguido e ferido depois de roubar num mercado.

Quando o assunto é a sobrevivência do grupo a solidariedade pode ser ficção. Ou não. É uma das inúmeras contradições do ser humano. O afeto talvez seja mais forte. Mesmo que ele floresça como resgate do ressentimento pela rejeição.

‘’Eu tenho pensado nos laços de família, mas também, afinal, no que nos une. A paternidade é consanguínea, mas também é um dado cultural. E foi sobre isso que quis refletir com essa história,’’ declarou o cineasta em Cannes, ano passado, com simplicidade.

A sua capacidade de extrair doçura dos temas mais espinhosos é uma das principais características do seu cinema, comenta a propósito o crítico Eduardo Moniz Vianna, conhecedor do Japão e especialista na produção cinematográfica que vem de lá.

‘’Os filmes dele normalmente abordam temas pesados, mas com uma sensibilidade e uma doçura que poucos conseguem ter. Ninguém Pode Saber, Maborosi, Still Walking, Nossa Irmã e Depois da Tempestade são maravilhosos, ’’ diz Moniz Vianna.

Em uma perspectiva estritamente artística e formal, Assunto de família, estruturado em três movimentos (rotina da família; invasão da realidade destruindo a bolha em que vivem, e as consequências da transgressão – punição e separação dos associados) tem a sua excelência no primeiro deles, que se compraz num alongamento talvez excessivo dos quadros vivos –entretanto belos - que mostram como pode ser satisfatória a vida da família que, quem diria? não corresponde à imagem idílica que se tenta vender do álbum familiar.

Kore-eda sempre foi excelente em pequenas cenas domésticas. A mudança das estações determinando o ritmo dos acontecimentos (uma das marcas importantes do cinema japonês) é cenário para elas. E o seu gosto por filmar crianças com a ponta dos seus dedos, com extrema delicadeza e sem idealizá-las. Ele diz ser possível revelar o mundo adulto de forma muito interessante através do olhar da criança, da sua inocência e pureza.

O elenco admirável é um dos pontos altos do filme com o desempenho de Mayu Matsuoka, a avó, sobressaindo. (Ela faleceu pouco depois de terminadas as filmagens.) A sua matriarca é magnética e pouco a pouco assume o protagonismo. Outro trabalho especial é o da magnífica atriz Sakura Andô fazendo a mãe. Inesquecível a sua cena, na prisão.

E é justamente com os personagens do menino e da menina, dos dois filhos dessa sua narrativa que se desdobra em tantas camadas, ambos catapultados de um paraíso (por que não?) no qual viviam que Kore-eda conclui esse seu Assunto de família.

Arremessados para a realidade de uma nova existência ‘’segura’’ e despreocupada do ponto-de-vista material cada um deles espia, em uma tocante solidão, para um futuro que se prenuncia vazio.





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