Cinema

A lucidez que aponta o declínio e o caos

Os excessos de 'O professor substituto' não tira o seu charme de filme cult alternando suspense, terror e distopia

25/07/2019 12:38

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Créditos da foto: (Reprodução)

 
O argumento é excelente. Dele foi criado um roteiro, ruim, - inspirado num romance de dezessete anos atrás, de autoria de um ex-professor, Christophe Dufossé, um sucesso traduzido no lançamento para dez idiomas. A partir do livro Schools’ Out foi produzido o filme francês, O professor substituto, de Sébastien Marnier, que estréia hoje em vários cinemas das principais cidades do Brasil.

A estranha história é esta: um professor de tradicional colégio da província da França se mata pulando da janela da sua sala de aula enquanto os alunos estão concentrados, fazendo os deveres. Para substituí-lo até o fim do ano letivo, é contratado um novo professor, Pierre Hoffman, que logo observa o comportamento insólito de um grupo de seis alunos da classe, meninos e meninas precoces, super inteligentes – e por isto mantido distante dos outros colegas com nível de aprendizado corrente, ou seja ‘’normal’’. Eles são disciplinados, arrogantes, intelectualmente desafiadores e ameaçadores nas suas atitudes, ações e reações.

No começo, o professor Hoffman justifica a hostilidade dos alunos como uma resposta ao trauma da morte do seu antecessor. Logo percebe sinais que o levam a questionar o comportamento bizarro dos alunos, as suas motivações e também as circunstâncias do suicídio do colega.

Com estes ingredientes, Marnier centra o seu filme na estranheza crescente do professor substituto, por um lado, e na leva de geração milenium – os nascidos por volta do ano 2000 – do outro. Hoffman, intrigado com a excentricidade dos alunos liderados pela colega Appoline, hiper inteligente. O grupo de jovens, por sua vez, sempre hostil ao novo professor, desenvolvendo experimentos de controle da dor física, e, estóicos, lúcidos e preocupados com eventuais desastres ambientais gigantescos – que para eles não serão eventuais – e que destruirão a vida no planeta.



Como subtemas do filme, a comercialização da educação das elites, a submissão e condescendência à classe dos ricos, uma ponta de anti-semitismo latente, e maneiras de viver dos pós hippies, mais livres e independentes, e à margem da competição carreirista e do sistema.

Todos, assuntos que empolgam, mas que não são digeridos em tão pouco tempo de filme. A narrativa pula de uma a outra observação ou insinuação, vai, aos pulos, vacilando da distopia ao terrir (o filme de terror) passeia pelo cinema de costumes e larga pontas soltas desde o início até o final.

É excessivo nas observações e anotações sobre esses temas discutidos atualmente com veemência por toda parte, utiliza símbolos e metáforas fáceis - as baratas da Metamorfose de Kafka, por exemplo -, e hesita entre pitadas de gótico que não cabem nas duas horas de narrativa cinematográfica.

A trilha musical, no entanto, do excelente duo francês de electropop Zombie Zombie é perfeita para sublinhar a possibilidade do caos nuclear e do apocalipse que a ‘’lucidez do declínio e das despedidas’’ dos alunos liderados por Appoline intui e aponta.

O professor substituto deve fazer boas bilheterias. Um filme Cult como foi, na época, o livro de Defossé cujo título, traduzido para o português, é Acabou a escola.

O problema é que ele faz lembrar todo o tempo de duas obras primas realizadas nos anos 60, com atmosfera semelhante: Os inocentes, de Jack Clayton, e o extraordinário O Senhor das moscas, de Peter Brook. Inspirados em Henry James e em William Golding.



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