Cinema

A menina que grita

Versão extrema da 'criança cheia de vontades', a protagonista de 'Transtorno Explosivo' coloca em xeque os limites da empatia dos outros personagens e de nós, espectadores

03/11/2020 18:17

 

 
Muito da admiração geral por Transtorno Explosivo vem da fabulosa atriz Helene Zengel, de 11 anos, que vive Benni, a quebradora do sistema do título original System Crasher. Benni tem um trauma que a faz entrar em surto quando alguém toca seu rosto. Mais que isso, ela canaliza sua profunda carência numa agressividade incontrolável e numa intolerância radical a qualquer coisa que lhe neguem. É a versão extrema da “criança cheia de vontades”. Vive em centros de acolhimento, dos quais é sucessivamente expulsa. Deseja desesperadamente voltar a viver com a mãe, que sofridamente a rejeita por não saber lidar com seu temperamento.

Uma luz parece surgir no meio do túnel quando um mediador escolar (Albrecht Schuch) resolve levá-la para três semanas numa floresta, longe de tudo o que lhe incomodava. A partir daí, insinua-se vez por outra uma virada de redenção, o que felizmente – para o filme – não ocorre. A dureza com que a diretora e roteirista Nora Fingscheidt trata o assunto é uma qualidade do filme, mas também pode ser um problema.

No fundo, trata-se de ver Benni repetir um mesmo padrão de comportamento: um aparente apaziguamento até que algo lhe seja negado ou alguém toque seu rosto para que ela grite, destrua coisas e cometa atos de grande violência contra outros e contra si mesma. Benni tem um potencial de ternura, que é seguidamente contrariado por seus atos. Essa estrutura sem muitas variações trai um certo desejo de explorar a síndrome da garota e testar nossos limites de empatia com a personagem. Tanto ela quanto o espectador – foi como eu, pelo menos, me senti – são como cobaias de um experimento psico-científico.

De resto, Transtorno Explosivo é um forte objeto cinematográfico. A atuação do elenco é irretocável e a câmera na mão de Yunus Roy Imer insufla vivacidade e drama aos movimentos de Benni. Faço restrição apenas à montagem de fragmentos dissonantes nas cenas de surto, que me pareceu redundante.

Um importante dado paralelo é o retrato positivo do sistema de assistência social à criança na Alemanha. Um quadro de gente abnegada que trabalha no limite entre o profissionalismo e a compaixão pessoal. Benni e seu caso põem à prova a resistência desse sistema.





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