Cinema

A mudança chegará, já cantava Sam Cooke nos anos 60

Cinebiografia de um precursor do blues e inventor do penteado afro vem enriquecer a luta pelo movimento 'Vidas Negras Importam' de hoje

13/01/2021 12:19

(Reprodução/Netflix)

Créditos da foto: (Reprodução/Netflix)

 
As duas mortes de Sam Cooke (The Two Killings of Sam Cooke) vem se juntar à seleção de documentários produzidos atualmente nos Estados Unidos e surfam na onda da atualização das lutas contra o entranhado racismo de estrutura que contribui para o apodrecimento da democracia americana. São filmes que desmascaram, mesmo que tardio, o mito do ''excepcionalismo'' do país que até há pouco foi a região central de um império ocidental.

É mais um projeto da série ReMastered, da Netflix, rastreando a vida de astros da música pop, como, além de Cooke, Bob Marley, Johnny Cash, Nina Simone e outros.

Não são muitos os que conhecem a trajetória do artista e ativista Sam Cooke. Ele integrou o grupo de precursores da soul music gestada nos gospels entoados nas igrejas pelos escravizados, criou a moda do cabelo afro (''faz parte da minha cultura negra'', ele dizia), e um dos que deram a partida no movimento black power.



Cooke foi um ícone, nos anos 50/60, do começo dos movimentos organizados pelos direitos civis dos negros nos EUA e do despertar do rock and roll. Atrás apenas de Elvis Presley ele era o segundo cantor e compositor que mais vendia discos na sua época. Não se exibia em ambientes segregados, em teatros e auditórios onde os brancos se acomodavam na platéia ao preço de 1,50 dólar e os negros, nos balcões, com ingressos comprados a 2,50 U$ se mantinham apenas olhando os de baixo dançando, o que lhes era proibido.

Cooke era fã do escritor James Baldwin e lia seus livros, e admirava Nina Simone, que na época tinha os discos e os shows boicotados pela indústria fonográfica por ser uma artista negra contestatária do sistema dos brancos.

Estão no filme as controvérsias que permanecem vivas até hoje em torno da sua morte em 1964, aos 33 anos, assassinado num motel de Watts, subúrbio de Los Angeles, no auge da fama como artista e como empresário bem sucedido na indústria musical. Também a sua amizade com Malcolm X, com Luther King, Muhammad Ali e com a então jovem Dionne Warwick, e a sua participação na histórica marcha sobre Washington, em 63, junto com Joan Baez e Bob Dylan.



Menciona-se também a investigação superficial e mal feita quando Cooke foi assassinado. Era o período de John Edgar Hoover como diretor do FBI ( cargo que ocupou durante 38 anos) e as suspeitas permanecem até hoje de que o cantor, compositor e empresário bem sucedido era seguido e monitorado pelo órgão de inteligência.

Outra hipótese dessa cinebiografia lançada há dois anos no streaming, dirigida por Kelly Duarte de la Vega com roteiro de Jeff e Michael Zimbalist, é a de que Cooke foi apanhado numa armadilha montada para fazê-lo desaparecer do universo das corporações das grandes empresas fonográficas que então compravam por míseros 25 dólares mais uns poucos papelotes de cocaína as músicas compostas pelos negros. Com a gravação delas, depois ganhavam fortunas.

A mudança virá (Change is gonna come) foi o carro chefe do repertório de canções emblemáticas compostas por Sam Cooke. Quando ele cantava ''a mudança está chegando'' não havia branco nem negro que ficasse sentado, impassível. Sua interpretação, que está lá, nesse doc, tocava fundo, como ocorre ainda hoje, em todos aqueles que acreditam que as mudanças sempre virão trazendo, como ele dizia, a ''cidadania de primeira classe'' para todos.

Vale ver esse documentário.



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