Cinema

A poesia no cinema do Irã

Um das culturas mais ricas e mais antigas do planeta, o país rico em petróleo volta a ser ameaçado com guerra; mas o cinema iraniano continua mostrando a força da sua indústria cinematográfica

15/01/2020 11:37

(Arte/Carta Maior)

Créditos da foto: (Arte/Carta Maior)

 
Foi com a exibição especial de um filme para o Xá do Irã da época, e para sua família, no começo do século 20, que a indústria cinematográfica nasceu no país. A primeira sala de cinema em Teerã surgiu em 1905. A partir do fim dos anos 70 ele foi se transformando em um dos cinemas mais respeitados, premiados e exibidos regularmente em festivais e mostras especiais mundo afora.

Dois títulos revelaram às plateias internacionais a qualidade, a sensibilidade e o timing diferente do modo de filmar oposto ao do cinema americano. Mais lento e menos montado, menos interpretado, porém diverso do neo-realismo italiano, um cinema mais reflexivo, mais poético, Através das oliveiras, Balão branco e Gosto de cereja foram os marcos da chamada nova onda cinematográfica do Irã, um misto de teocracia e democracia onde apesar de restrições políticas impostas, essa indústria vicejou e com sucesso.

De lá para cá, o filme A Separação, de Asghar Farhadi, ganhou o Oscar de Filme Estrangeiro em 2012 e, antes, Gosto de cereja foi Palma de Ouro em Cannes, em 1997. Em 2015 Jafar Panahi, diretor de Táxi Teerã, adversário do regime dos aiatolás e sentenciado à prisão domiciliar, conseguiu burlar a justiça e a censura e emplacou o Urso de Ouro no Festival de Berlim.

O apartamento, A maçã, Cortinas fechadas e Isto não é um filme, e mais Filhos do Paraíso, 3 faces e Sem data, sem assinatura são alguns dos títulos apresentados na seleção abaixo através de resumos, de pequenos comentários ou de resenhas publicadas em Carta Maior.

Eles rastreiam os anos 80, o assentamento dos costumes da Revolução Islâmica de 1979 e apresentam o reconhecimento da crítica internacional na década dos 90. Constituem parte da rica herança cultural das mais antigas do planeta onde a poesia de Rumi, o Rubaiyat, a literatura mística, arquitetura, música e filosofia, a arte da azulejaria, das miniaturas e da tecelagem de tapetes suntuosos são patrimônio da humanidade.

A maioria dos títulos estão disponíveis em plataformas digitais.*

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* Gosto de Cereja
* O Balão branco
* Através das oliveiras
* O apartamento
* A separação
* 3 Faces
* A maçã
* Filhos do paraíso
* Cortinas fechadas
* Sem data, sem assinatura


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Gosto de cereja



A história narra a trajetória do Senhor Badii, homem de meia idade que percorre as ruas de Teerã, no seu carro, em busca de desempregados que se oferecem para trabalhos ocasionais. Quer contratar um deles que queira ganhar um dinheiro rápido e fácil em troca de determinado trabalho.

Badii quer que a pessoa vá até um local que ele indicará, no dia seguinte de manhã, e chame em voz alta o seu nome duas vezes. Caso ele responda, o homem deverá ajudá-lo a sair da cova onde se encontra deitado sob uma cerejeira. Caso contrário, deverá jogar 20 pás de terra sobre seu corpo. O senhor Badii precisa de um cúmplice para o seu suicídio.

Durante todo o filme, são várias as pessoas a quem Badii expõe seus planos enquanto roda no carro. Alguns nada comentam, deixando apenas que sua expressão horrorizada demonstre seus sentimentos. Outros tentam demover Badi do projeto.

O roteiro de Kiarostami, de 1997, não revela os motivos que levaram o homem a querer cometer suicídio. Por isto, o espectador é levado a ser imparcial ao drama dele. Nós, espectadores, não devemos 'julgar'.

Nossa atenção se concentra no ato em si. Assim, cada personagem que entra no carro e começa a argumentar com Badii representa, de certo modo, a platéia. (Voltar para a lista)

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O Balão branco



O Balão Branco, do célebre cineasta iraniano Jafar Panahi é sempre incluído em todas as seleções de filmes e diretores de seu país. Trata-se do primeiro longa-metragem dirigido por Jafar. Conquistou a Câmera de Ouro no Festival de Cannes de 1995.

O diretor de Balão branco foi proibido, em 2009, de fazer filmes no Irã durante 20 anos. A punição ocorreu após filmar um documentário sobre a eleição presidencial de 2009. O governo iraniano de então considerou que Jafar atentava contra o Estado e fazia “propaganda contra o regime”.

O filme se passa poucas horas antes do Ano Novo no Irã, comemorado dia 21 de março, equinócio da primavera no Hemisfério Norte. O Noruz, como é conhecido, é o Ano Novo do calendário persa.

A história: Razieh é uma criança que fica encantada com os peixinhos dourados do mercado de Teerã, que “dançam enquanto nadam”. A menina deve conseguir comprar um deles antes do novo ano. Uma antiga tradição do Irã é colocar em uma mesa um peixe dourado em um pequeno aquário com água na refeição do Noruz.

Mas Razieh perde o dinheiro, dado pela mãe, para comprar um peixinho e, embora o acontecimento pareça ser trivial, o filme vai se tornando dramático à medida que a história se desenvolve através do olhar da garota.

O Balão Branco foi lançado sete anos depois do fim da guerra Irã/Iraque. Hussein (então presidente do Iraque) é mencionado e homens do exército iraniano estão presentes no filme circulando pelas ruas de Teerã.

Na época, o crítico de cinema Carlos Alberto Mattos comentou:

''No centro do atual interesse pelo cinema iraniano estão as pequenas aventuras humanistas meticulosamente engendradas pelo diretor Abbas Kiarostami. Vieram também do Irã alguns dos melhores filmes infantis a despontarem no circuito internacional ultimamente. O balão branco (Badkonake Sefid, 1995) combina essas duas vertentes. No roteiro que cedeu para seu assistente Jafar Panahi dirigir, Kiarostami põe em marcha uma história bem ao seu estilo: uma missão íntima leva os personagens a colocarem em xeque sua ética pessoal, a solidariedade e os tabus da sociedade islâmica.

Em Onde é a casa do amigo, um menino procurava incansavelmente um colega para devolver seu caderno escolar. Em E A vida continua, um cineasta buscava o tal menino em meio aos destroços de um terremoto. Já em Através das oliveiras, um jovem tentava conquistar a atriz com quem contracenava numa filmagem.

A protagonista de O balão branco é uma menina empenhada em recuperar uma cédula com que pretende comprar um peixinho dourado para festejar a passagem do Ano Novo. Tarefa aparentemente banal, mas que aos poucos se transforma numa questão fundamental, levando-a a descobrir, entre outras coisas, que o mundo não é tão ameaçador quanto sua família e os adultos lhe faziam crer.

Jafar Panahi segue à risca os preceitos do mestre. As cenas, geralmente longas e filmadas com simplicidade, dependem muito da capacidade dos atores de se mostrarem espontâneos em cada gesto ou olhar. Esse comportamento, aliado ao predomínio de cenários naturais, tem levado a insistentes comparações com o neo-realismo italiano. O balão branco, de fato, lembra o périplo de pai e filho em Ladrões de bicicleta.

Nada, porém, é mais distante da amargura dos filmes de Rossellini ou De Sica do que as doces fabulações de Kiarostami. Nelas sempre vencem os puros e obstinados, não fosse esse um princípio sagrado do Islã. Seja como for, esse cinema básico, de certa maneira inocente, vale como o reencontro com livros esquecidos onde contos belos e simples ainda esperavam pelos nossos olhos.'' (Voltar para a lista)

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Através das oliveiras



Filme do saudoso Abbas Kiarostami, de 1994, narra a relação de um diretor de cinema com seus atores durante uma filmagem no interior do Irã. Os atores interpretam os papeis de um par que se casou pouco depois do grande terremoto de 1992 que se abateu sobre o país. Mas o ator tenta persuadir a atriz que também eles deviam casar porque está apaixonado pela mulher. Num longo plano-sequência em que o único elemento sonoro é o vento passando pelas copas das árvores, um persegue o outro através dos campos de oliveiras. (Voltar para a lista)

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O apartamento



Por Carlos Alberto Mattos

O prenúncio é demolidor. O apartamento, de Asghar Farhadi, começa com um alarme de evacuação num edifício residencial. A família de Emad e Rana se muda às pressas, enquanto as fendas já aparecem nas paredes e vidraças. No entanto, o seu destino parece já estar traçado. No novo apartamento que passam a ocupar, ainda ficaram os pertences e a má reputação da moradora anterior. Por causa disso, o local é invadido por um visitante misterioso que agride Rana durante o banho. A demolição passa então a ser moral.

Farhadi criou mais uma variante dos seus dramas familiares sufocantes, reflexos do peso que a sociedade iraniana coloca na honra conjugal e na imagem pessoal perante vizinhos, amigos e parentes.

A hipótese do estupro, nunca mencionada por nenhuma das partes, lança o marido numa caçada ao invasor e numa confrontação com as noções de vingança e compaixão.

Sem qualquer intervenção da polícia ou da lei, tudo precisa ser resolvido na esfera privada mediante o silêncio ou a exposição. Como resultado, uma rachadura na arquitetura do casal vai se formando entre o trauma dela e a obsessão dele.

Embora sempre preciso na condução do elenco e na decomposição dos espaços de convivência por meio de uma montagem excepcionalmente dinâmica, não creio que Farhadi tenha repetido aqui a mesma excelência de Procurando Elly e A separação.

O apartamento tem passagens um pouco modorrentas e não consegue tirar grande efeito dos paralelos entre a vida privada do casal e os papéis que eles representam numa montagem de A morte do caixeiro viajante (o título original do filme é “Forushande / Vendedor”). Em vez de adensar o drama central, as digressões no teatro e na sala de aula de Emad soam mais como artifícios. (Voltar para a lista)

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A separação



Por Flavio Vassoler

A separação, de 2012, dirigido por Asghar Farhadi, tem início com uma tomada que tende a unir o juízo do magistrado à perspectiva do espectador. A câmera não desvela o juiz, nós vemos o que ele vê – o espectador é chamado à baila; o Irã, suas instituições e contradições sociais são descortinados diante do espectador ocidental.

Em face do juiz e dos espectadores judiciosos, Lavasani, o marido, e Simin, a potencial ex-esposa, discutem as razões para o divórcio iminente.

O juiz: “Ele é viciado, agressivo, não lhe dá dinheiro?”

Simin: “Não, é um homem muito bom e decente”.

Se Lavasani cumpre o papel que lhe cabe na divisão sexual do trabalho, isto é, se a ausência de vício o predispõe ao trabalho, se a mansidão produz e reproduz a família, célula da sociedade, e se o marido dá dinheiro à mulher que, de acordo com o contrato social, tende a ficar restrita à esfera privada em meio à qual a circulação monetária só ocorre de maneira escassa e contingente, o juiz não compreende por que a sociedade deve aceitar o pedido (frívolo) de divórcio.

Simin, professora de inglês, quer sair do Irã e levar a filha Termeh consigo. “Prefiro que ela não cresça nessas circunstâncias”.

O juiz: “Então as crianças não têm futuro neste país? E que circunstâncias são essas?”

A separação estrutura diversas críticas à teocracia iraniana, mas ao mesmo tempo parece reverberar uma máxima para o espectador ocidental. “Se Alá existe, nem tudo é permitido”. Os movimentos utópicos poderiam responder que a aposta em Alá constitui um anacronismo que deve ser superado pela reconstrução do Éden perdido aqui na terra – assim no céu como na terra.

Mas a queda da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas em grande medida despojou os revolucionários de um norte que orientasse e tornasse coeso o ímpeto de contestação. Daí a euforia dos apologistas que sentenciaram o fim da História e transformaram a perversidade das relações sociais do capitalismo tardio em nossa segunda natureza.

A provocação iraniana do diretor Asghar Farhadi contrapõe uma antítese à tese da democracia ocidental para que pensemos sobre uma possível síntese que possa movimentar a história e suas contradições ainda uma vez.

A tomada derradeira do filme ata o princípio ao fim: Lavasani, Termeh e Simin vão à audiência que decidirá o futuro da filha. Agora, cabe a Termeh decidir se ficará com o pai, no Irã, ou se partirá com a mãe para além do Islã. A câmera volta a assumir o plano do juiz, então vemos as personagens frontalmente como se os espectadores devêssemos interpelar a pré-adolescente junto com o magistrado.

“Então, Termeh, você já se decidiu?” As lágrimas convencem o juiz de que é melhor que os pais saiam da sala para que a decisão da filha seja proferida. E assim a câmera leva os pais a um corredor que os aparta. A imagem em questão vela e desvela uma miríade de sentidos. Simin, a mãe e professora ocidentalista, posta-se à esquerda, de pé, sempre querendo se mover e progredir; Lavasani, digno e tradicional pai de família, senta-se à direita. Qual será a escolha de Termeh? O filme prolonga a resolução irresoluta: como os caracteres finais começam a descer sobre os pais à espera, é preciso que respondamos pela jovem ou que reverberemos ainda uma vez a contradição.

Entre a tese do Ocidente autofágico e capitalista e a antítese do Irã de Alá – e de Ahmadinejad –, ainda não houve uma efetiva síntese utópica que reconfigurasse as relações sociais, de modo que o ímpeto de liberdade de Simin voltasse a se casar com a dignidade de Lavasani para que Termeh fosse a efetiva filha de nossos tempos. (Voltar para a lista)

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3 Faces



Por Carlos Alberto Mattos

Combinar simplicidade e complexidade tem sido uma marca dos melhores filmes iranianos desde a década de 1980. Jafar Panahi nos dá mais uma demonstração disso em 3 Faces.

O diretor de O Balão Branco, Isto Não é um Filme e Taxi Teerã se aproxima aqui do seu mestre Abbas Kiarostami para pavimentar um road movie na fronteira entre o registro do real e a invenção ficcional. Faz menções quase explícitas a filmes como O Gosto da Cereja e O Vento nos Levará. Mas, estruturalmente, é à trilogia da busca de Kiarostami que o filme parece querer se integrar.

Mais uma vez dirigindo ao mesmo tempo o filme e um carro, Panahi se lança pelas montanhas do interior do Irã à procura de alguém. Vivendo seu próprio papel, ele viaja com a atriz Behnaz Jafari, emocionada com a videocarta de uma moça que lhe pede socorro para seguir a carreira dramática proibida pelos pais. O vídeo se conclui com um aparente suicídio. A meta é encontrar a casa da moça enquanto a vida continua através das oliveiras.

Outro traço desse moderno cinema iraniano é dramatizar a relação polarizada das pessoas comuns com o cinema. Pensemos em Salve o cinema e Através das oliveiras. De um lado, a fascinação pela magia e o estrelato, como se vê na recepção dos aldeões à chegada de Panahi e especialmente de Behnaz. De outro, a rejeição dos mais conservadores à idéia de um de seus filhos optarem pelo mundo da arte. O filme contempla, ainda, a expectativa pela “utilidade” dos artistas para ajudar a resolver os problemas da comunidade.

À medida que avança na estrada e nos contatos com o povo, a dupla vê crescerem as ambiguidades dessa relação com o cinema – inclusive entre eles, na medida em que Behnaz chega a duvidar das intenções de Panahi com a viagem. Não seria isto apenas mais um filme dele? (Voltar para a lista)

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A maçã



Resumo do filme: ''Zahra e Massoumeh, de 13 anos, aparentam ter apenas dois porque passaram 11 anos na prisão, '' escreve Mohsen Makhmalbaf na dedicatória do roteiro de A Maçã.

A história é verídica: duas garotinhas iranianas permaneceram 11 anos trancadas em casa pelos pais. Até que, em 97, os vizinhos resolveram denunciar o fato às autoridades. A notícia abalou até mesmo as rígidas leis do Irã e virou manchete dos jornais locais.

A aberração seria apenas mais um fato policial corriqueiro na república islâmica, mas uma garota de 18 anos resolveu ir além e transformou-a em filme. A maçã, destaque em Cannes, é dirigido por Samira, filha de Mohsen Makhmalbaf, um dos mais festejados cineastas do país e autor do roteiro.

Para a jovem diretora o seu filme se situa entre o documentário e a ficção. O título se relaciona com a maçã, símbolo da vida e do conhecimento, no Irã.

Samira rodou o filme em tempo real e não usou atores profissionais nem tampouco as duas meninas que foram libertadas da prisão em casa.

Para ela, conforme disse em entrevista quando do lançamento de A maçã, '' eu não sou juíza, e cinema não é um tribunal. Para mim, cinema é um espelho que você coloca na frente da sociedade.'' (Voltar para a lista)

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Filhos do paraíso



Aqui, trata-se de um fio de história que entretanto absorve a atenção do espectador durante todo o tempo. Ali, um menino de nove anos, de família humilde, vive com seus pais e sua irmã, Zahra. Um dia, ele perde o único par de sapatos da irmã e, tentando evitar as reprimendas dos pais, passa a dividir seu próprio par de sapatos com ela, com ambos revezando-o. Paralelamente, Ali está treinando para conseguir uma boa colocação em uma corrida que será realizada. Ele precisa do dinheiro prometido como prêmio para comprar um novo par de sapatos para a irmã. (Voltar para a lista)

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Cortinas fechadas



Por Léa Maria Aarão Reis

O filme Cortinas Fechadas é de Jafar Panahi, nascido no Azerbaijão e membro do grupo de elite dos melhores realizadores do provocador cinema iraniano: Kiarostami, Makhmalbaf, Asghar Farhadi, Majid Majidi, Mohammad Rasoulof.

Ele se inicia e termina com as grades de uma vasta janela de casa de veraneio aparentemente aprazível - na verdade grades de uma prisão -, e no qual a tela, sem imagens, se mostra negra à custa de cortinas escuras rigorosamente cerradas. É produção dirigida por um prisioneiro político a quem se tenta calar à força.

Há 19 anos Panahi foi apresentado ao mundo, em Cannes, que, encantado, aplaudiu seu lindo filme O balão branco. Colecionador de prêmios importantes em Locarno, Berlim e Veneza, a sua carreira internacional amadurecia quando, na campanha presidencial do Irã de 2009, apoiou publicamente Mir Hussein Mussavi, candidato da oposição.

A partir de então a vida do cineasta se transformou em um inferno. O governo de Ahmadinejad invadiu sua casa, ameaçou a família, sua coleção de filmes clássicos foi destruída, o passaporte foi confiscado e Panahi acabou preso. Durante quase três meses fez greve de fome na cadeia e em 2010 foi a julgamento. Depois, foi isolado, condenado a sete anos de prisão domiciliar e ao silêncio artístico. Durante 20 anos está proibido de filmar, conceder entrevistas e viajar para fora do país.

Reduzido a um "mundo de melancolia" como ele diz em declaração feita de contrabando pelo skype para a plateia do Festival de Karlovy Vary, na República Tcheca, mesmo assim Panahi fez Isto não é um filme (2011), produzido dentro do seu apartamento em Teerã com a ajuda de colegas corajosos como ele.

Agora Cortinas fechadas chega aqui, filmado na sua casa à beira do mar Cáspio. Deu-lhe o Urso de Prata de melhor roteiro na Berlinale do ano passado.

Na contramão da maioria da crítica, eu prefiro o segundo. Se o filme proibido anterior era árduo de assistir, pelo confinamento do ator (o próprio Jafar), o fio esgarçado de história e a lentidão do andamento da narrativa, Cortinas mantém, com extrema habilidade, um suspense quase insuportável durante mais de uma hora e meia, tensão exercitada tão somente no sobe-e-desce dos atores dentro da residência de três andares. Excelente filme com um surpreendente roteiro.

Nele, não há explicações mastigadas. Conta o terror de fora vindo do escuro da noite e de algumas vozes que caçam alguém. Ou caçam muitos. São símbolos e metáforas lembrando um pouco a literatura do sul-africano Coetzee.

Chega à casa no meio da noite um homem, um escritor (roteirista como Jafar?) perseguido, ferido e acompanhado do seu cachorro chamado Menino escondido dentro da sacola. No Irã, pela lei do Corão, é interditado manter cachorros em casa.

O homem fecha com todo cuidado as cortinas negras de todas as janelas. Retira Menino da sacola, tomam banho juntos, se alimentam e se instalam, mas de repente, pela porta esquecida entreaberta, entram um rapaz e uma moça também perseguidos. Logo o rapaz desaparece. Vai procurar ajuda, mas não retorna. A moça permanece, azucrina e atormenta o escritor. Até que entra em cena a equipe de filmagem, o co-diretor do filme e amigo de Jafar, Kambozia Partovi, e então Panahi passa a protagonista da história.

O suspense continua até o último instante pontuado por trilha musical seca e austera: alguns acordes insistentes e sempre inquietantes como os de pesadelo.

"Só as pessoas sem medo podem viver atrás de cortinas fechadas," escreve o personagem/escritor. Observação óbvia do cineasta. Mas, ele continua: "viver atrás de cortinas fechadas é pior do que se matar".

Na sua situação claustrofóbica Panahi considera o suicídio uma alternativa? O filme diz que não, ao poupar o diretor/personagem de se afogar, serenamente, na cena em que ele próprio, do terraço, contempla a si mesmo adentrando o Cáspio para morrer.

Mas nós? Nós suportamos a realidade? "Ninguém pode roubar a realidade" mesmo que ela nos azucrine como a garota/realidade faz com o escritor - é o que volta a anotar o personagem que escreve. O personagem/cineasta acrescenta: "(porque)... a vida é apenas feita de lembranças. E há muito mais coisa nela do que apenas trabalhar."

Discutem-se a qualidade cinematográfica e a avaliação dos filmes proibidos do iraniano visto as condições políticas em que são realizados. Quais são suas propriedades cinematográficas? Às vezes são super e em outras, subestimados.

Em outra esfera, discutem-se os grandes jogos de conquista de poder e riqueza em que se encontram empenhados Estados Unidos e Europa no Irã. Por detrás de sanções, a cobiça imperial. Um percurso que vai do interesse geopolítico às bilionárias reservas de óleo do país dos aiatolás.

Por um lado, o Ministro da Cultura Shamaqdari faz ameaça velada e declara que não sabe até onde haverá paciência, por parte do seu governo, para o comportamento rebelde de Jafar Panahi, que já mandou para o estrangeiro, contrabandeado, o seu primeiro filme proibido em um pendrive escondido dentro de um bolo. E agora? Este Cortinas, como terá passado pela severa vigilância policial em ação nas fronteiras e aeroportos do país?

Sabe-se, com comprovações cada vez mais frequentes que, assim como todo oriente - distante, médio e próximo -, o Irã é um canteiro onde pulula uma miríade de agentes, espiões e infiltrados ocidentais, num ambiente efervescente onde o objetivo é sempre o mesmo: desestabilizar o país. Sobretudo os que são acobertados por detrás de fachadas de organizações não governamentais ditas ‘humanitárias’. Ou ‘democráticas’. O brilhante cineasta iraniano estará sendo manipulado? Terá sido transformado em um dos pivôs desses jogos internacionais de dupla face? Ou é, como tudo indica, a vítima radical, o prisioneiro político silenciado? Hoje, impossível saber.

O certo é o que o semblante do cada vez mais triste, muito triste Jafar Panahi apresenta-se na tela de Cortinas fechadas. Ele e o seu corajoso amigo ator e co-diretor Kambozia Partovi constatam: ”não sabemos o que o futuro reserva para nós." Nós acrescentamos: nem para o mundo violento que nega a delicadeza, a arte e a política.

Cortinas fechadas é a expressão, em um filme, do homem dolorido. (Voltar para a lista)

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Sem data, sem assinatura



Por Carlos Alberto Mattos

Um acidente de estrada, aparentemente sem grandes consequências, detona um labirinto de dilemas éticos, transferências de culpa e incidentes criminais. Sem data, sem assinatura nos traz mais um exemplo da qualidade que distingue o cinema iraniano moderno.

Realizadores como Abbas Kiarostami, Mohsen Makhmalbaf e Ashgar Farhadi foram capazes de extrair uma crescente complexidade humana e moral a partir de acontecimentos a princípio corriqueiros, mas que se desdobram em camadas surpreendentes. O diretor Vahid Jalilvand segue a mesma orientação nesse drama médico-legal.

O Dr. Nariman, médico legista, choca seu carro com uma motocicleta que transportava uma família. O pai recusa socorro. No dia seguinte, Nariman vem a saber que o menino morreu. A autópsia cita botulismo. Mas o médico insiste em examinar melhor o caso. Forma-se então uma rede de reações paralelas e crises de consciência que não dão descanso ao espectador. Abre-se também um espaço para que nós julguemos as atitudes dos personagens, movidas que são por códigos de comportamento e sentimentos nem sempre confessáveis.

Um suspense emocional se instala desde as primeiras cenas, produzido com a ajuda de outras tantas características virtuosas dos bons filmes iranianos: o talento dos atores, o apego às rotinas humanas básicas, a construção dramática exemplar em que se alternam a típica dialogação incessante, silêncios inquietantes e elipses elegantes.

Some-se a isso outro fetiche daquela cinematografia, que são as cenas rodadas no interior de carros em movimento. Kiarostami, Panahi… Tantos filmes iranianos são variações desse dispositivo quase tão antigo quanto o próprio cinema. Rubaiyat.

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*Disponíveis no youtube: A maçã, Filhos do paraíso, O apartamento, O balão branco, Sem data sem assinatura ( este também no Google play.) A separação está no NOW. Permitido download de Gosto de cereja. Através das oliveiras está disponível no Telecine.


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