Cinema

A política como uma seita infernal

Documentário de grande repercussão da TV francesa sobre o bombardeio de notícias falsas midiáticas nos EUA e no Brasil

31/10/2020 11:40

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Créditos da foto: (Reprodução)

 
O documentário A fábrica da mentira - as fake news no poder, estreou domingo passado na televisão francesa (Canal France 5) em horário nobre, e está ganhando imensa repercussão. Realização da jornalista Elsa Guiol, o roteiro é dela, de Félix Suffert Lopez e Arnaud Liévin, e esse primeiro episódio da segunda temporada da série tem 90 minutos. Conta com material de arquivo de excelente qualidade, entrevistas recentes bem articuladas, e analisa com precisão, além de Donald Trump, o personagem Bolsonaro. Com linguagem de TV, mais do que cinematográfica - urgente, dinâmica, eminentemente informativa - o doc faz o verdadeiro ''jornalismo profissional'' do qual tanto se gaba, erroneamente, o consórcio dos grupos de mídia corporativa daqui.

Na primeira parte do filme, a análise dos recursos agressivos e desleais utilizados por Donald Trump para se eleger presidente e os que ele continua usando atualmente. Um bombardeio violento sobre os eleitores de notícias falsas, de bravatas e mentiras deslavadas destinado a garantir para si a continuação na Casa Branca. A principal ferramenta de Trump é o QAnon.

Em agosto passado, por sinal, Paul Krugman (que não participa do documentário), no New York Times, resumiu essa operação: "QAnon é a última e melhor chance de Donald Trump. Sua única esperança de reeleição é o próprio medo".

Na segunda metade do documentário, está lá a trajetória política recente de Bolsonaro rumo ao Planalto. O exibicionismo vulgar na Câmara e seu repugnante voto de elogio à tortura durante o processo de golpe contra a presidente Dilma Rousseff; o até hoje obscuro atentado sofrido em Minas Gerais durante a campanha presidencial; o batismo no rio Jordão pelos seus cabos eleitorais evangélicos, o comportamento grosseiro, mal educado e bruto permanente e o linchamento midiático virulento aos opositores. Além do ódio destilado pelos gabinetes vizinhos aos seus aposentos profissionais e instalados também no terceiro andar do palácio de governo.

Em comum aos dois notórios clientes de fake news, o filme comenta os disparos em massa ilegais de mensagens de celular e os grupos de what's app que babam ódio e difundem mentiras e calúnias contra seus opositores. No Brasil, mirando sempre no Partido dos Trabalhadores e assim disfarçando a desqualificação de toda a trupe para exercer os cargos de governança que ocupa atualmente.

O tema recorrente e predileto de ambos, nos seus disparos de mensagens em massa, tanto de Trump como da sua versão tropical, e o que vem a ser o de maior aceitação por parte de milhares de destinatários, é a suposta proteção que os dois se comprometem a proporcionar às famílias.

"Save the children!" é um brado irresistível para os ressentidos, os reprimidos, os inseguros. O combate sem trégua "em nome da Babilônia" (!) contra redes de pedófilos, contra escolas e universidades, contra material de educação progressista e especialmente educação sexual; contra minorias em geral e em particular as LGBT (que ocasionou a explosão de assassinatos de mulheres e de pessoas homo e trans no Brasil) e contra máscaras sanitárias (imagens e entrevistas gravadas e filmadas em junho passado) assim como contra a distribuição dos inexistentes kit gays e de mamadeiras de piroca. Está tudo lá, no doc.

Numa coletiva com o presidente dos EUA, a um repórter que há poucas semanas comentou sobre os que compõem o QAnon - ''eles afirmam que você está salvando o mundo de uma rede de pessoas satânicas''- Trump se fez de surdo: "Não ouvi isso, mas posso ajudar a salvar o mundo de alguns problemas e estou disposto a fazê-lo.''

Se lá em cima os slogans de onipotência desvairada são O grande despertar da América e América first, e, antes, na campanha passada, o alerta de que Hillary Clinton come bebês! aqui eles são uma paródia tão agressiva quanto o original. Brasil acima de tudo, Deus acima de todos. E Acorda, Brasil! querem destruir as crianças. Ou Atenção pederastas, atenção! Bolsonaro vem matar vocês.

Lá, os três milhões de adeptos do QAnon marcham na seita em que se transformou a política estadunidense sob Trump. Aqui, as milícias digitais que estão operando, berram Mito! Mito! nas plataformas do metrô de São Paulo.

Sobre esses dois ''governos do Mal', Fábrica de mentira ouviu a correspondente do jornal Le Monde no Brasil, Claire Gatinois, a historiadora francesa Maud Chirio, o ex-prefeito Fernando Haddad, o ex-deputado Jean Willys em Barcelona e a jornalista Patrícia Campos Mello, alvo de uma campanha de extrema violência machista por parte de Jair Bolsonaro, seus filhos e suas milícias. E, naturalmente se refere com destaque ao assassinato da Deputada Marielle Franco até hoje sem solução.

Como se vê, seria uma boa iniciativa que alguma emissora daqui se dispusesse a adquirir o doc das fake news no poder para agregar informação profissional para seus espectadores e assinantes.







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