Cinema

A segunda morte de Pinochet

 

29/10/2020 12:38

'No', de Pablo Larraín, tem Gael García Bernal no papel do publicitário René Saavedra (Divulgação)

Créditos da foto: 'No', de Pablo Larraín, tem Gael García Bernal no papel do publicitário René Saavedra (Divulgação)

 
Há dois anos Carta Maior publicava comentários sobre o filme do chileno Pablo Larraín, No, hoje um clássico premiado em Cannes e indicado para um Oscar. O tema do filme com Gael Garcia Bernal versa sobre o dia em que o ditador Pinochet morreu pela primeira vez.

A população chilena, chamada em plebiscito a se manifestar pela permanência ou não do general genocida no poder por mais nove anos sob o manto de uma ''democracia de baixa intensidade'', como registravam, na época, os cientistas políticos, bradou um sonoro não.

A data, 5 de outubro de 1988 ficou conhecida como o ''Dia do No''. Não à ditadura.

Trinta e dois anos depois, acabamos de assistir à segunda morte política - e definitiva - de Pinochet, com a corajosa população do país andino rasgando a Constituição promulgada pelo general e seus asseclas militares que, entre outros tópicos, condenava à miséria e à morte os idosos; e às gerações de jovens reservava a impossibilidade de estudarem e avançarem na sua vida de adultos.

O mesmo sistema neoliberal que os mesmos cérebros descerebrados do Chile, durante a ditadura, pressionam hoje, instalados em Brasília, para implantar no Brasil. Assim como os chilenos esperamos que nós também vamos saber dizer Não.

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Em outubro, o recado de Salvador Allende é 'Não'

Por Léa Maria Aarão Reis, em 08/09/2018

Tempo de lembrar o filme chileno 'No' e o legendário último discurso do Presidente Salvador Allende, pelo rádio que ainda funcionava, e momentos antes de morrer: ''Saibam que mais cedo do que tarde de novo se abrirão as grandes alamedas por onde passará o homem livre para construir uma sociedade melhor''

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Há seis anos o filme chileno No, do diretor Pablo Larraín, estreava com grande repercussão aqui e na Europa, depois de ser premiado em Cannes e indicado para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Baseado em uma peça do escritor Augusto Skármeta, El Plebiscito, o tema deste documentário é significativo nesta proximidade não apenas da data trágica de 11 de setembro de 1973, quando o presidente Salvador Allende foi assassinado no palácio de La Moneda, em Santiago, pela fúria do bombardeio dos aviões de Augusto Pinochet e seus asseclas.

O mote principal do documentário fala sobre como os chilenos conseguiram começar a se livrar (em termos) da ditadura, no seu país, através do referendum de cinco de outubro de 88 - que passou à história como o dia do ‘’no’’ – e respondendo à campanha agressiva do ‘’si’’ planejada pelo sanguinário ditador que nutria a veleidade de continuar no poder sob a capa de uma democracia farsesca por mais nove anos; mesma espécie da democracia de baixa intensidade (eufemismo de cientistas políticos) como esta, que vivemos no Brasil há dois anos.

Mas o filme de Larraín se relaciona também com a data de sete de outubro próximo, no Brasil, porque apresenta as entranhas do marqueting político que, usado com talento, esperteza e com a parceria da mídia aliada ao poder do momento – e sempre defensora infatigável apenas dos seus interesses econômicos, como igualmente ocorre no Brasil –, como ele pode influenciar decisivamente no resultado dos pleitos.

Em 2008, Pablo Larraín (filho de uma família de direita, porém cineasta sempre firme em suas posições de esquerda) deu uma entrevista sobre No dizendo: ‘’ No Chile, a direita, como parte do governo Pinochet, é diretamente responsável pelo que aconteceu com a cultura nesses anos, não só destruindo-a ou restringindo sua propagação, mas também através da perseguição de escritores e artistas. O Chile se viu incapaz de se expressar artisticamente por quase vinte anos. “

E arrematou: "A direita em todo o mundo não está muito interessada na cultura e isso revela a ignorância que provavelmente é deles, porque é difícil para que alguém possa aproveitar ao máximo algo ou apreciá-lo se não tiver conhecimento dele."

Atualmente, saltando na medida de tempo chileno para hoje, os jornalistas Tebni Pino e Victor Saavedra, no GGN, registram os números que assustam o atual governo de Sebastián Piñera. O desemprego crescente, os bóias-frias, os mais de cem mil haitianos legalizados, habitantes de sórdidas moradias, sem leis sociais que os protejam no trabalho e marginalizados pela população, as violações dos direitos humanos, os desaparecidos.

Mas é sobretudo o fantasma de Allende que paira e continua assombrando o governo, a comunidade empresarial e a direita chilena, ‘’a mesma que derrubou o presidente com medo do perigo do comunismo.’’

‘’Ele também é um fantasma que persegue o atual governo quando vê meninos de 13, 14 ou 15 anos exigindo educação gratuita nas ruas, mais recursos para pesquisa, melhores salários para os professores. Estes sim são fantasmas, não apenas jogos prestidigitação ou luzes voadoras, ’’ escrevem Pino e Saavedra.

Um fantasma assustador cujas palavras ainda ressoam vindas de La Moneda: ”O povo deve se defender; mas não se sacrificar. Não deve ser oprimido. Muito menos deve permitir ser humilhado.”’

Os dois artigos que se seguem, de Ed Stocker, em 2013 e de Joaquim Palhares, em 2015, têm matéria para reflexão e crítica sobre a data de setembro, no Chile, e sobre a temporada da campanha eleitoral dura e desleal para nós, em outubro.

A história na America Latina - história, presente, perspectivas

Por Ed Stocker em 4/2/2013

Revisto em 6/9/2018

“Eu acho que a maioria das pessoas, o mundo todo, sabe como Pinochet chegou ao poder”, diz o diretor do célebre filme No, do chileno Pablo Larraín. ‘’Mas eu não tenho certeza se as pessoas sabem como ele foi derrotado. O que ocorreu foi uma fascinante combinação de mídia, propaganda e capitalismo,” diz ele.

O último filme de Larraín retrata a intrigante história da propaganda por trás do referendo e das estratégias da derrocada do ditador chileno.

No final dos anos 80, o líder chileno Pinochet queria suavizar sua imagem e passou a trocar sua indumentária militar por ternos elegantes. Sob a pressão dos EUA, seu aliado no golpe de 73 que derrubou o então presidente, democraticamente eleito, Salvador Allende, Pinochet criou uma eleição.

E o que foi mais então significativo: pela primeira vez, na corrida para a presidência, a oposição conseguiu quinze minutos de propaganda eleitoral. A tarefa deles era convencer os chilenos que era chegada a hora da mudança, e que podiam ir, sem medo, às urnas.

O filme, indicado para o Oscar na categoria Melhor em Língua Estrangeira, tem Gael Garcia Bernal no papel de René Saavedra, o publicitário de voz suave que protagoniza a campanha chamada “No”. É uma interpretação forte e convincente do ator mexicano que foi lançado à fama graças a filmes aclamados como clássicos e de arte, como Amores Brutos e Babel, além de um bem vindo retorno ao cinema latino-americano depois de algumas escolhas um tanto questionáveis (o quanto menos nos lembrarmos das comédias românticas, vide Pronta para Amar, de 2011, ao lado de Kate Hudson).

O personagem de Bernal teve que criar um anúncio e uma campanha que acertassem no tom. Depois de discutir com políticos sobre qual deles ocuparia o lugar oposto ao dos horrores de uma ditadura, sua visão ficou mais clara. Passa, então, a focar em uma postura totalmente positiva, abraçando a ideia do mercado livre e da geração Coca-cola que, ironicamente, Pinochet ajudou a crescer, mas a desfavor do próprio ditador.

A campanha criou, então, um logo multicolorido, enquanto que as propagandas da televisão usavam imagens claras, solares, de sujeitos sorridentes e loiros, acompanhada do slogan “A felicidade está chegando”. A campanha do “Sí” estaciona.

O filme usa uma boa dose de licença poética. Muitos dos personagens são amálgamas de vários envolvidos com os fatos da época, e o próprio Saavedra é na verdade uma mistura do que foram José Manuel Salcedo e Eugenio Garcia, com algo da vida particular e familiar mostrado na medida certa (a mulher Veronica é interpretada pela mulher de Larraín, Antonia Zegers).

Os dois, Salcedo e Garcia, também estão no filme, mas de forma invertida ao que fizeram, como cúmplices da campanha “Sí”.

A maior licença tomada no filme diz respeito ao papel de Lucho Guzman, interpretado por Alfredo Castro, o chefe de propaganda de Saavedra, que também é um dos mais próximos do círculo do protagonista. Na verdade, os dois nunca trabalharam juntos, mas a solução do filme proporciona uma nova dimensão dramática; Guzman, estrela de outros dois filmes de Larraín, é um vilão maravilhoso.

Larraín insiste que No é fiel ao cerne dos fatos e a como eles ocorreram. A câmara utilizada na filmagem confere ao filme uma dimensão granulada, além do artifício esperto de entrecortar o drama com filmagens de noticiários. Ele também traz imagens originais do primeiro presidente do Chile depois de Pinochet, Patrício Aylwin, numa re-encenação da festa de vitória da campanha ‘’No’’, também entremeada por genuínos trechos de noticiários.

No é o último filme de uma trilogia baseada na ditadura, assunto que Larraín passou a conhecer bem. Ele costuma dizer que queria responder a pergunta sobre como a sociedade chilena poderia se machucar tanto.

Os primeiros dois filmes da trilogia, Tony Manero e Post Mortem, os dois estrelados por Castro, usaram a ditadura como pano de fundo para explorar as complexidades dos seus personagens principais. No primeiro deles, Castro interpreta Raul Peralta, um obcecado por John Travolta, e também serial killer; no outro, ele é um agente funerário reprimido, assistindo aos corpos se empilharem.

Mas em No, finalmente, a ditadura tem o papel principal.

 “Talvez os dois primeiros filmes fossem sobre pessoas derrotadas”, diz Larraín. Mas No é sobre o triunfo, e traz uma qualidade épica. Como diretor, você nem sempre consegue contar uma história como essa.”

Um outro 'No' decisivo na história

Por Joaquim Palhares em 6/7/2015

As 'Globos' e 'Vejas' gregas recorreram à manipulação e ao terrorismo para coagir a população a agir contra seus próprios interesses. Mas perderam. O filme é um exemplo para a eleição de outubro

O peso decisivo de um plebiscito na vida de um povo e o desafio de vencê-lo, em confronto direto com o aparato coercitivo e midiático do poder dominante.
Este é o tema do filme No, de Pablo Larrain, lançado em 2011, cuja mecânica guarda pontos de contato interessantes com a consulta grega deste domingo.

O No chileno trata do plebiscito que, em 1988, marcou o fim do regime sanguinário de Augusto Pinochet.
Sob o cerco interno e internacional, acuado por denúncias e pela crise, Pinochet decidiu apostar na força de seu aparato midiático para renovar a permanência no poder. Confiante, aceitou submeter-se a uma consulta no dia 5 de outubro de 1988, em que o 'Si' lhe daria legitimidade para mais oito anos de poder, enquanto o 'No' determinaria o fim de sua dominação no prazo de um ano.

Mais de sete milhões de eleitores (o Chile então tinha pouco mais de 12 milhões de habitantes), comparecerem às urnas para impor uma derrota histórica à tradição das tiranias latino americanas: com 56% dos votos, venceu o “No” contra 44% para o “Si”.

Esse é o grande cenário de um roteiro que privilegia um aspecto decisivo do embate: o papel cada vez mais imperativo dos meios de comunicação no escrutínio político em nosso tempo.

O Brasil sabe o que isso significa. E a sociedade grega também. Lá, as 'Globos' gregas, as 'Folhas' gregas, as 'Vejas' gregas, os Ibopes gregos recorreram inescrupulosamente à manipulação e ao terrorismo para coagir a população a referendar a vontade dos mercados contra os seus próprios interesses.

Na antevéspera do plebiscito deste domingo, a televisão da Grécia dedicou 46 minutos de cobertura às manifestações pró-‘‘Sim’’, enquanto o comício de Tsipras em defesa do '’Não’' recebeu oito minutos de cobertura.

Neste caso não funcionou. E não funcionou porque o governo Syriza liderou a resistência à campanha conservadora indo às ruas contra a sabotagem midiática, defendendo de forma contundente a rejeição ao arrocho, ganhando assim os corações e mentes da maioria da sociedade (61% da população, como se viu).

No Chile também a democracia venceu. Neste caso, porém, graças a uma estratégia insólita e ousada da campanha midiática progressista, que derrotou o monopólio conservador na batalha das comunicações.

Vale a pena assistir à narrativa desse feito histórico; sobretudo para aprender algo de que o Brasil tanto se ressente nos dias que correm: conquistar o imaginário da sociedade para deter a voragem golpista, em marcha batida no país.

Confira o trailer de No:




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