Cinema

A semana cinematográfica é de Jack London

'Martin Eden' e 'O chamado da floresta' renovam o fascínio pela obra do autor americano, militante e autodidata, que tanto encantou com seus livros as gerações de jovens do século passado

12/03/2020 16:00

 

 
Gerações de adolescentes e jovens do século 20 se encantaram com os textos fortes, ''nus e crus'', da literatura de aventuras do escritor americano Jack London. Meninos que o leram nas últimas décadas dos anos 2000, hoje adultos, acorrem agora para assistir dois filmes que entraram simultaneamente em cartaz, há uma semana, ambos baseados em livros do fascinante autor californiano. No caso de Martin Eden, inspiração livre. Em O chamado da floresta, filme baseado com algumas minúcias das aventuras empolgantes do escritor sobre os anos da histórica corrida ao ouro nas regiões geladas do Canadá e do Alasca, na cidadezinha de Klondike, e da qual ele participou.

O livro (e também o filme) Caninos brancos é uma das obras mais conhecidas e festejadas de London, pseudônimo de John Griffith Chaney, cujos textos são, quase todos, cinematográficos. Diversas novelas e romances do escritor autodidata que começou a trabalhar aos 13 anos, foram levados às telas.

Martin Eden

Ele próprio viveu uma existência aventurosa, difícil e repleta de incidentes dramáticos. Nasceu paupérrimo e morreu muito jovem, dono de grande fortuna obtida exclusivamente com a sua literatura. Um dos seus maiores admiradores no mundo do cinema é o cineasta Ridley Scott.

Martin Eden, do documentarista italiano Pietro Marcello, é a viagem incluindo traços do perfil e da trajetória de Jack London. Filme bizarro que mescla filmetes em preto/branco de documentários do fim do século com imagens oníricas de sonhos, pesadelos e lembranças de infância de Eden/London.

Passa raspando pelo cinema experimental, de ''vanguarda'', e vai traçando o rumo da vida do jovem homem muito bonito fìsicamente, especialmente inteligente, perseverante, sensível e obstinado pelas suas idéias. Dotado do dom da observação acurada da humanidade e dos acontecimentos, da empatia e do afeto irrestrito, além do manejo literário, Eden trabalha no mar contratado como grumete, e logo depois como marinheiro de navios pesqueiros.



Tudo a ver com a vida, o físico e a personalidade de Jack London.

O ator Luca Marinelli faz o protagonista, Martin. Rapaz pobre que conhece, por acaso e na sua intimidade, a vida burguesa dos Orsini, que na realidade é um dos clãs mais fechados da Itália. Ele se apaixona por Elena, (atriz Jessica Cressy) herdeira da família, e entra em contato com o mundo esnobe, arrogante e rarefeito dos ricos. Ingênuo, descobre que se sente deslocado e chocado ao observar como a classe dos trabalhadores, de onde ele é originário, é vista e é tratada pelos burgueses.

O Chamado da Floresta

O chamado da floresta (Call of The Wild), do diretor americano especialista em cinema de animação, Chris Sanders, pertence ao grupo de livros clássicos de Jack London ambientados no Yukon, no Canadá. Entre eles, o célebre conto To Build a Fire, de 1902,  considerado por muitos críticos como o melhor deles, que também foi inspiração para o cinema.

A história de Call of The Wild, filmada diversas vezes, agora mostra fidelidade ao livro. Tem em Harrison Ford o personagem de John Thornton, o homem desencantado que busca na solidão o consolo para sua amargura e acaba conquistando um companheiro ao encontrar Buck, líder de matilha de cães puxadores de trenó em Klondike. O ator Omar Sy está no elenco. 

Depois de anos vivendo como um cachorro de estimação na casa  de família abastada na Califórnia, Buck fora seqüestrado, levado para o Canadá e vendido como puxador de trenós do pessoal do correio da região. Lá, ele aprende que, para sobreviver, deve entrar em conexão com seus instintos selvagens e arcaicos. Desenvolve seu lado feroz e se transmuta no líder do grupo. Mais além, entra em contato com os lobos da região, seus ancestrais, e decide o rumo do seu destino dali para a frente.




O que Eden, Thorton e Buck podem (ou não) ter em comum no âmbito da obra do escritor de aventuras e nos respectivos filmes agora em cartaz?

Como defensor apaixonado do sindicalismo, dos direitos dos operários e do sistema socialista na cidade de São Francisco do fim do século 19, onde viveu, London chegou a escrever uma novela intitulada The war of the classes além de outras no mesmo tom.

O seu espírito inabalável de ativista social está claro em Martin Eden, o filme.

Uma chave para entrar na ideologia do autor se encontra no diálogo de Eden com a noiva aristocrata. Ela teoriza, censurando a sua participação e seus discursos inflamados e brilhantes nas reunião de trabalhadores que começam a ser noticiados pela imprensa. Elena reclama também que a escrita de seu noivo, o marinheiro sedutor obcecado para ser um poeta e um escritor, é crua e marcada pela tragédia e pela morte.

Eden retruca e diz: ''Para quem sempre esteve de barriga cheia como você, é fácil dizer que não acredita na fome; que ela não existe.''

Eden/London arremata com esta consideração a respeito da única resistência do indivíduo contra a pressão do mundo sobre ele: ''Enquanto o homem tiver poder sobre suas palavras terá controle sobre si mesmo; esta será sua única resistência contra as forças do mundo que desabam sobre ele.'' Por outro lado, Martin acredita na força do individualismo na luta contra a desigualdade e no conflito entre as classes.

Mais uma vez, em O chamado da floresta tema é repisado: os personagens burgueses são cúpidos na busca do ouro, são eles os selvagens reais e podem até chegar ao crime do assassinato, se for preciso, para defender seus interesses e algumas pepitas.

Sintomático que dois filmes baseados em Jack London vejam a luz agora e tenham sido produzidos quase simultaneamente nestes tempos sombrios da humanidade, de ódio, crueldade, violência, egocentrismo e cada vez mais desigualdade econômica e social.

O garoto grumete que começou a trabalhar aos 13 anos para não morrer de fome na Califórnia, caso tivesse vivido um pouco além dos 40 anos de idade, como ocorreu - morreu de escorbuto contraído no Canadá -, talvez pudesse ter ido mais além na sua senda de excelente escritor e de grande benevolente (como ele chegou a ser) assistindo os mais pobres e necessitados.

Talvez Jack London tivesse sido uma brilhante liderança socialista organizada. Ou um luminoso anarquista.

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