Cinema

A super dama

O 'doc' 'Minha história' apresenta a 46ª Primeira Dama americana na época ''pós-racial'' do país agora radicalizado pela era Trump, como observa Michelle Obama

08/05/2020 17:00

 

 
Lá pelas tantas do filme Minha história (Becoming) alguém comenta, e o documentário comprova com imagens, que na campanha presidencial do seu marido, a futura Primeira Dama dos Estados Unidos, a advogada Michelle Obama, fazia discursos incisivos e intervenções espontâneas brilhantes. ''Depois, eu fui roteirizada,' ela comenta com ironia. Os ataques a ela, então, se tornavam violentos e se multiplicavam por parte dos grupos supremacistas brancos e da direita em geral. Mas mesmo ''roteirizado'', o carisma de Michelle encantou o mundo durante os dois mandatos de Obama e a sua inteligência arguta não se escondeu por trás do excepcional carisma do marido.

Agora, depois do seu livro de lembranças, Becoming, vender mais de dez milhões de exemplares durante o último ano, o documentário estoura os acessos ao catálogo do Netflix com um roteiro clássico, mas bem amarrado, acompanhando a turnê de suas noites de autógrafos através 34 cidades americanas, com entrevistas concedidas em estádios superlotados e seguindo Michelle na sua empreitada, novamente mais solta e mais espontânea.

Se até certa altura o filme - segundo fruto da produtora do casal, a Higher Ground Productions, parceira da Netflix, que lançou o premiado doc Feito na América* - se anunciava monótono, com a receita de louvação da trajetória do herói - no caso da heroína -, a partir de certo ponto ele ganha o espectador não com a Michelle ''roteirizada'' mas com a segurança, humor e objetividade que dela emanam.

A 46a. Primeira Dama americana relembra a família, os pais, ela e o irmão, nos anos 70, vivendo na sua casa do Sul de Chicago, bairro de onde os brancos ''fugiam'' - ela sublinha comentário - por causa da chegada de famílias negras de classe média.

Seus anos de jovem estudante de Direito em Princeton, e os mantras que ouvia: ''Você não pertence a este lugar; não é boa o suficiente para ele.'' O episódio da transferência, a pedido da família da colega, da room mate, a companheira branca de quarto, na universidade. O primeiro contato telefônico com o colega Barack Obama depois de Harvard - onde se formou Doutora em leis.



Ela fala sobre intimidades: como aboliu o uniforme de smoking dos garçons da Casa Branca, e como ordenou que deixassem as filhas arrumar o quarto diariamente. Menciona também a psicoterapia do casal.

Comenta o risco da auto sabotagem pela vitimização. A força da esperança. O orgulho de cada descendência. ''Eu sou uma ex-Primeira Dama e também sou descendente de escravos,'' diz.

Nas cidades pelas quais ia passando, na sua turnê, o filme mostra seus encontros com estudantes negros, brancos, latinos, imigrantes; a maior parte deles vindos das minorias. ''O futuro de uma nação está nas mãos dos jovens,'' ela enfatiza. ''E muitas vezes os estudantes que vêm das minorias se transformam em simples números para alimentar os índices das chamadas ''ações afirmativas.''

É franca quando aborda o esforço de não se tornar acessório-de-marido. Mas confessa a redução de suas ambições profissionais partir do nascimento das duas filhas, Malia e Natascha.

Detalhes que chamam a atenção nesse perfil cinematográfico de Michelle Obama, que vale a pena ser visto. É um documento de uma ''época pós-racial'' ( a expressão é dela ) do seu país. Um deles, o registro, apenas rápido, do histórico desfile, no dia da sua posse, quando o casal desce do carro e faz parte do percurso pela Avenida Pensilvânia a pé.

O outro, a menção à nefasta divisão ideológica radical da era Trump.

E o terceiro, o tempo do filme dedicado ao pai de Michelle, Fraser Robinson, um homem inteligente, bela aparência física, que desejou entrar para a universidade e nunca conseguiu. Suas imagens, nos inúmeros álbuns de família mostrados, são as de um homem triste.

A grande (1,80 de altura) Michelle resgatou, com louvor, a frustração do pai.

*Em seguida a Becoming a Higher Productions lançará o documentário Exit West, sobre a aculturação de imigrantes.





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