Cinema

A terra cheirava a sangue

Mais do que um documentário, 'O Silêncio dos Outros' é um retrato da imensa capacidade de persistência do ser humano

11/03/2019 19:04

 

 
O documentário espanhol 'O Silêncio dos Outros' é muito mais do que um documentário.

É uma obra pungente, na qual o sofrimento dos descendentes daqueles que morreram durante e depois da sangrenta Guerra Civil Espanhola se faz ouvir por sobre o Pacto do Esquecimento, espécie de borracha para apagar sofrimento.

Quando menina ouvi de uma senhora que, ainda jovem, atravessou a Espanha de trem, fugindo da iminente invasão da França pelos nazistas, que sua lembrança mais forte daquela fuga era “que a terra cheirava a sangue”.

Foram cerca de 150 mil mortes de ambos os lados e de nenhum lado, daqueles que apenas se encontravam no lugar errado na hora errada. Foram mortes de anônimos e de famosos, mortes limpas, e mortes covardes, mortes por torturas, mortes por ideologia e mortes por vingança.

O que ocorreu durante os três anos que durou a guerra - 1936/1939 -, poderia ter se encerrado ali, e já seria demais, não fosse a tenebrosa ditadura franquista que se instalou no país durante quase quarenta anos após o seu término e cujas vítimas nunca foram representadas em números. Apenas em campos de concentração para republicanos, incluídos nessa categoria todos aqueles que se opusessem ao franquismo ou a seu moralismo, estima-se que tenham sido internadas mais de meio milhão de pessoas.

As atrocidades cometidas no pós-guerra incluíam a conversão forçada de filhos de prisioneiras, separados das mães e internados em conventos onde eram submetidas às mais duras e humilhantes tarefas. Muitos nunca mais as reencontraram.

Mas o que impressiona no documentário é a última crueldade irônica, a última manifestação de um fascismo que não foi de todo enterrado. É o pretender que o Pacto do Esquecimento seja possível de ser cumprido. É o pretender que uma lei possa, de forma impositiva, determinar o esquecimento de uma dor que não tem fim e gerar o perdão por sofrimentos que se transmitem de geração em geração. Perdão não se impõe, perdoa quem quer. Já o Estado tem a obrigação, objetiva e que não pode ser elidida nem esquecida, de fazer justiça, prestar contas do seu agir e minimizar as consequências de seus erros.

Mais do que um documentário, este filme é um retrato da imensa capacidade de persistência do ser humano. Ali vemos a esperança no olhar de uma filha que, aos quase noventa anos, faz a coleta de DNA para, numa cova rasa recém-aberta, tentar identificar o que resta do corpo de seu pai. Em outro olhar o brilho da alegria do encontrado que lhe permitirá poder vê-lo em suas cinzas. Ali se tem uma pálida ideia da infinitude da dor, de uma dor que sangra e que não há remédio que cure.

Que sabe Felipe VI de velhos rancores e feridas fechadas para dizer que não é hora de revivê-los! Quando o Estado aprisiona a memória de um país descaracteriza seu passado, torna impossível a veracidade de seu presente e compromete seu futuro.

Qualquer semelhança é mera coincidência.



Conteúdo Relacionado