Cinema

A verdade e o poder

Numa fria e pequena aldeia do interior da Polônia, uma fábula sobre a impossibilidade das certezas, que concorreu ao Oscar deste ano

13/08/2020 12:59

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Créditos da foto: (Reprodução)

 
Corpus Christi é mais uma reflexão cinematográfica estimulante, produção polonesa contemporânea de Rede de ódio (Hejter, de 2019)* e do mesmo diretor, sobre a qual nos referimos há dias, em Carta Maior. Nesse filme, forte candidato ao Oscar de Filme Estrangeiro este ano (ganhou Parasita), Jan Komasa propõe um mundo que não é tão claro como se pode pensar, no seu registro de Bem e de Mal como parece. Vive-se, o cineasta insinua, sem reconhecer o que há realmente no fundo do coração, da alma, ou do inconsciente - como queiram. Uma região onde nem a Psicanálise, muitas vezes, alcança e onde há um duplo nosso, adormecido, que aguarda, quase sempre inutilmente, para despertar e ganhar vida.

O personagem do jovem Daniel, o falso padre que chega a encarnar o seu duplo numa cidadezinha do interior da Polônia ultra católica/romana (e nem tanto apostólica) faz lembrar o personagem do Sombra, popular herói de um programa radiofônico de quase um século atrás, com forte audiência nacional, em cuja abertura a voz cavernosa do locutor que interpretava o protagonista gelava os ossos dos ouvintes alertando: ''Ninguém sabe o mal que se esconde no fundo do coração dos homens.''

Em Boze Cialo - baseado em fatos reais - dá-se o inverso. O pequeno assassino de 20 anos, preso num centro de detenção juvenil, deixa o reformatório dirigido por padres e é enviado em liberdade condicional para uma pequena aldeia no extremo oposto do país onde deverá trabalhar numa serraria, na mesma atividade que exercia no internato.



O problema é que Daniel, que se tornou extremamente religioso durante o período do seu confinamento, deseja ingressar nas ordens religiosas; o que não lhe é permitido por causa da sua ficha criminal.

Mas com um olhar sereno e penetrante, um talento admirável para liderar, convencer e converter pessoas, e por causa de um imprevisto banal, ele acaba substituindo o pároco do lugarejo e incorpora o novo e almejado papel de sacerdote - o seu duplo adormecido - com intensidade e impecável lucidez.

A chegada do carismático pregador é uma oportunidade para a comunidade local iniciar o seu processo de cura após um trágico acidente que, anos antes, ocorrera na região e a atormentava.

Na sua transformação espiritual, Daniel (ator Bartosz Bielenia, excelente) assume a bondade, a generosidade e o interesse autêntico em ajudar a mitigar a dor da comunidade levantando o véu da hipocrisia e do silêncio que envenena, e usando, nas suas pregações, a chave da admissão da culpa. ''Perdoar não é esquecer,'' ele lembra.



No entanto, a situação de Daniel se complica quando pessoas que povoaram o seu passado visitam a aldeia e sua identidade é posta à prova. Mas o ambiente da fria e fechada comunidade acaba por ser o local propício para que ele aprenda mais sobre a complexidade do bem e do mal, da fé e da hipocrisia - esta, um tema caro a Komasa que é também aflorado por ele no filme Rede de ódio - e para que possa exercer sua devoção ao próprio modo.

Ou seja: ''Cada um de nós é sacerdote de Deus,'' diz o falso/autêntico padre durante um dos seus mais instigantes sermões. "Estamos doentes,'' ele acrescenta. '' E essa doença se chama ganância. Queremos carros, roupas, objetos e desejamos estar sempre no centro das atenções.''

Sobre o certo e o errado, sobre luz e sombra, sobre as certezas que não são absolutas, e sobre o avesso do direito e o contrato ambíguo entre bem e mal: estes são os temas de Corpus Christi.

Mas o filme poderia ser resumido na discussão entre o falso/verdadeiro sacerdote e o prefeito da pequena cidade, dublé de próspero empresário. ''Eu tenho a verdade,'' diz a ele padre Daniel. ''Mas eu tenho o poder,'' responde o velho/novo político.

Um filme a ser muito bem examinado.

*Disponível para alugar no NOW.



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