Cinema

A verdade no Brasil e no mundo

Na sua vigésima quarta edição, o Festival É Tudo Verdade, com excelentes documentários, será inaugurado em São Paulo com 'Mike Wallace Está Aqui', e no Rio de Janeiro com 'Memórias do Grupo Opinião'

01/04/2019 11:58

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Créditos da foto: (Reprodução)

 

Uma programação com os melhores documentários produzidos no Brasil e no mundo estará nas telas do É Tudo Verdade 2019 – 24º Festival Internacional de Documentários, criado e dirigido pelo crítico Amir Labaki com parceria do Sesc-SP e copatrocínio da Spcine. O festival deste ano exibirá 66 filmes, em sessões gratuitas, entre os dias 4 e 14 de abril em São Paulo e 8 e 14 de abril no Rio de Janeiro.

Mais de 1.600 títulos foram inscritos para participar desta 24ª edição Foram selecionados 66 produções. Em 2018 foram 55 produções escolhidas. “É um privilégio apresentar uma safra excepcional como esta, tanto brasileira quanto internacional”, diz Amir Labaki. “Foi um dos processos de seleção mais intensos nesta década.’’

No Rio de Janeiro, o festival amplia o número de salas e aumenta em um terço o número de sessões programadas, apesar da agenda mais concentrada. Os filmes premiados no É Tudo Verdade 2019, nas competições de curtas e longas- metragens, estarão automaticamente classificados e serão examinados para a disputa do Oscar do ano que vem. “O convite pela Academia para o festival se tornar também um evento classificatório para o Oscar de longa-metragem, como há três anos já somos para os curtas, representou um estímulo extra para nosso trabalho”, afirma Labaki.

As sessões de abertura contam com a exibição do documentário americano Mike Wallace Está Aqui, de Avi Belkin, com uma sessão especial no Auditório Ibirapuera, em São Paulo, no próximo dia 3 de abril. O filme explora o trabalho do temido apresentador do 60 Minutes, que entrevistou, com perguntas duras e diretas, algumas das figuras mais importantes do século 20.

No Rio de Janeiro, o festival será inaugurado no próximo dia 8, com a estreia mundial de Memórias do Grupo Opinião, de Paulo Thiago. O filme reconta a história do Grupo Opinião, formado no Centro Popular de Cultura e que marcou a resistência contra a ditadura militar.

“Fazemos o resgate histórico do período em que a música, o teatro e as artes plásticas surgiram como uma forma de resistência ao regime militar no país. Trazemos à tona a beleza e o vigor desses artistas e autores”, diz o diretor.

O festival deste ano também celebra a memória e a obra de dois mestres falecidos em 2018: Nelson Pereira dos Santos e Claude Lanzmann. Em parceria com o Instituto Moreira Salles, o É Tudo Verdade destaca parte da produção documental de Nelson Pereira dos Santos (1928-2018), diretor de clássicos como Vidas Secas (1964). O programa destaca seus ensaios sobre dois influentes pensadores brasileiros: Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda. Serão exibidos Casa Grande & Senzala (2001), realizado para a televisão a partir do livro de Freyre, e Raízes do Brasil (2004) sobre a obra e a vida do historiador Sérgio Buarque de Holanda.

 Outro homenageado é o francês Claude Lanzmann (1925-2018), considerado um dos maiores documentaristas da história e diretor do clássico Shoah (1985), que levou 12 anos para ser concluído. Em parceria com o Consulado da França no Rio de Janeiro, o festival apresenta a estreia brasileira dos últimos retratos dirigidos por Lanzmann. Lançado na França meses antes da morte do diretor em julho do ano passado, As Quatro Irmãs se desdobra em outros quatro filmes, concentrados cada qual em uma sobrevivente do genocídio nazista e entrevistadas durante o processo de realização de Shoah.

São eles: A Arca de Noé, Baluty, O Juramento de Hipócrates e A Pulga Alegre.

Na competição brasileira, sete filmes ineditos foram selecionados para este ano:

Cine Marrocos (dir. Ricardo Calil, 2018) conta a história de sem-tetos, refugiados e imigrantes que ocuparam o prédio de um antigo cinema do Centro de São Paulo.

Dorival Caymmi - Um Homem de Afetos é uma entrevista inédita, gravada em 1998, que conduz o filme pelas memórias e confidências de Dorival Caymmi (1914-2008).

Estou me Guardando para Quando o Carnaval Chegar (dir. Marcelo Gomes, 2019). No agreste de Pernambuco, trabalhadores de fábricas que produzem mais de 20 milhões de jeans por ano deixam tudo para trás no Carnaval.

Niède (dir. Tiago Tambelli, 2019). Aos 85 anos, a arqueóloga brasileira Niède Guidon relembra a jornada profissional que levou à revelação de pinturas rupestres no sul do Piauí.

Rumo (dir. Flavio Frederico e Mariana Pamplona, 2019). Com entrevistas, animações e imagens de arquivo, o filme resgata a trajetória do grupo homônimo, considerado um dos principais nomes da chamada Vanguarda Paulista.

Soldado Estrangeiro (dir. José Joffily e Pedro Rossi, 2019). Três brasileiros vivem diferentes estágios da mesma escolha: ser um guerreiro em um grande exército de uma nação estrangeira.

Soldados da Borracha (dir. Wolney Oliveira, 2019). A história dos sobreviventes entre os 60 mil nordestinos que foram à região amazônica trabalhar na extração de látex durante a Segunda Guerra.

Na competição internacional, com longas ou médias metragens, serão apresentados 12 filmes inéditos no Brasil. E Piazzolla: Os Anos do Tubarão disputa também a Competição Latino-Americana.

As produções:

A Beira (dir. Alison Klayman, EUA, 2018). Segue o ex-estrategista-chefe da Casa Branca Steve Bannon durante as eleições legislativas de 2018 nos Estados Unidos.

Agora Algo Está Mudando Lentamente, (dir. Mint Film Office, Holanda, 2018). Acompanhando diferentes sessões de terapia e cursos, o filme investiga a procura por crescimento, orientação pessoal e sentido para a vida.

O Caso Hammarskjöld (dir. Mads Brügger, Dinamarca, Noruega, Suécia e Bélgica, 2019). Novas evidências sobre a morte do secretário-geral das Nações Unidas, em 1961, levaram a ONU a reabrir as investigações em 2015.

Defensora (dir. Rachel Leah Jones e Philippe Bellaïche, Israel, Canadá. (Suíça, 2019). Retrato da advogada israelense Lea Tsemel, que defende pales - tinos há cinco décadas e já foi chamada de “advogada do diabo”.

Encontrando Gorbachev (dir. Werner Herzog e Andre Singer, Reino Unido, EUA e Alemanha, 2018). Articulando material de arquivo e o resultado de três longas entrevistas, o diretor Werner Herzog acessa de perto a história do ex-líder soviético Mikhail Gorbachev, aos 87 anos.

Hungria 2018 - Bastidores da Democracia (dir. Eszter Hajdu, Hungria, 2018). Segue a campanha presidencial na Hungria, que opôs o primeiro-ministro de extrema- direita Viktor Orbán e o ex-premiê socialista Ferenc Gyurcsány.

Meu Amigo Fela (dir. Joel Zito Araújo, Brasil, 2019). O documentário mergulha na vida do multi-instrumentista e líder político nigeriano Fela Kuti (1938-1997).

Piazzolla: Os Anos do Tubarão (dir. Daniel Rosenfeld, França e Argentina, 2018). Com imagens e áudios inéditos, o filme constrói um retrato do compositor argentino Astor Piazzolla (1921-1992) e de sua revolução no universo do tango.

Reconstruindo Utoya (dir. Carl Javér, Suécia, Noruega e Dinamarca, 2018). Seis anos depois do massacre que deixou 69 jovens mortos em julho de 2011 em Utoya, quatro sobreviventes participam de reencenações sobre suas trágicas ex- periências na ilha.

Retrato Chinês (dir. Wang Xiaoshuai, Hong Kong, 2018). Passageiros de trem, turistas na praia, trabalhadores do campo e das fábricas e estudantes constroem a identidade contemporânea de uma China em transformação.

Testemunhas de Putin (dir. Vitaly Mansky, Letônia, Suíça e República Checa, 2018). Quase 20 anos depois de ter filmado a transição de Boris Yeltsin para Vladimir Putin para a televisão estatal russa, o diretor Vitaly Mansky lança um novo olhar ao seu próprio material.

Ziva Postec. A Montadora por Trás do Filme Shoah (dir. Catherine Hébert, Canadá, 2018). Entre 1979 e 1985, a montadora israelense Ziva Postec trabalhou com o documentarista francês Claude Lanzmann (1925-2018) no projeto que resultou no clássico Shoah.

Nove filmes estão na disputa desta edição da competição brasileira de curtas.

As Constituintes de 88 (dir. Gregory Baltz, RJ, 2019). As 26 mulheres que participaram da Constituição de 1988 levantaram bandeiras para garantir igualdade de gênero nas discussões sobre direitos sociais e políticos.

Kerexu (dir. Denis Rodriguez e Leonardo Remor, RS, 2018). Da coleta da argila nas margens do rio até a queima artesanal em forno e em fogo de chão, o filme acompanha o processo de produção da cerâmica tradicional no Sul do Brasil.

Nome de Batismo - Frances (dir. Tila Chitunda, PE, 2019). A diretora mergulha no passado de seu pai ao conhecer a freira que ajudou sua família a fugir da Guerra Civil que expulsou muitos angolanos de suas terras nos anos 1970.

Partir (dir. Sonia Guggisberg, SP, 2018). Cantos líricos gravados em casa por uma mulher entre os anos 1970 e 2005 amarram a colagem de imagens que contam a história de uma família.

Planeta Fábrica (dir. Julia Zakia, SP, 2019). O filme capta os últimos momentos de uma fábrica de chapéus, em Campinas, no interior de São Paulo, que está prestes a ser demolida.

A Primeira Foto (dir. Tiago Pedro, CE, 2018). Aos 30 anos, o diretor lida com a morte do pai, de quem não se lembra, por meio de imagens que tenta reconstruir. Como a da primeira foto sua, feita num estúdio de fotografia.

Retratos Sobre o Não Ver (dir. Erik Gasparetto, PR, 2018). No interior do Paraná, uma avó cega lida com as lembranças que ainda guarda e com rostos de que não se lembra mais.

Sem Título # 5: A Rotina Terá seu Enquanto (dir. Carlos Adriano, SP, 2019). Montagem com trechos de A Rotina Tem Seu Encanto (1963), de Yasujiro Ozu, combinados com cenas de uma viagem recente entre Ouro Preto e Mariana.

Vento de Sal (dir. Anna Azevedo, RJ, 2019). Na pequena Nazaré, em Portugal, o trabalho com os peixes é feito da maneira tradicional, num ritmo de outros tempos.

Serão exibidos nove filmes inéditos no país na competição internacional de curtas.

2001 - Faíscas na Escuridão (dir. Pedro González Bermúdez, Espanha, 2018). Com várias técnicas de animação, o filme recria uma entrevista com o diretor Stanley Kubrick publicada pela Playboy sobre o lançamento de 2001: Uma Odisseia no Espaço.

O Costureiro Debaixo da Ponte (dir. Banpark Jieun, Coreia do Sul, 2018). Um costureiro que passou a vida produzindo hanboks, os tradicionais e coloridos vestidos coreanos, pensa em se aposentar.

As Instruções (dir. Filip Drzewiecki, Polônia, 2018). O filme acompanha a rotina de um grupo de jovens estudantes de medicina lidando com seus primeiros pacientes num hospital lotado.

Lily (dir. Adrienne Gruben, EUA, 2018). Ainda adolescente, Lily Renée fugiu sozinha da Viena ocupada pelos nazistas. Já nos EUA, tornou-se uma das primeiras mulheres na indústria dos quadrinhos, nos anos 1940.

O Mar Enrola na Areia (dir. Catarina Mourão, Portugal, 2018). A partir de 30 segundos de película, o filme constrói o retrato de um personagem misterioso que vagava pelas praias portuguesas nos anos de 1950.

Na Boca da Mina (dir. Brandán Cerviño, Cuba, 2018). A população da pequena cidade cubana de El Cobre, terra da primeira mina da América Latina, mantém algumas de suas tradições enquanto vive da venda de artigos religiosos.

Na Nossa Casa (dir. Iban Colón, Espanha, 2018). Em Barcelona, duas famílias decidiram abrir suas portas para refugiados: uma recebe uma jornalista ucraniana de 58 anos e a outra, um jovem afegão.

Nove Cinco (dir. Tomás Arcos, Chile, 2018). Enquanto prepara um bolo, mulher reflete sobre o maior terremoto da história, que atingiu o Chile em 1960.

Swatted (dir. Ismaël Joffroy Chandoutis, França, 2018). Jogadores online descrevem suas experiências com uma ameaça que se tornou comum nos EUA: uma “pegadinha” envolvendo a Swat, a polícia especializada americana.

Competição latino-americana: A Arrancada (dir. Aldemar Matias, França, Cuba e Brasil, 2019). Uma jovem atleta cubana lida com uma lesão e a impossibilidade de participar de uma competição importante.

Está Tudo Bem (dir. Tuki Jencquel, Venezuela e Alemanha, 2018). A dona de uma farmácia, um cirurgião, um ativista e dois pacientes enfrentam a falta de medicamentos que está no centro da crise do sistema de saúde da Venezuela.

Hoje e Não Amanhã (dir. Josefina Morandé, Chile, 2018). Reconstrói a história do movimento Mulheres pela Vida, formado em 1983 no Chile, que reuniu integrantes de diferentes profissões e tendências políticas para combater a ditadura.

A Liberdade É uma Palavra Grande (dir. Guillermo Rocamora, Uruguai e Brasil, 2018). Depois de ter passado 13 anos na prisão americana de Guantánamo, um palestino de 38 anos vai ao Uruguai, em busca de uma nova vida.

Maricarmen (dir. Sergio Morkin, México, 2019). Aos 52 anos, a violoncelista Maricarmen Graue é professora de música, toca em uma banda de rock e em um grupo de câmara e corre maratonas. Ela é completamente cega e vive sozinha.

Piazzolla: Os Anos do Tubarão (dir. Daniel Rosenfeld, França, 2018). Com imagens e áudios inéditos, o filme constrói um retrato do compositor argentino Astor Piazzolla (1921-1992) e de sua revolução no universo do tango.

Carta a Theo (dir. Elodie Lélu, Bélgica, 2018). Uma homenagem ao cineasta grego Theo Angelopoulos (1935-2012), que morreu ao ser atropelado por uma moto enquanto trabalhava num filme sobre migração e a crise econômica.

Marceline. Uma Mulher. Um Século (dir. Cordelia Dvorák, França, Holanda, 2018) . Encontro com a escritora e cineasta francesa Marceline Loridan-Ivens (1928-2018), companheira do holandês Joris Ivens (1898-1989), com quem dividiu a vida e o trabalho.

Maria Luiza (dir. Marcelo Díaz, Brasil, 2019). Maria Luiza da Silva é a primeira militar reconhecida como transexual na história das Forças Armadas brasileiras. Após 22 anos de trabalho como militar, foi aposentada por invalidez.

Programas especiais: O Barato de Iacanga (dir. Thiago Mattar, Brasil, 2019). Com raras imagens de arquivo, produtores e músicos refazem a história do Festival de Águas Claras, que levou milhares de pessoas a uma fazenda no interior de São Paulo. Fotografação (dir. Lauro Escorel, Brasil, 2019). Discute a representação do Brasil no trabalho de diferentes fotógrafos e reflete sobre o impacto das imagens digitais na sociedade contemporânea. Milú (dir. Tarso Araujo e Raphael Erichsen, Brasil,2019). O filme investiga como Milú Villela, nascida na alta sociedade paulistana, se reinventa para criar redes em prol da educação, das artes e da filantropia.

Dino Cazzola - Uma Filmografia de Brasília (dir. Cleisson Vidal e Andrea Prattes, Brasil, 2012). O documentário percorre o processo de consolidação de Brasília a partir do acervo de 300 horas registradas pelo cinegrafista e produtor italiano Dino Cazzola. O Galante Rei da Boca (dir. Alessandro Gamo e Luis Rocha Melo, Brasil, 2004). Um retrato de Antonio Polo Galante, que produziu 56 filmes entre os anos 1960 e 1980 na chamada Boca do Lixo paulistana. Histórias Cruzadas (dir. Alice de Andrade, Brasil, 2008). A filha do cineasta Joaquim Pedro de Andrade revisita a obra do pai e a história de sua família antes, durante e depois da ditadura militar. Tudo por Amor ao Cinema (dir. Aurélio Michiles, Brasil, 2014). A vida de Cosme Alves Netto (1937-1996), curador da Cinemateca do MAM do Rio.

Na Itinerância Sesc, após o fim do festival em São Paulo e no Rio, seis filmes da seleção de 2019 serão exibidos em cinco unidades do Sesc, no interior de São Paulo. Os títulos serão programados durante o mês de maio nas seguintes cidades:

Araraquara - dias 5, 7, 12, 14, 19 e 21

Jundiaí - dias 7, 14 e 21

Santos - dias 1º, 4 e 5

São José dos Campos - dias 2, 5, 9, 12, 19 e 26

Sorocaba - dias 12, 14, 19, 21, 26 e 28.

Todas as sessões com entrada gratuita.

Spcine Play: pela primeira vez, o É Tudo Verdade, em parceria com o Spcine Play, vai disponibilizar alguns títulos da seleção internacional deste ano na plataforma online (www.spcineplay.com.br). O acesso é gratuito, e os filmes ficarão disponíveis por um período de 30 dias.

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