Cinema

Abduzidos pela realidade

Estreando na Netflix, ''Ontem Havia Coisas Estranhas no Céu'' examina o cotidiano de uma família da Mooca, SP, nos limites entre o documentário e a encenação hipernaturalista, com uma pitada de ficção científica

17/10/2020 11:26

 

 
O título e a sinopse de Ontem Havia Coisas Estranhas no Céu invocam a ficção científica. Para evitar desapontamentos, aviso logo que isso é apenas um MacGuffin, termo da dramaturgia que designa um elemento que propulsina o enredo, mas na verdade tem pouca significância e tende a ser esquecido quando o filme termina. O que importa de fato é o registro que o diretor Bruno Risas faz de sua família numa casa de classe média na Mooca, zona leste de São Paulo.

A ideia é relativamente original e conduzida com rara felicidade nos limites entre o documentário e a ficção hipernaturalista. Bruno instala sua câmera dentro da casa e filma o cotidiano: a obsessão da mãe pelos trabalhos domésticos, a dedicação do pai desempregado a suas reformas na casa, a frustração da irmã com o emprego ruim, a alienação da avó que está perdendo as faculdades mentais. Enfim, um retrato cru das negociações com que a família alimenta sua resignação com as carências financeiras, as doenças e a ausência de horizontes.



Entre brigas e tímidas manifestações de afeto, muitos cigarros e refeições em grupo, os Marcondes Machado constatam que, por mais que aconteçam coisas todos os dias, a rigor nada muda em suas vidas. Com uma exceção: eles estão fazendo um filme, e isso, de alguma forma, muda tudo. O aparato cinematográfico é explicitado com frequência, seja nas orientações de Bruno para certas cenas, seja na conversa de Viviane, a mãe, com a diretora de fotografia Flora Dias.

Em dado momento, em vez de realizar uma cena, Viviane descreve o trecho correspondente do roteiro, incluindo o que seria sua fala interior. Em outro trecho, ela discute com o filho sobre sua momentânea incapacidade para interpretar o papel. Viviane é, digamos, a protagonista do filme, a que mais especula sobre sua condição de dona de casa e mulher trabalhadora. Nisso ela se aproxima tanto de personagens de Chantal Akerman quanto de duas já clássicas do cinema brasileiro, a enganosamente simplória Noeli de Esta Não é a Sua Vida e a mãe de André Novais de Oliveira em Ela Volta na Quinta e Quintal.

Bruno Risas e Flora Dias fizeram um filme que se pode dizer sem estilo. Ou seja, sem decisões estéticas que prevalecessem sobre o material captado em sua naturalidade. Ainda assim, há um rigor nas composições, mesmo quando a luz não favorece o que mereceria ser destacado. Algumas tomadas são milimetricamente preparadas, como se vê numa das explicitações do processo de filmagem. Um plano triangular em especial, transitando entre a mãe e o pai em silêncio, é simplesmente primoroso.

Por fim, há o MacGuffin. Por três vezes ao longo do filme Viviane se inquieta com alguma coisa que não está visível no quadro. São flashforwards para sua abdução por uma nave interplanetária. Somente uma intervenção divina ex-machina poderia alterar alguma coisa na rotina daquela família. Mas será mesmo que altera? Será a ficção rasgada capaz de modificar o rumo do documentário?





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