Cinema

Água mole em pedra dura

 

22/11/2019 13:31

Da esquerda para a direita: Kleber Mendonca Filho (© Ph. Lebruman), Karim Ainouz (© Henrique Kardozo), Gabriel Mascaro (© Bruna Valença) (Reprodução/slate.fr)

Créditos da foto: Da esquerda para a direita: Kleber Mendonca Filho (© Ph. Lebruman), Karim Ainouz (© Henrique Kardozo), Gabriel Mascaro (© Bruna Valença) (Reprodução/slate.fr)

 
Num discurso pronunciado diante de uma platéia perplexa de ministros de todo o mundo, Roberto Alvim, o recém empossado secretário especial da cultura do governo Bolsonaro, agora alojado no Ministério do Turismo, vomitou no dia 19 de novembro a lenga-lenga da «propaganda ideológica para escravizar a mentalidade do povo» que vem sendo sistematicamente martelada nos setores mais sensíveis do Estado, e que tem como meta clara a desconstrução do Brasil a partir de seu delicado, complexo e deslumbrante tecido que desvenda a riqueza da cultura brasileira.

Alvim estava na sede da Unesco em Paris, no fórum que discutia o papel central da cultura nas políticas públicas e seu impacto sobre o desenvolvimento durável. Pretendeu entender mal o espírito do encontro, focado na diversidade, e desrespeitosamente valeu-se da tática surrada de deformação de princípios para repetir o espantoso e já contumaz ataque do atual governo ao que chamou de «projeto absolutista cultural esquerdista» dos últimos vinte anos.

Eis algumas pérolas do discurso de Alvim, publicados pelo jornalista Jamil Chade em sua coluna do site UOL notícias:

Nas últimas duas décadas, a arte e a cultura brasileira foram reduzidas a meros veículos (….) de palanque político, de propagação de uma agenda progressista avessa às bases de nossa civilização e às aspirações da maioria do nosso povo. (…..)

Passamos a não mais produzir e experimentar arte como ferramenta para o florescimento do gênio humano. (….) A arte brasileira transformou-se em um meio para escravizar a mentalidade do povo em nome de um violento projeto de poder esquerdista, um projeto mesquinho que perseguiu e marginalizou a autêntica pluralidade artística de nossa nação. (….)

A arte e a cultura de esquerda estavam a serviço da bestialização e da redução do indivíduo a categorias ideológicas, fomentando antagonismos sectários carregados de ódio – palcos, telas, livros, não traziam elaborações simbólicas e experiências sensíveis, mas discursos diretos repletos de jargões do marxismo cultural, cujo único objetivo era manipular as pessoas, usado-as como massa de manobra de um projeto absolutista.

Como o inimigo fabricado do bolsonarismo se concentra fundamentalmente (e por enquanto) nos governos do Partido dos Trabalhadores, Alvim poupou, talvez por ignorância absoluta, os grandes nomes da cultura brasileira das décadas passadas. O que diria ele sobre as obras absolutamente revolucionárias de Jorge Amado, Graciliano Ramos e Guimarães Rosa, para citar apenas alguns, carregadas de um universalismo devorado por leitores do mundo inteiro ? O que diria da pintura libertária de Di Cavalcanti e Portinari ? O que teria a falar sobre o Cinema Novo, que projetou o cinema brasileiro no circuito internacional ? E sobre as gerações sucessivas de gênios da música popular brasileira, que tanto se ouve nas rádios, nos bares e cafés de uma vasta constelação de países onde Alvim provavelmente nunca pôs os pés ?

O discurso canhestro e rasteiro do secretário da cultura do governo Bolsonaro, que evocou valores da «civilização judaico-cristã» para promover «o conservadorismo nas artes», pode ter eco entre os bolsominiuns das redes evangélicas brasileiras e seus novos exércitos de «Gladiadores do Altar», mas dói profundamente nos ouvidos de uma instituição multilateral como a Unesco, e mais ainda em Paris, uma capital do mundo onde se constrói efetivamente uma frente de resistência e solidariedade ao Brasil anti-fascista. Não fosse assim e o famoso teatro Odeon, um templo do teatro francês que hoje leva o nome de Teatro da Europa, não teria teria acolhido uma multidão na noite de 11 de novembro, para ouvir no seu palco grandioso os testemunhos do fotógrafo Sebastião Salgado, da produtora Emilie Lesclaux, da dramaturga Christiane Jatahy, da filósofa Djamila Ribeiro, da urbanista Joyce Berth.

O Forum des Images, um espaço de 6000 m2 no centro Les Halles que exibe 2 mil filmes por ano e está aberto a todas as formas de pesquisa, debate e pensamento, não teria reunido filas intermináveis de um público amante do cinema brasileiro no dia seguinte, quando inaugurou uma mostra de duas semanas dedicada à fértil e diversificada produção dos anos que Alvim ousa espantosamente reduzir à «bestialização e redução do indivíduo a categorias ideológicas».

Na França, um país onde se rodam 600 filmes por ano, e onde se garante também uma poderosa reserva de mercado para a sua exibição, prefere-se mais dar atenção a bons filmes do que às sandices verbalizadas pelo pretenso ultraconservadorismo da cúpula bolsonarista. Karim Aznouz, Kleber Mendonça Filho e Gabriel Mascaro, três dos cineastas presentes à mostra - e não por acaso três nordestinos - fazem parte da safra colhida por políticas públicas de cultura voltadas à expansão dos horizontes da indústria cinematográfica brasileira para além do eixo Rio-São Paulo, abrindo um espaço considerável para que novas e criativas narrativas sobre as particularides deste vasto Brasil se revelassem ao mundo com grandeza e sensibilidade.

Alvim na verdade surfa na onda deste grande sucesso dos anos anteriores com as ferramentas dos incultos, dos invejosos e dos mesquinhos, tentando desmoralizá-lo em vão. Vai ser muito difícil ao burocrata que fala em nome do que restou do Ministério da Cultura, extinto com a primeira canetada do governo Bolsonaro depois de sua chegada ao poder, evitar que o novo filme do cearense Karim Aznouz , A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, siga a rota de um dos favoritos ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2022. Como será impossível segurar a trajetória consagrada de Bacurau, o filme do pernambucano Kleber Mendonça Filho, que estreou há dois meses em mais de uma centena de cinemas da França, e mesmo depois de todo esse tempo segue como líder de bilheteria em 12 cinemas de Paris. Ou evitar a acolhida ao filme Divino Amor, a metáfora distópica com que Gabriel Mascaro desvela a hipocrisia de um Brasil neopentecostal, num horizonte não muito longe do ponto em que nos encontramos.

O discurso de Alvim diante de 140 ministros da cultura reunidos na Unesco soa patético e risível, mas é preciso parar de rir e devolver a bofetada. Está em curso no Brasil a mais escandalosa obra de desconstrução dos valores de uma nação. Uma retórica medonha e sem nenhum vestígio de ética vem sendo sincronizada em todos os escalões deste governo, ao mesmo tempo em que vão se estrangulando, pouco a pouco, as veias de acesso ao estímulo do Estado à educação, à cultura e à ciência, sem as quais o mundo do conhecimento, da beleza e da alegria tende a se asfixiar em qualquer parte do mundo. O discurso de Alvim e de seus pares na Educação, no Meio Ambiente e nas áreas de producão da Ciência não são piadas : fazem parte de uma mesma e velha estratégia nazi-fascita. A história mostra bem que, de mentira em mentira soprada para poucos, a realidade distorcida pode fabricar um monstro que se transforma em verdade para muitos.

Nada pode soar como piada num momento em que o racismo, definido na Constituição brasileira como crime inafiançável e imprescritível, é praticado despudoradamente por representantes eleitos pelo povo, como aconteceu na Câmara dos Deputados no dia da Consciência Negra. No mínimo, a classe artística deveria responder à altura à verborragia do funcionário da cultura em carta a Unesco. Nada deve passar em branco, ou estaremos abrindo as portas para a «culturalização» da estupidez, do grotesco e da crueldade como triste imagem de um país que já foi feliz e não sabia.

Dolores Vasconcellos é doutora em Ciência Política pela Universidade de Paris

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