Cinema

Algoritmos confundem e sobrecarregam nossas vidas

Apesar dos laivos de esnobismo intelectual, o filme francês 'Vidas Duplas' discute, com charme, a vida imaterial e digitalizada

30/04/2019 14:20

 

 

O principal cartão de visitas do francês Olivier Assayas apresenta o cineasta como autor de "um dos melhores filmes do século 21 – até agora", título que lhe foi agraciado pelo New York Times pelo filme que dirigiu, em 2008, Horas de Verão. Premiado habitual dos festivais de cinema de Veneza e de Cannes, Assayas, um dos favoritos da crítica européia, atualmente filma em Cuba um projeto especial que nos interessa de perto.

Com Wagner Moura, Penelope Cruz, Gael Garcial Bernal e Edgar Ramirez no elenco, o seu novo longa é Wasp Network, baseado no livro do jornalista Fernando Morais, editor do site Nocaute, Os Últimos Soldados da Guerra Fria. O tema - não se trata de ficção -, é fascinante: a ação da Rede Vespa, um grupo de agentes secretos cubanos de elite que se infiltraram em organizações anti castristas em Miami, no começo dos anos 90 quando Cuba começou a sua bem sucedida investida no turismo internacional.

Mas esta semana – a segunda – o artista plástico, ex-editor do Cahiers du Cinéma e reconhecido cinéfilo está em cartaz numa boa rede de cinemas das principais cidades brasileiras com o seu mais recente filme, Vidas Duplas, do ano passado, que por sua vez sucede a outro filme seu já exibido aqui: Personal Shopper, de 2017.

Tanto no anterior como neste de agora, Assayas se concentra e matuta sobre a existência dos duplos, do palco e dos bastidores, das vidas duplas, das dúvidas, reticências, das personalidades rachadas e mais ainda inconclusas diante das imensas mudanças atuais na vida humana real cada vez mais desmaterializada pelas invenções digitais.

Doubles vies acompanha Alain (Guillaume Canet) um editor de livros com sérias dúvidas se deve adaptar-se – ou conformar-se?-no seu trabalho, à era digital. Suas dúvidas vão da permanência e do êxito consumado dos e-books (como alimento cultural e também como fonte de lucros; como um bom negócio) à sua efêmera existência de uma moda como outra qualquer.



Paralelamente a essa discussão, o editor recusa publicar o segundo livro de um autor seu, de sucesso comercial, Léonard (Vincent Macaigne), ao contrário do que pensa sua mulher, uma atriz de teatro ocasionalmente estrela de uma série policial de TV, Selena (Juliette Binoche), que acredita no projeto.

Como pano de fundo, as relações duplas das duplas de amantes eventuais que se formam no coração do grupo de casais e mais uma jovem participante avulsa ocasional do clã.

Atriz, editor, escritor, político, jornalista, especialista em marqueting digital (é claro) são os protagonistas que, na cama, acabam preferindo discutir algoritmos e a nossa vida digital a usufruir prazer, tesão, repouso e paixão.

Assuntos na cama: os livros acessados em celulares, a mais recente novidade em investimento com grande perspectiva de lucros. O gênero literário da autoficção. O desapontamento da inversão nos e-books.



Angústias das bolhas de intelectuais burgueses.

Mas Juliette Binoche continua cativante, o modo de viver parisiense segue sedutor (o modelo de Assayas filmá-lo se inspira na espontaneidade milimetricamente estudada e no aconchego dos filmes do cinema oriental) e o negócio é acompanhar as mudanças mesmo que (como se diz ao final do filme, diante de um mar nublado singrado por pequeno barco) mulheres e homens continuem sendo, desde a sua minúscula origem "como uma ervilha" dentro da barriga da mãe, ou um canalha ou alguém íntegro.

"Vidas duplas não tenta analisar o funcionamento dessa nova economia, mas sim observar como essas questões nos abalam, pessoal, emocional e às vezes humoristicamente", propõe Olivier Assayas sobre esta sua comédia de costumes.

"A digitalização do nosso mundo e sua reconfiguração em algoritmos é o vetor moderno de uma mudança que nos confunde e sobrecarrega". Tem razão.

"A economia digital infringe regras e, muitas vezes, leis. Além disso, questiona o que parecia sólido na sociedade". É o mantra da insustentável leveza do ser, de Kundera.

Para além dos traços esnobes de Doubles vies vale a pena dar uma olhada neste filme que, no mínimo, confunde.



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