Cinema

Amor e política em tempos hostis

A repressão política pode ser o afrodisíaco de uma paixão amorosa, parece dizer o filme polonês 'Guerra Fria'

17/11/2018 12:24

 

 
‘’O passado sempre retorna. Deve ser elaborado no presente para não se repetir no futuro. Quem volta a lembrar deste princípio caro à psicanálise é o cineasta polonês Pawel Pawlikowski, autor de Cold War, (de 2017) apresentado no Festival de Cannes de maio passado onde ganhou a Palma de Melhor Diretor. ’’

Publicamos esta informação aqui, em Carta Maior, dois meses atrás, quando o filme Guerra Fria ecoava forte entre as platéias europeias e também entre a seleta crítica de cinema do Velho Continente. Todos, entusiasmados com essa história de amor radical contada em preto e branco com uma bela fotografia semi granulada e incisiva para o drama, um cartaz dos festivais de cinema do Rio e de São Paulo e cercado pelas mais entusiasmadas expectativas.

Na época, Peter Bradsaw, do jornal The Guardian, levou essa nova sensação cinematográfica às alturas. Ele considerava que Pawlikowski, autor também de um belo filme - Ida*, Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e exibido no Brasil -, volta a tratar do "coração sombrio da Polônia. ’’ Escreveu: "O amor ferido em seu centro vem das profundezas do cinismo, exaustão, submissão e medo patrocinados pelo Estado".

Mas talvez pela mudança de percepção da arte por parte dos europeus diante da chegada de multidões de imigrantes e de refugiados, uma ameaça à estabilidade do continente – situação criada por eles próprios como resultado de alianças espúrias que os levam às guerras -, e da ameaça aos seus mercados de trabalho; e por conseqüência, da ascensão de grupos e governos (ultra) nacionalistas, nós discordamos dessa análise e do eixo dos comentários sobre o filme.

Guerra fria é mais que um filme político.  Trata da possibilidade de o amor se potencializar diante de uma situação de repressão. Como as relações de amor podem vir a degenerar numa guerra fria inevitável? Ou seria a relação de amor estático como a de Wictor e Zula, os personagens em questão, que só pode se alimentar em um mundo fechado semelhante ao da Polônia da época?

A época da trama é o imediato pós-guerra quando a Polônia ficara do ‘’outro lado’’ do mundo, além do que depois foi denominado (pelos aliados) como cortina de ferro. Stalin dava as cartas.

A trama desse amor arrebatador: Wiktor é um belo professor de música e compositor. A moça, uma jovem aluna sua, Zula, que se prepara para a profissão de cantora. É intérprete de canções folclóricas e aí o passado polonês saudoso se faz lembrar e o folclore é, talvez, uma máscara para escamotear o passado misterioso da moça.


Joanna Kulig interpreta Zula, em Cold War  (Divulgação)

Os temas musicais de Cold War vão da obediência irrestrita à União Soviética de Stalin à questão da pureza racial e étnica na Polônia (através do repertório cantado por Zula) até ao papel do rock and roll e do jazz ocidental na Paris dos anos 40 aos 60, ambos detestados e temidos pelas autoridades polonesas que os viam como um amanhã cosmopolita sem as referências autocráticas do presente.

O filme passeia entre as idas e vindas dos dois amantes pela Europa. Num momento inicial, entre Berlim, Moscou e ainda pela Iugoslávia de Tito. Depois, entre Paris e Varsóvia. Na primeira oportunidade de fuga da Polônia estalinista é Wictor quem atravessa a zona soviética, em Berlim - bem antes da instalação do checkpoint Charlie. Sozinho. Espera por Zula, mas ela decide não acompanhá-lo.

Anos depois, ambos se reencontram na Itália e acabam vivendo juntos, em Paris. Zula não se adapta à vida em uma capital do ocidente e foge de volta para Varsóvia. Wictor larga a vida organizada em Paris e a segue.

Críticos europeus, meses atrás, se perguntavam: a guerra-fria dos anos 60 congelou sentimentos, sonhos e destinos de uma geração? Apenas um ou outro crítico se dedicou a perguntar: o que uma situação externa de repressão, no caso a da política da época, pode potencializar a intensidade do sentimento amoroso?

Essa paixão, que vai além de todos os limites – se é que há limites para as paixões – pode ser estimulada, como um afrodisíaco, pela repressão política?
 
Pawlikowski dedicou o filme aos seus pais, cujos nomes são os mesmos dos protagonistas: Wiktor e Zula. Seus pais morreram em 1989, pouco antes da queda do Muro de Berlim. Ao longo de 40 anos de relacionamento o casal viveu entre idas e vindas, sempre um atrás do outro. "Ambos eram pessoas fortes e maravilhosas, mas como casal, um desastre sem fim", reflete Pawlikowski, que vive na Grã-Bretanha há 40 anos, onde trabalhou na BBC antes de começar a filmar.

Eles foram os personagens dramáticos mais interessantes que eu conheci.” Ele diz que conservou, nos seus personagens de Cold War, traços marcantes dos dois: “Incompatibilidade de temperamento, incapacidade de ficar juntos e anseio de estar quando estão separados; a dificuldade da vida no exílio, de permanecer em uma cultura diferente, a dificuldade da vida sob um regime totalitário.’’

Mais do que apenas uma situação política, em Guerra Fria o que se discute é o afrodisíaco que a política – e uma situação de repressão – pode vir a significar numa historia de amor.

Talvez os poloneses que vivem hoje no ambiente ultranacionalista do partido conservador Lei e Justiça, possam dizer.



*Filme Ida, de 2013, (em francês; legendas em inglês):





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