Cinema

Anarquismo e todas as esquerdas: uni-vos!

No terceiro e último episódio para a TV de 'História do Anarquismo - sem deuses nem mestres' é mostrado como a desunião entre partidos e movimentos de esquerda podem levar ao fracasso político nos momentos decisivos de eventos históricos

27/04/2018 10:53

 

 
Hoje á noite vai ao ar, no Canal Curta, o terceiro e último episódio da trilogia História do Anarquismo - sem mestres nem deuses,* do cineasta francês Tancrède Ramonet. O excelente documentário possibilita um alerta e provoca um travo amargo no rastro do movimento que até os idos da guerra civil espanhola, apesar de suas derrotas pontuais, foi uma das mais vigorosas forças políticas conduzidas pelo proletariado, na Europa, nos Estados Unidos, em alguns países da América Latina - com a liderança do México –, África e mesmo no oriente, no Japão e na China.

Nos capítulos anteriores, o filme de Ramonet mostrou, com registros preciosos de documentos, fotos raras, filmetes caseiros e outros docs de noticiários de época o quanto foi longe a força do anarquismo. Desde o nascimento do socialismo, na Grã Bretanha da Revolução Industrial, quando a expectativa de vida dos trabalhadores era de apenas 30 anos de idade, e durante os meados do século dezenove, quando os anarquistas denominaram a propriedade um ‘’escândalo e um roubo’’, denunciando a dominação política, econômica e religiosa às quais eram submetidas as populações – idéias essas transformadas pelo líder russo Mikhail Bakunin em pensamento realmente revolucionário.

‘’A única forma de combate ao capitalismo, ’’ afirmavam os anarquistas, ‘’ é a revolução armada. ’’

‘’E a greve geral ainda é o grande instrumento de luta,’’ bradavam.

O documentário aponta como nasceram, no seio do movimento anarquista, as reformas agrárias vindas até aqui, os dias atuais, mediante a ação direta dos camponeses. A expropriação de latifúndios e redistribuição de terras entre os agricultores familiares e lavradores explorados, e as ocupações.

A escola anti-autoritária e livre, e as formas de educação laica também comentadas nos dois capítulos anteriores. Elas resultaram nas escolas alternativas e anti-sistema, recicladas durante os anos 60, pelos ingleses da célebre Summerhill, replicadas mundo afora e existentes ainda hoje.

Ouro rastro deixado pelas origens do anarquismo: o embrião do amor livre, da sexualidade sem hipocrisias, do proibido proibir dos movimentos dos jovens de maio de 1968. E os hippies.

Ramonet se detém igualmente na criação dos anarco-sindicatos, as chamadas casas do trabalhador internacional, que brotaram às centenas nas cidades europeias – germens indubitáveis dos núcleos sindicais de agora.

Nos três episódios – os anteriores e o de hoje – expõe-se a supressão e perda de diversos líderes anarquistas históricos assassinados alguns, outros condenados à prisão perpétua ou à morte, nos julgamentos encenados para sufocar e silenciar os fundamentos do gigantesco movimento popular (já então mais organizado, com hierarquias horizontais) que continuava se expandindo de modo surpreendente.

Os moldes desses tribunais seguiram o modelo dos processos stalinistas de Moscou, Budapeste, Praga e Sofia. Única diferença entre uns e outros: estes, os dos líderes anarquistas, eram julgamentos teatrais, sempre incentivados pela mídia estabelecida do mundo livre das denominadas democracias. Como vemos ocorrer hoje no Brasil ao modo de uma reprise trágica.

Um desses julgamentos farsescos mais célebre - entrou para a história -, e apresentado no filme, foi o dos operários Nicola Sacco e Bartolomeu Vanzetti, imigrantes italianos de Massachusetts cuja inocência só foi reconhecida oficialmente 50 anos depois da morte de ambos, na cadeira elétrica.

Joan Baez e Enio Morriconi, na época, compuseram uma bela canção, hoje tida como a marcha fúnebre dos anarquistas. Na voz de Baez, as lancinantes últimas palavras de Vanzetti: ‘’Justiça e liberdade. ’’

Um dos recados que História do Anarquismo fornece é o resultado do dano político e estratégico que as divisões e os desacordos entre as diversas correntes de esquerda quase sempre podem trazer.

Um exemplo: a revolução mexicana, que contou com as legiões de Zapata nas batalhas - e poderia, quem sabe, ter sido uma importante porta de entrada para a revolução do comunismo libertário na América Latina – foi desbaratada a partir do enfraquecimento ocasionado pelos anarquistas intelectuais das cidades, de um lado, e os camponeses tidos por eles como reacionários, do outro. Este tema foi mencionado no segundo episódio da série.

No capítulo de hoje, são dois assuntos bem mais intrincados trazidos por Ramonet à revisitação histórica. Quais os rumos que poderiam ter sido tomados pela revolução soviética, em longo prazo, caso a sua aliança de primeiro momento com a força do exército de milhares de soldados anarquistas liderados por Néstor Makhanó, o ucraniano da Criméia e um dos ícones do movimento, tivesse perdurado?

E a guerra civil espanhola iniciada com a energia e o entusiasmo da revolução libertária, na Catalunha e, num segundo tempo, a guerra com o líder Buenaventura Durruti comandando a célebre coluna de 6 000 voluntários anarquistas, mulheres e homens. Caso a União Soviética tivesse sustentado os anarquistas e os republicanos não os tivessem perseguido...

Na Espanha imediatamente pré Franco, a revolução libertária tinha como objetivo destruir o poder – ao contrário dos comunistas que desejavam conquistá-lo, como lembram os historiadores e professores de ciência política que costuram os eventos apresentados no doc.

Os anarquistas foram abandonados pelas democracias ocidentais. Foram marginalizadas pelo nazismo e pelo fascismo italiano e também pelo stalinismo que se aliara aos republicanos.

Um dos episódios profundamente mais dramáticos do século 20.

O capítulo de hoje finaliza em 1939, com ‘’ a burguesia evitando a união dos trabalhadores; e o imperialismo, ontem assim como hoje, com a palavra paz apenas na boca. ’’

Em memória dos derrotados é o título do epílogo do documentário que se encerra com algumas das palavras de resistência histórica do anarquista espanhol Buenaventura Durruti.

Constituem motivo de reflexão para este Primeiro de Maio – o Dia Internacional do Trabalhador como foi batizado originalmente. Uma data, afinal, criada pelo movimento anarquista europeu como lembra o documentário de Tancrède Ramonet.

‘’Nós sempre vivemos na miséria e podemos continuar assim por um bom tempo. Mas lembre-se que nós, trabalhadores, somos os únicos produtores de riqueza. Somos nós que fazemos as máquinas funcionarem; somos nós que extraímos o carvão das minas; somos nós que construímos as cidades. Sabemos que mereceremos as ruínas porque a burguesia tentará destruir o mundo nos últimos momentos de sua história. Mas não temos medo das ruínas porque carregamos um novo mundo em nosso coração. ’’ Buenaventura Durruti.

Um novo mundo viável, construído com a união das esquerdas.

* Hoje, no Canal 56, às 23 horas. Horários alternativos: sexta-feira, dia 27, às 23 horas. Amanhã, dia 28, às 03 e às 12 horas. Domingo, dia 29, meia-noite.







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